O escritor francês Édouard Louis, um dos nomes de destaque da literatura contemporânea, publicou no último domingo (11) um artigo em que alerta para os riscos que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro (PL) na eleição presidencial representaria, em sua avaliação, para a cultura, a literatura, a diversidade e os direitos sociais no Brasil.
No texto, publicado na seção de opinião da Folha de S.Paulo, Louis relembra suas passagens pelo país, incluindo a participação na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), e destaca a diversidade brasileira. O autor também chama atenção para a produção literária de grupos historicamente marginalizados e para a relação entre cultura, liberdade e inclusão social.
Apesar de reconhecer as limitações de seu conhecimento sobre a realidade brasileira, o escritor afirma que identifica ameaças a aspectos do país que considera fundamentais.
“Tudo que eu vi nas minhas viagens ao Brasil, tudo que testemunhei, tudo que constitui a beleza, a força e a singularidade desse país, Bolsonaro quer destruir. A sublime e misteriosa floresta amazónica, sem a qual a humanidade não pode sobreviver, e graças à qual o oxigénio do planeta é respirável, e que Flávio Bolsonaro, assim como o seu pai fez antes dele, quer devastar para vendê-la ao capitalismo mais destruidor”.
Escritor relaciona disputa política a direitos e desigualdade
Conhecido por livros que abordam a própria trajetória familiar, as dificuldades da classe operária francesa, a exclusão social e a homofobia, Édouard Louis também critica o que considera uma ameaça aos direitos da população LGBTQIA+ e ao pluralismo religioso e cultural. No artigo, o escritor afirma que Flávio Bolsonaro tentará dar “cada vez mais espaço ao fundamentalismo religioso, opondo-se aos direitos das pessoas transgénero, gays e lésbicas, como fez tantas vezes no Senado ao longo dos últimos anos”.
Louis também associa o projeto político da família Bolsonaro ao aprofundamento das desigualdades e à ampliação da polarização social. Ao descrever o modelo de sociedade que atribui ao grupo, escreve que o clã Bolsonaro “quer uma sociedade do medo, da violência, da prisão, do ódio, da polarização, do desmonte do Estado. Uma sociedade da família conservadora, da brutalidade, da ordem, da desigualdade, da reprodução das classes sociais, uma sociedade onde cada um permanecerá em seu lugar, enquanto o clã Bolsonaro continuará a enriquecer com seus esquemas de corrupção.“
Ao final do texto, o escritor dirige uma mensagem aos brasileiros diante do segundo turno da eleição presidencial: “que não tenham medo e que lutem na segunda volta das eleições. Estou com vocês.“
Artistas pedem atenção internacional às eleições
A manifestação de Louis ocorre em meio à mobilização de artistas brasileiros em torno da disputa presidencial. Mais de 50 nomes do setor cultural assinaram uma carta aberta que pede “atenção internacional rigorosa” para o segundo turno das eleições no Brasil. Entre os signatários estão Wagner Moura, Sônia Braga, Fernando Meirelles, Petra Costa, Rodrigo Teixeira, Alice Braga e Gabriel Mascaro.
No primeiro turno, realizado em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu 45,16%. Como nenhum dos candidatos alcançou mais da metade dos votos válidos, os dois disputarão o segundo turno, marcado para 25 de outubro.
