A cirurgia de feminização da voz já faz parte da assistência oferecida pelo Hospital Estadual Leonardo Da Vinci (Helv) a mulheres trans atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no Ceará.
Conhecido como glotoplastia de Wendler, o procedimento integra o processo transexualizador e amplia o acesso à saúde para a população trans.
A voz representa uma importante forma de expressão da identidade. Para mulheres trans, ela também está associada ao pertencimento, à segurança e ao reconhecimento social. Nesse contexto, o procedimento contribui para alinhar características vocais à identidade de gênero das pacientes.
Entre as pessoas que passarão pela cirurgia em julho estão a assistente social Sophia Leite, 30, e a agente administrativa Thaísa Gondim, 44. Para ambas, a oportunidade de realizar o procedimento pelo SUS representa um marco em suas trajetórias.
A assistente social Sophia Leite está entre as pacientes que realizarão a cirurgia de feminização da voz pelo SUS.

“Para mim, essa é uma conquista primeiramente pessoal, porque sempre me senti incomodada com minha voz; e social, porque é bom perceber que o Estado nos vê como somos, que nossas necessidades são validadas”, afirma Sophia Leite.
Da mesma maneira, Thaísa Gondim destaca a relevância da iniciativa.

“Considero uma conquista muito importante para nossa comunidade. É uma necessidade que muitas de nós sentimos para adequar características ao gênero com o qual nos identificamos”, relata a paciente.
IDENTIDADE VOCAL
Na avaliação de Sophia Leite, a preparação para a cirurgia reforçou a importância da voz na construção da identidade. As sessões de fonoterapia permitiram uma compreensão mais ampla sobre os impactos da comunicação na qualidade de vida.
“A voz é uma identidade pessoal de todos. Então, se você me pergunta se isso pode impactar minha vida, eu digo que sim, muito. Minha voz é muito valiosa para mim, é parte de quem eu sou”, ressalta a assistente social.
A rotina profissional de Thaísa Gondim envolve atendimento direto ao público. Por isso, a expectativa é que a mudança vocal proporcione mais conforto e segurança em diferentes situações do cotidiano.
“Esse procedimento vai trazer mais confiança para me comunicar, tanto no trabalho quanto nas conversas por telefone. Vou me sentir mais segura perante o mundo,” salienta a agente administrativa.
A preparação para a cirurgia segue acompanhada por uma equipe multiprofissional, que continuará prestando assistência também após o procedimento.
“Estou feliz por participar desta oportunidade de mudança vocal. Ainda teremos a etapa cirúrgica e mais sessões de fonoterapia. É um processo construído passo a passo”, destaca Sophia Leite.
ACOMPANHAMENTO
A fonoaudióloga Denire Aragão, responsável pelo acompanhamento das pacientes, explica que a feminização vocal envolve mais do que a alteração da frequência da voz. Aspectos ligados à comunicação e ao comportamento vocal também fazem parte do processo.
“Existe um mito de que a cirurgia resolve tudo sozinha. Ela aumenta a frequência da voz. Aspectos como ressonância, entonação e dinâmica da fala dependem do acompanhamento fonoaudiológico antes e depois da cirurgia”, afirma a profissional de saúde.
Segundo a especialista, os melhores resultados são alcançados quando diferentes áreas atuam de forma integrada, como ocorre na unidade hospitalar.
“O processo de afirmação vocal mexe profundamente com as esferas biológica, psicológica e social da paciente. Quando fonoaudiólogos, otorrinolaringologistas, endocrinologistas e psicólogos trabalham juntos, o cuidado deixa de ser fragmentado e passa a ser seguro e integrado”, frisa Denire Aragão.
INCLUSÃO E DIREITOS
Disponível na rede pública desde 2024, a glotoplastia de Wendler permite que mulheres trans tenham uma voz mais feminina, compatível com sua identidade de gênero. A coordenadora médica do Serviço de Otorrinolaringologia do Helv, Débora Lima, explica que o procedimento é realizado sem cortes externos.
“Com o auxílio de instrumentos especiais, como o microscópio, o comprimento da prega vocal é reduzido. São dados dois pontos para haver maior tensão e diminuição do comprimento e da massa dessa corda vocal”, afirma a médica.
A especialista destaca que a oferta da cirurgia pelo SUS representa um avanço importante para a promoção da equidade e do cuidado integral à população trans.
Segundo Débora Lima, a voz é um dos principais elementos de identificação social e, frequentemente, expõe pessoas trans a situações de discriminação e sofrimento emocional.
“Disponibilizar esse procedimento gratuitamente amplia o acesso a uma tecnologia de saúde, que até então era restrita a poucos centros especializados”, afirma a médica.
O impacto da adequação vocal também alcança a saúde e o bem-estar das pacientes, favorecendo a inserção social, as relações interpessoais, o acesso ao mercado de trabalho e o exercício pleno da cidadania.
Para a coordenadora-médica, a consolidação da cirurgia de feminização da voz na assistência especializada da rede pública estadual fortalece uma atenção cada vez mais inclusiva.
“Percebemos uma transformação na forma como essas pessoas ocupam os espaços sociais. A voz passa a ser um instrumento de expressão autêntica, impactando positivamente sua saúde e qualidade de vida”, conclui.
COMO ACESSAR
O acesso às cirurgias de feminização da voz ocorre por meio da Central de Regulação do Estado. A procura pelo procedimento parte principalmente de pessoas em processo de transição de gênero, como as atendidas pelo Serviço Ambulatorial Transdisciplinar para Pessoas Transgênero (Sertrans).
Para realizar a cirurgia, as pacientes precisam estar em hormonioterapia há pelo menos seis meses e contar com acompanhamento psicológico durante dois anos.
A terapia hormonal é utilizada para iniciar o processo de feminização de mulheres transgênero. O objetivo desse atendimento, oferecido pelo SUS, é promover mudanças corporais que aproximem a aparência física da identidade de gênero da pessoa.
MÊS DO ORGULHO
O Mês do Orgulho LGBTI+ é celebrado em junho como forma de reafirmar a busca por direitos, respeito e visibilidade dessa população.

A data homenageia a Revolta de Stonewall, marco histórico de 1969 que impulsionou o movimento civil moderno em diversas partes do mundo. No Brasil, a mobilização anual reforça o compromisso das instituições com a dignidade humana e o combate a todas as formas de preconceito.
