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Catequese inclusiva ganha espaço em Fortaleza para acolher crianças neurodivergentes

Paróquia Santo Afonso estrutura proposta de iniciação cristã para integrar crianças e adolescentes neurodivergentes ao processo de catequese
Catequese inclusiva busca ampliar a participação de crianças neurodivergentes na Iniciação à Vida Cristã em Fortaleza. Foto: Encontro Paroquial de Catequese

A presença cada vez maior de crianças e adolescentes neurodivergentes nas comunidades católicas tem levado paróquias a repensarem a forma de fazer catequese. Em Fortaleza, a Paróquia Santo Afonso Maria de Ligório está estruturando uma proposta de catequese inclusiva para garantir a participação dessas crianças e jovens no processo de Iniciação à Vida Cristã (IVC).

A iniciativa busca ampliar o acolhimento para além das celebrações, com novas metodologias, formação dos catequistas e estratégias que considerem diferentes formas de aprender, se comunicar e expressar a fé. A proposta está alinhada ao Diretório para a Catequese, de 2020, que reconhece toda pessoa como sujeito ativo da evangelização e aponta a necessidade de métodos, linguagens e recursos adequados para favorecer a participação na vida da Igreja.

Santo Afonso estrutura proposta inclusiva

Ao chegar à Paróquia Santo Afonso, em janeiro deste ano, o padre Thiago Cavalcante encontrou uma catequese já estruturada e percebeu também uma presença crescente de crianças e adolescentes neurodivergentes nas celebrações e na comunidade. A partir dessa realidade, a paróquia decidiu estruturar um acompanhamento específico dentro do processo de iniciação cristã.

“Diante dessa realidade, lancei essa proposta para a minha equipe do IVC, e eles abraçaram. Estão fazendo, de fato, um bom trabalho. Nós temos cerca de 11 crianças e adolescentes com esse perfil”, relata.

A intenção, segundo o sacerdote, não é criar uma catequese paralela, mas integrar essas crianças ao processo, respeitando suas necessidades e potencialidades. “Nós não queremos criar simplesmente uma atividade à parte, mas caminhar na direção de uma Igreja cada vez mais acolhedora, capaz de reconhecer que cada criança possui sua maneira própria de aprender, de se expressar, de rezar e de se relacionar com Cristo”, afirma Pe. Thiago.

Para Ana Nathália Barroso Araújo, que integra a equipe responsável pelo processo, a inclusão exige mudanças na própria prática dos catequistas.

“Esse trabalho não significa apenas adaptar uma atividade ou preparar um material diferente. Significa olhar para cada catequizando com atenção, reconhecer suas potencialidades e encontrar caminhos para que ele possa realmente participar, compreender, celebrar e fazer sua própria experiência de encontro com Deus e com a comunidade.”

A equipe utiliza recursos digitais e elementos de gamificação, como missões, lições e pontuação, para estimular a participação. A paróquia também acompanha outras necessidades, incluindo crianças e jovens de outros países cuja primeira língua é o inglês. “Cada uma dessas realidades nos ensina que não existe uma única forma de fazer catequese. Precisamos estar atentos às pessoas que chegam até nós e, a partir de suas necessidades e potencialidades, buscar diferentes caminhos para que a mensagem do Evangelho possa ser compreendida e vivenciada”, explica Ana Nathália.

Formação de catequistas é desafio

A preparação dos catequistas é apontada como um dos principais desafios para consolidar uma catequese inclusiva. Na Arquidiocese de Fortaleza, a Região São José também vem promovendo iniciativas nessa área. Em agosto deste ano, uma formação sobre Catequese Inclusiva reuniu cerca de 140 catequistas de diferentes paróquias, com discussões sobre acolhimento, escuta e participação.

Para o padre Bruno Moreira Rodrigues, Vigário Episcopal da Região São José e referencial para a Catequese na Arquidiocese de Fortaleza, o acompanhamento personalizado exige profissionais preparados.

“É fato que essas crianças, jovens e adolescentes precisam de um acompanhamento mais personalizado, e aí está o nosso grande desafio: ter catequistas preparados para acolhê-los e para proporcionar experiências de fé verdadeiramente significativas. Nossa perspectiva é que eles estejam inseridos no processo da catequese, junto com os demais, participando das atividades e sendo acompanhados de acordo com suas necessidades”, relata.

Experiência ainda está em construção

Para Pe. Thiago, a presença das crianças neurodivergentes também pode transformar a própria comunidade. “Creio que a verdadeira inclusão nasce quando deixamos de olhar apenas para aquilo que a criança não consegue fazer e começamos a descobrir os dons, as possibilidades e a beleza que Deus colocou em cada uma delas.” A proposta, portanto, ultrapassa a adaptação de atividades e envolve famílias, catequistas e a comunidade paroquial.

“Não queremos simplesmente adaptar a catequese para receber essas crianças; queremos permitir que sua presença também transforme a nossa própria comunidade, tornando-nos mais sensíveis, mais pacientes, mais fraternos e mais atentos ao outro.”

Ainda em fase inicial, a experiência busca construir uma cultura de inclusão na qual crianças e adolescentes possam participar da vida da Igreja e reconhecer seu lugar na comunidade. “Ainda estamos começando, mas começamos com esperança. Creio e espero no Senhor que, com nossos catequistas, nossas famílias e toda a comunidade paroquial, possamos construir pouco a pouco uma verdadeira cultura de inclusão, na qual ninguém se sinta estrangeiro dentro da Igreja”, afirma Pe. Thiago.