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Preto Zezé: eleitor deve considerar a própria materialidade na hora de escolher seus candidatos

Cofundador da Cufa avalia o comportamento do eleitor nas periferias, critica o peso dos influenciadores na política e aponta o pragmatismo econômico como fator decisivo na disputa presidencial
Ativista e empreendedor social, Preto Zezé critica o peso das redes sociais na política e questiona a influência das pautas de costumes sobre demandas como saneamento básico. Foto: Divulgação/Cufa

O segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) coloca em debate não apenas projetos políticos, mas também as expectativas econômicas, as políticas públicas e o papel do Estado na vida da população. Para Preto Zezé, ativista, empreendedor social, produtor artístico e musical, escritor e cofundador da Central Única das Favelas (Cufa), a escolha eleitoral precisa considerar as condições concretas de vida dos eleitores e seus interesses cotidianos.

Em entrevista ao Opinião CE, Preto Zezé chama atenção para o impacto das redes sociais na política, critica a eleição de candidatos cuja projeção se concentra na internet e aponta uma contradição que, na avaliação dele, afeta parte do eleitorado das periferias: a adesão a pautas de costumes que podem se sobrepor a problemas concretos, como a falta de saneamento básico.

“Há uma distorção. Você tem que votar de acordo com a agenda do seu interesse. A sua materialidade da vida”, afirma.

A entrevista faz parte da série Opinião CE nas Eleições 2026 e pode ser conferida na íntegra no YouTube do Opinião CE.

Preto Zezé critica influência das redes sociais na política

Ao analisar a presença de influenciadores digitais nas disputas eleitorais, Preto Zezé questiona a capacidade de candidatos sem trajetória política ou experiência em movimentos sociais de representar adequadamente a população. “Vi muitos candidatos sendo eleitos de internet. Acho que é um desafio para o mundo político. Como uma pessoa que nunca fez nada na vida vai ser eleito a um mandato de deputado federal e ter 3 milhões de votos? Que qualidade a política vai ter a partir dessas escolhas”, questiona.

Para o ativista, a popularidade nas redes sociais não deveria substituir a experiência e o conhecimento das realidades enfrentadas pela população. Na avaliação dele, a influência digital pode contribuir para reduzir a qualidade da representação política quando a visibilidade se torna o principal critério de escolha. Preto Zezé também critica o que considera uma falsa identificação entre grupos sociais com condições econômicas distintas, especialmente quando o debate político é conduzido por pautas morais.

Como exemplo, cita moradores de comunidades sem acesso a saneamento básico que passam a priorizar o debate sobre banheiros destinados a pessoas trans, enquanto convivem com problemas estruturais que afetam diretamente suas vidas.

“Nesse pânico moral, com medo do banheiro trans, ele se junta com um cara que mora no Meier, que tem três, quatro banheiros no seu apartamento e em algum momento ele acha que é igual. O que o pânico moral faz? Ele cria uma falsa identidade entre os dois, quando os dois vivem em realidades diferentes”.

Eleitor das periferias divide preferências

Ao analisar o cenário eleitoral, Preto Zezé afirma que as periferias não formam um bloco político homogêneo. Segundo ele, há diferentes grupos de eleitores, com expectativas e demandas que nem sempre são contempladas pelas interpretações tradicionais do comportamento eleitoral. Na avaliação do cofundador da Cufa, Lula mantém uma base relevante entre os eleitores mais velhos e no Nordeste, onde parte da população associa programas sociais a melhorias nas condições de vida. Já Flávio Bolsonaro encontra espaço entre trabalhadores por conta própria, profissionais de aplicativos, pequenos empreendedores e segmentos do eleitorado evangélico.

“O que eu vejo é um território que realmente está dividido. Principalmente nas favelas onde eu atuo, vejo muitas vezes gente que não cabe no mapa que os partidos políticos estão fazendo”, observa.

Preto Zezé considera um erro interpretar essas escolhas apenas pela identificação ideológica. Para ele, parte expressiva do eleitorado avalia os candidatos a partir das possibilidades concretas de melhorar a própria condição de vida. “Acho que é um erro achar que esse voto é ideológico. Ele não é. Ele é pragmático na maioria das vezes. A pessoa vota em quem ela vai achar que vai destravar a vida dela ou aquele que ela acha que pelo menos está escutando ela”, afirma.

Para Preto Zezé, o pragmatismo econômico influencia o comportamento eleitoral nas periferias, com questões como juros, crédito e renda entre as principais preocupações. Foto: Reprodução/Redes Sociais

Juros, crédito e renda influenciam decisão do eleitor

Na análise de Preto Zezé, a situação econômica cotidiana ocupa um lugar central na decisão de quem vive nas periferias. O pagamento de prestações, o custo do crédito e as condições para manter pequenos negócios são questões que podem pesar mais do que os discursos ideológicos. O ativista cita como exemplo trabalhadores que dependem de motocicletas para exercer suas atividades e empreendedores que precisam de financiamento para manter ou ampliar os próprios negócios.

“Vou fazer uma escolha que me garanta que a parcela da minha moto, como é que eu vou fazer para pagar. O juro vai estar alto, o juro vai estar baixo. Eu quero pegar um dinheiro de crédito para o meu salão de cabeleireiro. Vai dar certo ou não?”, questiona.

Para Preto Zezé, compreender esse comportamento é fundamental para analisar a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. O eleitor que enfrenta dificuldades financeiras, segundo ele, não quer necessariamente aderir a uma doutrina política, mas encontrar respostas para problemas concretos. Nesse contexto, a capacidade de apresentar propostas relacionadas à renda, ao acesso ao crédito e às oportunidades econômicas pode ser decisiva para conquistar a confiança desse público.