As propostas econômicas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) apresentam diferenças sobre o papel do Estado, o controle das contas públicas, a cobrança de impostos e a geração de empregos. No segundo turno das eleições de 2026, os candidatos defendem caminhos distintos para enfrentar o endividamento do país e financiar políticas públicas.
O debate ocorre em um cenário de pressão fiscal. A dívida bruta do Brasil chegou a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB) em agosto de 2026, o equivalente a aproximadamente R$ 11,1 trilhões, segundo dados do Banco Central.
Enquanto Lula propõe manter o arcabouço fiscal e combinar investimentos públicos, políticas sociais e maior tributação proporcional das rendas mais altas, Flávio defende mudanças nas regras fiscais, redução de despesas administrativas, diminuição de impostos e desburocratização.
Ajuste fiscal: como cada candidato pretende controlar a dívida
Lula pretende manter o atual arcabouço fiscal, mecanismo que estabelece limites para o crescimento das despesas públicas. A estratégia prevê controle dos gastos, ampliação da arrecadação e estímulo à atividade econômica para melhorar o resultado das contas públicas.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, propõe alterar as regras fiscais e reduzir despesas da máquina pública. Em agosto, Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha, afirmou que o plano prevê um ajuste equivalente a 1,5% do PIB, estimado em cerca de R$ 190 bilhões com base no PIB de 2025.
A campanha do senador também declarou que pretende manter programas sociais, como o Bolsa Família e o Farmácia Popular. O detalhamento das medidas de corte e de seus efeitos sobre os serviços públicos, porém, permanece como um dos pontos que exigem esclarecimento.
Impostos e investimentos: arrecadação ou redução da carga tributária
Na área tributária, Lula defende aprofundar a tributação progressiva, com maior contribuição proporcional das rendas mais altas. O candidato também prevê a continuidade de investimentos do Novo PAC e de políticas voltadas à infraestrutura, à reindustrialização, à inovação e à energia renovável.
A avaliação da equipe econômica petista é que a expansão da atividade econômica pode elevar a arrecadação e contribuir para financiar políticas públicas.
Flávio prioriza a redução de impostos, dos custos empresariais e da burocracia. Para o agronegócio, suas propostas incluem melhorias na logística, ampliação da capacidade de armazenamento das safras, fortalecimento do seguro rural e incentivo à produção nacional de fertilizantes.
A execução das duas estratégias depende de fatores distintos: no plano de Lula, o resultado está relacionado ao crescimento econômico, à arrecadação e ao controle das despesas; no de Flávio, a redução de tributos exigiria compatibilização com as metas fiscais e com os cortes prometidos.
Trabalho, renda e direitos trabalhistas
As propostas também diferem na forma de estimular o emprego e a renda. Lula defende a valorização real do salário mínimo, a manutenção dos direitos trabalhistas e a redução da jornada semanal para 40 horas, sem diminuição salarial. A agenda inclui a continuidade de políticas sociais e a ampliação da proteção aos trabalhadores.
Flávio propõe reduzir os custos de contratação e flexibilizar modalidades de emprego. Entre as ideias estão formatos de contratação com custos menores para empregadores em determinados grupos etários.
Os efeitos dessas medidas sobre salários, formalização e geração de vagas dependerão do desenho e da implementação das propostas. O detalhamento dos custos e dos impactos esperados também é um ponto a ser considerado na avaliação do plano do candidato do PL.
Programas sociais: o que os candidatos prometem
Lula pretende manter programas como Bolsa Família e Minha Casa, Minha Vida, além de dar continuidade às políticas de combate à fome. A equipe de Flávio também afirma que pretende preservar programas sociais, incluindo Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida e Farmácia Popular. A questão central é como financiar essas iniciativas diante da proposta de reduzir despesas e impostos.
O debate envolve, portanto, não apenas a manutenção dos benefícios, mas também a origem dos recursos necessários para sustentá-los e a compatibilidade entre as promessas sociais e as metas de ajuste fiscal.
Desempenho econômico dos governos anteriores
Entre 2019 e 2022, durante o governo de Jair Bolsonaro, o Brasil enfrentou a pandemia de Covid-19 e os efeitos econômicos da guerra na Ucrânia. O PIB cresceu, em média, cerca de 1,4% ao ano no período. A gestão adotou medidas emergenciais de auxílio, promoveu privatizações e concessões e encerrou 2022 com a dívida bruta em torno de 72% do PIB.
Entre 2023 e 2025, no terceiro mandato de Lula, o PIB cresceu, em média, aproximadamente 2,9% ao ano, considerando os dados revisados do período. O governo retomou políticas sociais, ampliou investimentos em infraestrutura, valorizou o salário mínimo e aprovou a reforma tributária sobre o consumo. A taxa de desemprego chegou a 5,6% em 2025, segundo o IBGE.
A dívida pública, entretanto, voltou a crescer durante o terceiro mandato de Lula e atingiu 82,9% do PIB em agosto de 2026. A comparação entre os períodos exige considerar a pandemia, o cenário internacional, os juros e as decisões econômicas adotadas em cada governo. Os indicadores mostram trajetórias diferentes de crescimento, emprego e endividamento, mas não permitem atribuir todos os resultados exclusivamente às decisões de cada presidente.
*Tainá Bayma – sob supervisão
