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Os desafios para quem cuida e o auxílio profissional

A psicóloga Beatriz Beserra, que atua no Ciadi, dá dicas que auxiliam a lidar com as dificuldades cotidianas no cuidado com crianças neurodivergentes, especialmente autistas
Foto: divulgação

A chegada de uma criança atípica exige uma reorganização familiar e, muitas vezes, pais e responsáveis acabam se sentindo fragilizados ou até mesmo perdidos nesse processo. Por isso, o acompanhamento profissional é fundamental. Manejo de comportamentos, organização da rotina e formas mais eficazes de estimular a criança no dia a dia são algumas das contribuições que esse suporte pode oferecer.

Quem explica é a psicóloga Beatriz Beserra, que atua no Ciadi, da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (Alece), equipamento criado em 2021 para oferecer acompanhamento a crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e a crianças com trissomia do cromossomo 21 (T21), condição conhecida como síndrome de Down.

Seu trabalho é voltado ao acompanhamento das crianças e ao suporte às famílias, considerando demandas emocionais, comportamentais e de desenvolvimento.

“Aqui, o atendimento acontece de forma individual e, quando necessário, também de forma compartilhada”, detalha.

O Ciadi atua em modelo multidisciplinar, o que permite um olhar integral para cada criança, articulando diferentes áreas do cuidado para promover um desenvolvimento mais funcional e acolhedor, explica a psicóloga.

“O objetivo não é apenas tratar comportamentos, mas olhar para a criança e para as estruturas que a cercam de forma humanizada, científica e comprometida com seu desenvolvimento funcional, promovendo qualidade de vida, autonomia e bem-estar tanto para a criança quanto para seus cuidadores”, destaca Beatriz.

Diagnóstico

Os sinais do TEA geralmente estão presentes nos primeiros anos de vida e se manifestam, principalmente, no desenvolvimento da comunicação, da interação social e do comportamento da criança. Alguns podem ser observados desde cedo, como dificuldade em manter contato visual, atraso ou ausência da fala, choro excessivo e dificuldades para dormir.

Também podem surgir comportamentos repetitivos e maior rigidez em relação às rotinas.

“A criança pode se incomodar muito com mudanças ou insistir sempre nas mesmas atividades”, exemplifica Beatriz.

Outro aspecto são as questões sensoriais, como sensibilidade excessiva ou reduzida a sons, luzes, texturas e cheiros.

Por isso, a psicóloga orienta que os pais busquem conhecer os marcos do desenvolvimento infantil e acompanhem, junto ao pediatra, possíveis atrasos.

“Inclusive, a própria caderneta de vacinação traz informações importantes sobre esses marcos”, observa.

Os sinais, por si só, não fecham um diagnóstico, mas indicam a importância de procurar um profissional para uma avaliação adequada.

“Quanto mais cedo esse olhar acontece, maiores são as possibilidades de intervenção e de promoção do desenvolvimento da criança”, completa.

Suporte profissional

Para superar alguns obstáculos, respeitando o ritmo e as particularidades de cada criança, o acompanhamento profissional é importante, especialmente para o desenvolvimento de habilidades como comunicação, interação social, regulação emocional e autonomia.

Mas esse suporte não beneficia apenas as crianças. O auxílio também faz diferença para as famílias.

“Muitas vezes, as famílias são o principal suporte emocional, afetivo e social da criança com TEA. A proposta é fortalecer um vínculo mais seguro e acolhedor, a partir da escuta, do acolhimento e da orientação”, explica Beatriz.

O objetivo dos profissionais é amparar essas famílias e ampliar seu repertório para lidar com os desafios diários.

Cuidado de quem cuida

A sobrecarga familiar, avalia a psicóloga, é praticamente inevitável diante das demandas relacionadas ao cuidado de uma criança atípica.

“Por isso, é fundamental fortalecer o vínculo entre a família e a equipe multidisciplinar para que esse processo seja menos desafiador e as intervenções sejam mais eficazes”, afirma.

“No Ciadi, especialmente no trabalho com a psicologia da família, nós trabalhamos o resgate desse cuidador, o resgate do ‘eu’. A partir de um olhar psicológico, trazemos a importância de voltar a se perceber, de desenvolver o autoconhecimento e de incluir o autocuidado como parte essencial desse processo. Porque, muitas vezes, esse pai, essa mãe ou responsável se coloca apenas no lugar do cuidado e acaba se esquecendo de si”, destaca Beatriz.

Quando o adulto está emocionalmente mais fortalecido, consegue lidar melhor com as demandas da criança. Mas isso nem sempre é simples.

A profissional enumera algumas orientações práticas para lidar com crises, como “tentar manter a calma, reduzir os estímulos do ambiente, acolher a criança sem julgamentos e, sempre que possível, identificar o que pode ter desencadeado aquela crise”.

“A previsibilidade, com rotinas mais estruturadas, também ajuda bastante, assim como o alinhamento com a equipe profissional para que as estratégias sejam consistentes em todos os contextos”, completa.

O importante é reforçar que cada criança é única. Por isso, o acompanhamento pode envolver diferentes abordagens e formas de intervenção, como atendimentos individuais, brincadeiras terapêuticas, uso de rotinas estruturadas, atividades em grupo e orientação familiar.

“Essa diversidade de estratégias é essencial para promover um desenvolvimento mais funcional, respeitando as particularidades de cada criança e favorecendo sua autonomia no dia a dia”, finaliza Beatriz.