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Por trás da devoção, histórias de violência contra mulheres

Se por um lado, Benigna ficou conhecida no país inteiro por sua beatificação, o Cariri registra outras santas populares que detém a mesma singularidade: foram vítimas de crimes bárbaros.
Capela erguida para 'Mártir Francisca', santa popular de Aurora. Foto: Antonio Rodrigues

O Cariri, de forma recorrente, aparece liderando estatísticas de violência contra a mulher no Ceará. A Área Integradas de Segurança Pública (AIS) 02, que corresponde a dez municípios daquela região, por exemplo, teve o maior número de feminicídios do entre todas do Estado, com sete mortes, em 2025. Os dados são da Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública (Supesp).

E isso não é de hoje. A primeira metade do século XX, principalmente entre as décadas de 1940 e 1950, há uma repetição de crimes violentos, em especial contra crianças e adolescentes. Na época, não havia uma legislação específica que as protegesse. O casamento, por exemplo, já acontecia na infância. Ou seja, o corpo de meninas já era sexualizado.

Aclamada “Heroína da Castidade” em Santana do Cariri, Benigna Cardoso foi uma dessas vítimas. Com apenas 13 anos, ao tentar se defender de um estupro, ela foi morta no dia 24 de outubro de 1941. A crueldade fez com que uma rápida devoção se criasse em torno de sua figura, especialmente no local onde tombou sem vida. 80 anos depois, seu martírio seria reconhecido pela Igreja Católica, que a beatificou em 2022.

Fora do reconhecimento formal, diferentes pesquisadores têm demonstrado que, no Cariri, há pelo menos oito casos de violência, similares a Benigna, que se converteram em “santidades” pelo Cariri — uma parcela também vítima de abuso sexual. Esse é o tema da segunda de três reportagens do Opinião CE sobre figuras de devoção popular no nosso Estado. A primeira pode ser lida aqui.

Mártir Francisca

Uma das santas populares mais cultuadas do Ceará é de Aurora. Trata-se de Francisca Augusta da Silva, que foi morta aos 16 anos pelo seu ex-noivo, o agricultor Francisco Ferreira Barnabé, o “Chico Belo”. Ele não aceitou o fim do seu noivado com a jovem. Antes de deferir vários golpes de peixeira, teria sentenciado: “se não vai casar comigo, também não se casará com ninguém”.

Francisca namorou por dez meses antes de noivar, mesmo período em que sua irmã, Maria Júlia Ferreira, dois anos mais velha, ficou noiva. Seu pai, que não tinha condições de realizar as festas de dois casamentos num mesmo ano, pediu para que a cerimônia da caçula fosse adiada. Ao ouvir aquilo, Chico Belo não quis manter o compromisso.

Local onde Francisca tombou recebe dezenas de ex-votos, símbolo de graça alcançada. Foto: Antonio Rodrigues

Dias depois, o agricultor se arrependeu. Francisca, contudo, não queria reatar e já demonstrava um certo medo do ex-noivo, segundo os familiares. Oito meses após o término, ele continuava atormentando a jovem.

Na manhã do dia 9 de fevereiro de 1958, Francisca e Júlia decidiram ir à missa juntas, mas voltaram por caminhos distintos. O retorno aconteceu por volta das 14h, ou seja, à luz do dia. A estrada ainda tinha um bom número de pessoas caminhando, inclusive. Isso não intimidou Chico Belo que, montado a cavalo, acompanhou sua ex-noiva, que estava ao lado de seus dois irmãos mais novos, de 15 e 13 anos.

Após proferir a “sentença”, o agricultor deu o primeiro golpe, que deixou parte do intestino de Francisca exposta. Mesmo cambaleando, a menina ainda caminhou até um pé de pereiro. Ao perceber que ela ainda estava viva, Chico desferiu mais três facadas. Ninguém o impediu.

