Política é assunto de criança? Para os psicólogos Erilania Mendes e Gabriel Diniz, a resposta passa menos por ensinar conceitos políticos aos pequenos e mais pela capacidade dos adultos de escutar, dialogar e estimular o pensamento crítico desde a infância.
Os dois participaram de entrevista no Opinião Criança, videocast do Opinião Criança apresentado por Elba Aquino, em que discutiram como pais, mães e educadores podem abordar o tema com crianças de forma clara, respeitosa e adequada a cada idade.
Para Erilania, antes de pensar em como conversar com uma criança sobre política, o adulto precisa refletir sobre a própria compreensão do assunto. Segundo ela, especialmente no período eleitoral, política pode ser confundida com “politicagem”, fazendo com que as crianças tenham contato com uma visão reduzida do tema.
“Antes de se perguntar de que forma se aborda o assunto política com criança, acho que é interessante que o adulto faça a reflexão: como eu compreendo a política hoje? Muitas vezes, principalmente nesse período atual, a política é confundida com politicagem e a criança fica exposta justamente a essa outra versão da política”, afirma.
A psicóloga observa que as crianças estão em contato com manifestações políticas mesmo quando os adultos não percebem. Carreatas, músicas, discursos e outros elementos podem despertar a curiosidade dos pequenos. Nesse cenário, a recomendação é não tratar a criança apenas como receptora de informações, mas criar espaço para que ela faça perguntas e desenvolva suas próprias reflexões. A entrevista completa está disponível no canal do YouTube do Opinião CE.
Criança pode questionar
Erilania Mendes defende que conversar sobre política na infância deve contribuir para formar crianças capazes de questionar informações e respostas prontas.
“É impossível para mim, enquanto pesquisadora, psicóloga, que estou ali escutando crianças e adolescentes, não apostar no esperançar, não apostar de que as coisas podem se transformar”, afirma.
A psicóloga utiliza o conceito de “esperançar”, associado ao educador Paulo Freire, para defender uma postura ativa diante do futuro. Para ela, não se trata de esperar passivamente por mudanças, mas de participar dos diálogos e dos espaços coletivos capazes de transformar aquilo que parece estabelecido.
A ideia também passa por estimular a curiosidade. “Estimular cada vez mais uma criança pensante, crítica, que indague, que não seja somente receptiva ali de informações e de estímulos, que possa questionar o que está posto”, explica.

Para Erilania, esse processo também exige que os adultos estejam dispostos a abandonar respostas automáticas diante das perguntas das crianças.
“Ah, por que isso? Porque não. Mas como assim? O adulto fica nesse lugar, principalmente quando os assuntos são mais densos e inquietantes. Então vamos sair também desse lugar.”
Antes de falar, é preciso escutar
Gabriel Diniz parte de outro ponto fundamental: a escuta. Para o psicólogo, antes de procurar um roteiro ou uma fórmula para conversar com crianças sobre política, os adultos precisam avaliar se estão realmente ouvindo o que os pequenos têm a dizer. “Para que a gente converse sobre qualquer coisa que seja, inclusive sobre política com a criança, é preciso que a gente escute. E aí acho que isso nos leva a uma pergunta ainda mais fundamental: estamos escutando as nossas crianças?”
Gabriel também questiona a ideia de que o adulto deve esperar a criança fazer uma pergunta para então iniciar uma conversa. Segundo ele, os próprios adultos podem demonstrar curiosidade e abrir o diálogo, perguntando o que a criança já sabe sobre determinada palavra ou assunto. “Por que esperar a criança perguntar alguma coisa? Por que esperar a criança se deparar com algo? A gente pode ser curioso em relação a isso também.”
A proposta, segundo o psicólogo, é começar a conversa a partir do repertório da própria criança: o que ela já ouviu, o que entende e quais dúvidas possui.

Política está presente no cotidiano
Gabriel também chama atenção para o fato de que política não se restringe aos espaços formais de decisão. “A política não é uma coisa que se faz somente nos espaços de deliberação”, afirma. A compreensão amplia o espaço para conversas sobre situações presentes no cotidiano das crianças e sobre temas que atravessam suas relações, sua comunidade e a sociedade.
Para os psicólogos, conversar sobre política na infância não significa transformar crianças em adultos ou antecipar discussões complexas. O objetivo é criar condições para que elas desenvolvam curiosidade, capacidade de questionamento, escuta e pensamento crítico, respeitando a linguagem e as características de cada idade. Erilania resume esse processo também como um convite aos próprios adultos para recuperar a curiosidade e a capacidade de imaginar possibilidades para o futuro. “Se é para eu dizer o que é que eu esperanço para o futuro, é que a gente se volte para a coletividade”, afirma.
