A professora da Universidade Federal do Ceará (UFC) e doutora em Direito do Estado Juliana Diniz analisou, em vídeo publicado em suas redes sociais, o resultado das eleições de 2026 e o avanço de candidaturas femininas com discursos declaradamente antifeministas. Para ela, o cenário precisa ser compreendido a partir das mudanças na participação política das mulheres, das estratégias partidárias e do papel das redes sociais na construção de candidaturas.
“Tenho certeza que vocês devem ter visto nos últimos dias vídeos virais de candidatas eleitas de forma muito expressiva, com uma agenda declaradamente antifeminista. O antifeminismo, afinal de contas, está ganhando espaço, é uma tendência”, afirmou.
Segundo Juliana, o crescimento dessas candidaturas ocorre em um contexto no qual o próprio feminismo produziu mudanças importantes nas estruturas sociais e políticas. “Quando a gente pensa em feminismo, estamos falando de um movimento secular, um movimento que já tem muito de trabalho e que, em razão disso, já teve conquistas muito concretas na mudança das estruturas sociais”, explica.
A professora citou como exemplos a ampliação de direitos, da autonomia e da participação política das mulheres. Para ela, essas transformações também atingiram mulheres que hoje se posicionam contra o feminismo. “Mesmo mulheres que são declaradamente antifeministas têm, hoje, uma autopercepção, um desejo de protagonismo, ambições que eram inimagináveis até décadas atrás”, afirmou.
Direita teria sido mais estratégica
Na avaliação de Juliana, a combinação entre mudanças sociais e maior receptividade do eleitorado feminino às candidaturas de mulheres ajuda a explicar o resultado das eleições. Ela, porém, aponta diferenças na forma como direita e esquerda estruturaram suas candidaturas. “A direita tem sido muito mais estratégica do que a esquerda na construção de candidaturas de mulheres que sejam eleitoralmente viáveis e competitivas”, declarou.
Segundo ela, partidos de direita têm selecionado lideranças com capacidade de mobilização política e eleitoral. “A direita tem selecionado lideranças religiosas, esposas, influencers, grandes agregadores de voto e de opinião pública para desempenhar papéis estratégicos em chapas eleitorais”, afirma.
Juliana cita ainda a atuação de Michelle Bolsonaro e o PL Mulher como exemplo dessa estratégia. “A própria Michelle Bolsonaro está aí para mostrar o potencial disso com a construção do PL Mulher, um projeto de Michelle Bolsonaro, e deu um banho nessa eleição, elegeu muita gente”, disse.

Crítica à estratégia da esquerda
A professora também direciona críticas à esquerda e afirmou que partidos desse campo político não estariam dando estrutura suficiente para candidaturas femininas competitivas. “A esquerda tem sido muito pouco estratégica”, analisa. Como exemplo, cita o desempenho do PSOL, partido que, segundo ela, teria dificuldade para transformar sua identificação histórica com pautas feministas em candidaturas femininas competitivas. “Basta a gente pensar que o nosso partido aqui mais ideologicamente alinhado com o feminismo, um partido que é de uma esquerda mais ideológica, que é o PSOL, não elegeu nenhuma mulher”.
Para Juliana, a questão passa por recursos, estrutura e mobilização partidária.
“É dinheiro de fundo partidário para investir em campanha, é apoio de estrutura partidária, é uma mobilização estratégica para impulsionar uma mulher que tenha muito boas condições de angariar votos”, afirmou.
A avaliação ocorre em um cenário de crescimento geral da presença feminina nos Legislativos. Segundo levantamento publicado após o primeiro turno, as mulheres conquistaram 109 cadeiras na Câmara e 213 nas assembleias estaduais em 2026, recorde em relação às eleições anteriores. No Ceará, as mulheres passaram a ocupar 30,4% das vagas da Assembleia Legislativa, o maior percentual entre os estados.
Redes sociais e discurso antifeminista
Outro aspecto destacado por Juliana é o papel das redes sociais na projeção de candidatas jovens com discursos antifeministas. “A gente tem uma outra camada que vale a pena ser avaliada, que é a camada performática”, disse. Segundo ela, a dinâmica das redes favorece conteúdos de forte apelo emocional e discursos de confronto. “Nos tempos de redes sociais, de atenção hiperfocada nas telas e na linguagem própria das telas, existe um antifeminismo muito performático que se torna atrativo para essas lideranças da direita muito jovens, que geram muito engajamento”, afirma.
Na avaliação da professora, parte desse fenômeno pode estar relacionada menos à adesão ideológica e mais à estratégia de comunicação.
“Existe também uma dimensão aqui que eu chamaria de talvez menos convictamente ideológica e, talvez, mais estrategicamente voltada para engajar a partir do ódio e da repulsa. E isso dá certo, isso gera candidatos que performam surpreendentemente bem nas urnas”, afirmou.
“É preciso ser estratégico”
Ao concluir a análise, Juliana aponta duas questões que, segundo ela, deveriam ser consideradas após o resultado das eleições. “Primeiro, em que medida a nossa reação ajuda na potencialização de certos discursos e o que é que, enquanto partido, enquanto sociedade, enquanto grupo, a gente tem feito para ajudar as mulheres do campo progressista a ter sucesso eleitoral?”, questiona.
Para a professora, o resultado das urnas não pode ser explicado por um único fator. “Resultado de eleição é sempre explicado por muitos fatores que convergem e é sempre resultado de um trabalho que não é de meses, mas de anos”, afirma.