A morte brutal da adolescente comoveu a comunidade. Velas foram acesas debaixo da árvore em que tombou. Seu pai, abalado, decidiu deixar Aurora e se mudar com toda família para Assaré. Antes disso, construiu uma pequena capela no mesmo local em que a filha deu seu último suspiro.

Pouco tempo depois, surgiram relatos de curas e outros milagres atribuídos à moça, que depois foi aclamada Mártir Francisca. No dia 9 de cada mês, há uma celebração nesse pequeno tempo em memória da jovem. Seu túmulo, no cemitério público, também recebe algumas visitas que acendem velas e deixam flores.

Outros casos

Semelhante ao que aconteceu com Benigna é o caso de Francisca Maria do Socorro, que teria entre 13 e 14 anos quando foi morta no sítio Serrote, em Milagres. A jovem teria saído para pegar água, mas não retornou. Ela foi encontrada já sem vida, com corpo ensanguentado, marcas de perfuração e em estado de seminudez.

O crime nunca foi esclarecido, mas a polícia confirmou seu assassinato e a violência sexual no exame de corpo delito. Um pequeno monumento é dedicado à sua memória e devoção.

Monumento construído em Milagres, em memória e devoção à Maria Francisca. Foto: Reprodução / Redes Sociais

Outro caso icônico é o de Maria Antônia da Conceição, alagoana, que morava em Várzea Alegre. Casada com Severino Domingos da Silva, o “Bil”, ela era mãe de dois filhos e estava grávida do terceiro, quando foi morta em 11 de março de 1926, pelo próprio marido.

Relatos da época dão conta o relacionamento entre os dois estava desgastado e pairava uma desconfiança por parte de Maria de que seu esposo estaria em um relacionamento extraconjugal com sua irmã. Severino propôs sair da cidade com a família, mas ela recusou, levando consigo os filhos para morar com seu pai.

Sem aceitar o fim da relação, Bil atacou Maria enquanto ela se encaminhava para a lavoura, aplicando três golpes de faca. Depois de matá-la teria praticado ato de canibalismo contra o corpo. Em seguida, fugiu e não foi mais encontrado.

O crime causou comoção e revolta na região. Assim como Francisca, de Aurora, o pai de Maria, Clementino da Conceição, fixou uma cruz no local em que sua filha morreu. Mais uma vez, as pessoas passaram a visitar e rezar. Em 1957, foi construída uma capela no local e, em 2023, foi erguida uma estátua de cristo ressuscitado — o que ampliou a peregrinação, sobretudo no período da Quaresma.

Mistério

Em Crato, no distrito de Ponta da Serra, mantém-se a história de uma escrava, no século XIX, que morreu no sítio Catingueira. Lá, há um monumento em sua memória, conhecido como a “Cova da Nêga”. Os relatos dos mais antigos moradores contam que essa escrava fugiu de uma fazenda para escapar de um castigo.

Seu corpo foi encontrado com marcas intensas de luta corporal, mas, na época, atribui-se ao ataque de uma onça. Ela foi enterrada na beira da estrada e, com o tempo, passou a ser local de ofertas, como flores e velas. “Não tem processo crime, nem nome, nem nada”, ressalta a ex-deputada e pesquisadora Zuleide Queiroz, que também se dedicou a estudar o fenômeno da “santificação” dessas mortes violentas.

A professora da Universidade Regional do Cariri (Urca) reuniu histórias de outros diferentes municípios, como Jardim, Missão Velha, Porteiras, Farias Brito e Mauriti, além dos quatro já citados. Em todos eles a população nutre devoção às mulheres, em maioria crianças ou adolescentes, que foram tragicamente assassinadas em crimes que, hoje, seriam tipificados como feminicídio. “Quase todas já têm capelas em sua devoção”.

Uma coisa similar nestes esses casos é o discurso de proteção à castidade, explica a pesquisadora. “O catolicismo é muito forte. Os acontecimentos fugiam do controle da própria Igreja. Como todos os crimes vinham descritos de um padre, que faz esse registro, tinha um cunho de santificação”, supõe Zuleide.