A leitura infantil não deveria ser marcada por cobranças de tempo, quantidade de palavras ou desempenho. Essa é uma das reflexões apresentadas pela escritora Karlane Holanda Araújo em entrevista ao Opinião Criança, programa do Opinião CE disponível no YouTube.
A partir de uma pesquisa realizada durante o doutorado, Karlane percorreu cinco cidades do Ceará e visitou cinco instituições públicas de ensino consideradas de referência no Estado. Segundo ela, encontrou um modelo de leitura bastante padronizado, no qual as crianças eram avaliadas pelo tempo destinado à leitura, pela quantidade de palavras lidas e até pela entonação.
Para a escritora, esse modelo se distancia de uma concepção de leitura infantil baseada no prazer e na espontaneidade.
“O que a gente observa, como pedagoga, como educadora? São pedagogias avessas, porque a pedagogia deve nos mostrar que a leitura infantil deve ser uma leitura onde as crianças podem ler no sofá, podem ler na praia, podem ler dentro do carro, podem ler com o papai, com a vovó, com a titia, também na escola com os amiguinhos, mas sem as exigências métricas.“
Karlane defende o que chama de leitura por deleite, realizada no ritmo da própria criança e associada também à conversa sobre aquilo que está sendo lido. “Essa leitura por deleite é uma leitura espontânea, no tempo da criança, e, se possível, também conversando sobre o que se lê. Porque quando a gente conversa sobre o que a gente está lendo com o coleguinha, com o papai, com a mamãe, a gente vai aprender mais.”
Livro nasce das memórias e da convivência entre gerações
A experiência com a educação e a pesquisa sobre leitura também se conecta ao novo trabalho literário da autora. “A Vovó dos Doces da Maria Helena” apresenta a convivência entre uma avó, duas crianças e uma cachorrinha em uma cozinha marcada pelo afeto e pela sustentabilidade. A história aborda o reaproveitamento de cascas de frutas e reúne temas como alimentação saudável, educação ambiental, cultura afro-brasileira, ancestralidade e valorização dos conhecimentos tradicionais.
Para Karlane, escrever sobre experiências próximas e vivências cotidianas cria uma relação especial com a obra. “Você escrever sobre aquilo que você vive tem um sabor especial.”
A cozinha aparece como espaço de encontro entre gerações. A autora destaca especialmente a relação entre avós e netos e a transmissão de conhecimentos por meio de receitas, sabores e experiências compartilhadas. “Então, vem aí a sustentabilidade, a alimentação saudável e um ponto importantíssimo que é a comunicação intergeracional, o valor dessa comunicação entre as gerações.”
O livro apresenta receitas que utilizam cascas de frutas e destaca o potencial nutritivo dessas partes dos alimentos. A proposta é estimular famílias a produzirem as receitas junto com as crianças, criando experiências sensoriais e momentos de convivência. A obra também pode ser utilizada em escolas como material paradidático, com possibilidades de abordagem interdisciplinar envolvendo educação ambiental, sustentabilidade alimentar, cultura afro-brasileira, afetividade e cuidado.
Autora recusou ilustrações produzidas por inteligência artificial
A produção do livro também foi marcada por uma decisão da autora em relação ao uso de inteligência artificial. Karlane conta que, inicialmente, aceitou uma proposta de uma editora para publicar a obra. Durante o processo de produção, porém, recebeu ilustrações geradas por inteligência artificial e decidiu não prosseguir com o contrato.
“Eu logo reprovei, não aceitei, porque aqui também é um incentivo para as crianças saírem das telas. Como eu ia propor um livro, uma obra literária infantil, com toda a sua ludicidade, com imagens da IA?”
A decisão levou a autora a assumir o processo de publicação independente, apesar dos custos envolvidos na produção editorial. “Não é fácil produzir um livro. As edições são caras, tem todo um processo que encarece a obra.”

Segundo Karlane, a publicação independente representou um desafio do ponto de vista econômico e de gestão, mas permitiu que o projeto fosse realizado de acordo com a proposta original. “Fui então ao encontro de fazer essa publicação independente. E deu certo.“
Livro será lançado em outubro
“A Vovó dos Doces da Maria Helena” terá três eventos de lançamento em Fortaleza durante o mês de outubro, período que também marca o mês das crianças. O primeiro será realizado no Shopping Benfica, no próximo dia 7 de outubro, das 18h às 19h30. Depois, a autora estará na Biblioteca Estadual do Ceará (BECE) no dia 11 de outubro, das 15h às 16h39. No dia 12 de outubro, Dia das Crianças, o lançamento acontece na Livraria Leitura do Shopping Iguatemi, das 15h às 17h.
Nas três agendas, estão previstos bate-papo com a autora, contação de histórias e lanche saudável.
Quem é Karlane Holanda
Karlane Holanda Araújo é escritora e pós-doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Ceará (UFC), na linha Trabalho e Educação. Ela atuou como professora da educação básica entre 2004 e 2015 e possui experiência em gestão escolar. Desde 2017, é professora do curso de licenciatura do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), no Campus Paracuru. “A Vovó dos Doces da Maria Helena” tem ainda como coautores Adriano Ferreira de Paula, doutor em Educação Brasileira pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da UFC, e Rafael Oliveira de Moura, acadêmico de Gastronomia pela Faculdade Católica Paulista.
