A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) fez um alerta sobre o uso de igrejas e da religião como instrumento de promoção política durante a campanha eleitoral de 2026. A entidade defende que a Igreja mantenha uma posição institucional neutra em relação a partidos e candidatos, mas participe do debate público por meio do incentivo ao voto consciente.
A manifestação foi feita pelo presidente da CNBB, dom Jaime Spengler, na quarta-feira (23), durante um encontro com jornalistas realizado pela entidade. O evento reuniu cerca de 40 profissionais de comunicação, entre jornalistas, produtores, repórteres e gestores de veículos com sede em Brasília, para discutir a realidade brasileira e o contexto atual da Igreja no Brasil e no mundo.
Na avaliação da cúpula da CNBB, o Brasil atravessa um momento delicado, tenso e desafiador nas três esferas de Poder. Nesse cenário, dom Jaime afirmou que a Igreja não pode ser omissa diante da realidade política, mas criticou a transformação dos espaços religiosos em palanques eleitorais.
“Nós, como igreja, não fazemos opção por partidos ou por uma política partidária. Nós fazemos parte, sim, da sociedade e, como cidadãos que somos, participamos, mas a igreja como instituição não tem esse tipo de envolvimento”, ressaltou.
Segundo o presidente da CNBB, a aproximação excessiva entre religião e política partidária já produziu resultados negativos em outros momentos da história. “Ao longo da história, quando política e religião tiveram muito envolvidas, o resultado não foi positivo. Então, esse uso da religião ou de igrejas para a autopromoção de candidatos ou ideologias não é salutar”, pontuou o arcebispo. As informações são do Metrópoles.
A posição da entidade é de que a participação da Igreja no processo eleitoral deve ocorrer principalmente por meio da formação da consciência dos fiéis, sem indicação de candidatos ou partidos. A CNBB já mantém iniciativas voltadas ao diálogo, à cultura de paz e à participação cidadã nas eleições.
CNBB critica candidatos que se apresentam como “escolhidos de Deus”
O vice-presidente da CNBB, dom João Justino, também criticou a utilização da linguagem religiosa para legitimar candidaturas. Para ele, é grave que candidatos se apresentem aos eleitores religiosos como pessoas escolhidas ou ungidas por Deus. “Quando se procura legitimar um candidato como se ele fosse um ‘escolhido de Deus’, para usar uma linguagem bíblica, um ‘Messias’, as coisas se confundem completamente, e ferem até o processo eleitoral.”
Na avaliação do bispo, esse tipo de discurso pode interferir na própria compreensão do processo de escolha pelo eleitor. “Se ele que é o escolhido de Deus, para quê a gente que tem fé vai votar? Então, é até uma contradição dessa dinâmica, mas isso é muito grave porque muitas pessoas acabam acreditando que sim, aquela pessoa foi ungida por Deus”, avalia.

Os dirigentes da CNBB também fizeram críticas à superficialidade de alguns planos de governo apresentados por candidatos à Presidência e à ausência de líderes das pesquisas em debates eleitorais.
A entidade defendeu ainda uma revisão dos privilégios concedidos a autoridades nas diferentes esferas de Poder, incluindo o Judiciário. Em declarações recentes, dom Jaime também afirmou que o Supremo Tribunal Federal deve exercer um papel de equilíbrio entre os Poderes e alertou para a influência de interesses ideológicos e financeiros sobre decisões judiciais.
CNBB se posiciona contra as bets
Durante o encontro com jornalistas, a cúpula da CNBB também voltou a manifestar oposição às apostas esportivas e jogos online, as chamadas bets. A entidade relaciona o avanço das apostas a problemas de dependência, endividamento e impactos sobre as famílias.
O secretário-geral da CNBB, dom Ricardo Hoepers, afirmou que a posição da entidade é contrária às bets. “Há um problema de vício, um problema moral, social. Há uma crise em torno, não só da situação dessas famílias, de endividamento, mas também da vida espiritual, psicológica, de todas as pessoas [vítimas] da chamada ludopatia”, frisou.
“Nós somos contra as bets, com clareza. Porque, em todos os níveis, existe um comprometimento moral sobre isso, seja desde o ponto vício pessoal até a corrupção que existe em torno do tema.”
A CNBB afirma que se manifesta contra a legalização dos jogos de azar desde 2016. Em 1º de setembro, representantes da entidade se reuniram com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para discutir os impactos das apostas sobre as famílias brasileiras.
A manifestação ocorre em meio à discussão política sobre novas medidas de controle das plataformas de apostas no País.
