“Num eventual mandato do Flávio, esquece política, proposição, aprovação de qualquer política que venha a tocar nesse tema [meio ambiente], que não seja para beneficiar os interesses dele e dos amigos dele.” A avaliação é de Angela Mendes, presidenta do Comitê Chico Mendes e filha do ambientalista Chico Mendes, assassinado em 1988 por sua luta contra a grilagem na Amazônia.
Em entrevista exclusiva ao Opinião CE, Angela também avaliou as propostas ambientais apresentadas por Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, e afirmou que ele seria ainda pior que o pai, Jair Bolsonaro (PL), nesse tema. “Até considero o Flávio um filho mais perigoso que o pai. […] O Flávio parece seguir muito à risca também a proposta do pai em relação às políticas públicas, de modo muito específico também à questão ambiental.”
A conversa integra a série especial Opinião CE nas Eleições 2026 e está disponível no canal do YouTube do Opinião CE.
A entrevista vai ao ar após Flávio afirmar, na segunda-feira (19), que pretende promover a maior regularização fundiária da história do Pará e acabar com o que chamou de “entraves ambientais por razões ideológicas”. O candidato também defendeu maior autonomia para produtores rurais sobre suas propriedades. As declarações levantam questionamentos sobre os rumos da política ambiental brasileira e os possíveis impactos sobre a Amazônia, especialmente diante das disputas entre preservação ambiental, exploração econômica e interesses do agronegócio.
Angela Mendes critica propostas ambientais de Flávio Bolsonaro
Na avaliação de Angela, um eventual governo de Flávio Bolsonaro não priorizaria políticas públicas de proteção ambiental, mas iniciativas alinhadas aos interesses do candidato e de seus aliados. “Política de meio ambiente, com certeza a gente não vai ver”, afirmou.
A ambientalista também ponderou sobre a atuação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), destacando a importância da agenda climática, mas defendendo avanços em relação ao que foi realizado no atual mandato. Para Angela, a eleição de Lula não elimina a necessidade de cobrança por parte da sociedade civil. Ela apontou contradições na condução de algumas políticas do governo e ressaltou a influência de setores ligados ao agronegócio nas decisões políticas.
“Elegê-lo não significa parar de cobrar as coisas, porque a gente teve algumas ações muito incoerentes do presidente”, declarou.
Filha de Chico Mendes alerta para riscos à Amazônia
Durante a entrevista, Angela também destacou a importância estratégica da Amazônia no cenário internacional e criticou a visão do bioma limitada à exploração de matérias-primas e commodities, como madeira, soja, milho e minérios. A ambientalista citou ainda o interesse internacional pelas riquezas brasileiras, incluindo as terras raras, e alertou para o risco de a floresta se aproximar de um ponto de não retorno, a partir do qual sua recuperação ecológica pode se tornar extremamente difícil.

“A Amazônia é, hoje, o centro de debates no mundo todo, inclusive sobre as questões econômicas. Só que, quando a Amazônia é vista apenas pelo que ela pode oferecer, em termos de matéria-prima, para o mercado de commodities, seja madeira, seja soja, seja o milho, sejam os próprios minérios”, afirmou.
Angela defendeu a preservação do bioma diante das pressões econômicas e da possibilidade de que a exploração avance antes que todo o potencial científico e ambiental da região seja conhecido. “Talvez a gente não consiga descobrir tudo até que ela seja devastada. É uma coisa que a gente luta todo dia para que isso não aconteça, para que esse ponto de não retorno não chegue”, concluiu.
