A formação de leitores não começa, necessariamente, com grandes clássicos da literatura. Pode surgir de um gibi, de um livro ilustrado ou de um romance leve. Para a escritora Fernanda Marques, o mais importante é dar o primeiro passo e permitir que a leitura faça parte da rotina das famílias. Em um cenário marcado pela hiperconectividade e pelo excesso de telas, ela defende que cultivar esse hábito é uma forma de fortalecer vínculos, ampliar o conhecimento e promover uma sociedade mais afetiva.
É justamente essa reflexão que motivou o Opinião Criança, projeto do Opinião CE, a promover o evento “Onde nascem os leitores”, que reunirá famílias e educadores para discutir o papel da leitura na infância. O encontro será realizado nesta sexta-feira (31), a partir das 17h, na Livraria Leitura, no Shopping Iguatemi Bosque, em Fortaleza.
A programação terá início com a leitura do livro infantil “A Mãe Que Lia”, escrito por Fernanda Marques em parceria com a ilustradora Carolina Lopes. Lançada no ano passado, a obra conta a história de uma criança que cresce cercada pelo incentivo à leitura e mostra como as histórias compartilhadas entre mãe e filho permanecem como uma herança afetiva. “Fica a memória afetiva, o conhecimento”, resume a autora.
Segundo Fernanda, o livro celebra a leitura como um gesto de presença e de fortalecimento dos vínculos familiares.
Além da contação de histórias, o evento contará com atividades lúdicas para as crianças e uma roda de conversa com pais e responsáveis sobre a importância da leitura, critérios para escolher livros infantis e estratégias para criar o hábito de ler desde os primeiros anos de vida. “Às vezes, as pessoas não gostam de ler porque não tiveram contato com um bom livro. Costumo dizer que um bom livro infantil é aquele que os adultos também gostam de ler”, afirma.
O livro como companhia e ferramenta de transformação
Natural de Sobral e criada em Massapê, Fernanda Marques construiu sua relação com os livros muito antes de se tornar escritora. Depois de concluir parte dos estudos em Fortaleza, mudou-se para os Estados Unidos, onde finalizou a graduação equivalente ao curso de Pedagogia no Brasil.
Foi nesse período que a leitura se tornou uma companhia indispensável. “Antes de tudo, amo ler. Quando fui embora para os Estados Unidos, os livros foram meus companheiros. Ser leitora ajudou inclusive a desenvolver muito meu inglês”, relembra.
Nos primeiros anos vivendo no exterior, trabalhou como professora e babá. Com a chegada do primeiro filho, passou a compartilhar nas redes sociais reflexões sobre maternidade, educação e cotidiano, reunindo milhares de seguidores. Em 2018, lançou o livro “Trechos de Mim”, coletânea de crônicas, e passou a oferecer cursos voltados para mães e pais.
O sonho de escrever uma obra infantil, porém, nasceu da experiência de ler diariamente para o filho desde os primeiros meses de vida.
Hoje, mesmo aos 11 anos, o hábito permanece. “Quando tive filhos, quis dar de presente a leitura. O amor pelo aprendizado. O livro ajuda em tudo. O desempenho acadêmico passa pela leitura. Até matemática passa. O momento de leitura com meus filhos é quando me conecto com eles.”
“O momento da leitura é inegociável”
Para Fernanda Marques, um dos maiores desafios atuais é criar espaço para a leitura em uma época marcada pelo consumo acelerado de conteúdos digitais. Ela acredita que o cérebro vem sendo condicionado à rapidez das redes sociais, tornando cada vez mais difícil manter a concentração por longos períodos. Apesar disso, observa um movimento de retomada do interesse pelos livros.
“Está tendo um movimento de contracultura. A leitura veio justamente com essa contracultura. Não dá para desistir da arte, das pessoas que escrevem. É importante consumir isso até para desconectar a mente. Estamos ficando adoecidos.”
Na infância, segundo ela, cabe aos adultos conduzir esse processo, estabelecendo limites para o uso das telas e incentivando outras formas de lazer e aprendizado. “A minha abordagem com meus filhos, eu brinco, é o caminho do meio. Tem videogame, joga com amigos, porque o pertencimento ao coletivo é importante, mas precisamos ter firmeza na condução. O momento da leitura é inegociável.”
A escritora também ressalta que o exemplo dado pelos pais faz diferença. Foi dessa convicção que nasceu um clube de leitura que hoje reúne mais de 500 mulheres.
Segundo ela, não há problema em começar por livros leves ou romances considerados simples. “Começou com a gente lendo romances mais bobinhos e está tudo bem. A gente já vive a sociedade da performance, tendo que sempre melhorar e produzir. Muitas mulheres sentem culpa até por ler apenas por prazer. Muitas vezes, essa é a porta de entrada. Tem que começar de algum lugar.”
