Em alusão à inauguração do mais novo santuário religioso do Ceará, o Complexo Religioso e Cultural em memória da Menina Benigna, em Santana do Cariri, o Opinião CE apresenta uma série de três reportagens sobre figuras de devoção popular no nosso Estado.
E não poderíamos começar de outra forma que não seja contando um pouco sobre a história da primeira beata cearense: Benigna Cardoso da Silva. A partir de agora, peço licença para fazer um relato pessoal.
Em setembro de 2021, mês que antecede a tradicional romaria em torno da beata cearense, viajei para Santana do Cariri por um desejo particular: tentar conversar com quem acompanhou de perto sua curta trajetória — a jovem teve a vida precocemente interrompida, aos 13 anos.
Na época, dúvidas me pairavam, pois, até então, o pouco que se falava de sua biografia se resumia ao bárbaro crime do qual ela foi vítima. Mas quem era Benigna Cardoso? O que ela gostava de fazer? Como se torna uma santa popular?
Por intervenção do pesquisador e produtor cultural Ypsilon Félix, que atualmente é titular da Secretaria de Cultura, Turismo e Romaria de Santana do Cariri, fui apresentado a duas simpáticas senhoras, Iranir Oliveira e Terezinha de Alencar Nuvens, a Tetê, que, na época, tinham 86 anos e 83 anos, respectivamente. As duas são irmãs de Benigna.
Quase cinco anos depois do nosso encontro, elas seguem vivas e saudáveis, mas descobri que Iranir, atualmente com 90 anos, é quem está mais lúcida. Tetê, por outro lado, está mais debilitada. Por isso, tomei a liberdade de resgatar trechos do que conversamos, em 2021.
Infância
Benigna era o que se convencionou a chamar de “irmã de criação”, já que passou sua infância e início da adolescência grudada em Tetê e Iranir — as duas são ligadas pelo mesmo DNA. As três costumavam se reunir para brincar na casa da avó, no Sítio São Gonçalo. As cantigas de roda eram a diversão favorita.
“Carneirinho, carneirão, neirão, neirão, olhai pro céu, olhai pro céu, pro céu, pro céu. Para ver nosso senhor, senhor, senhor, para todos se ajoelhar”, cantavam para, em seguida, ficarem de joelhos. O mesmo verso se repetia, exceto o fim: “para todos se levantar”, mandava a canção. Todas obedeciam.

A brincadeira seguia noite adentro e só era interrompida quando iam lavar os pés e as mãos, antes de comer, para dormir em seguida. O encontro na casa da avó acontecia semanalmente.
“Nós fomos criadas da escola para casa, e de casa para a igreja. Nossa amizade era dentro de casa, entre nossa família”, recorda Iranir Oliveira. Com a religiosidade muito forte na sua família, Benigna chegava até fazer companhia à avó, na sexta-feira, para rezar. Além disso, segundo as irmãs, ela era uma menina muito organizada. Em cada caixote, separava seus vestidos de acordo com a ocasião: brincar, estudar ou ir à missa.
A adolescente também demonstrava muita sensibilidade com os animais. Certo dia, as três foram brincar na casa de farinha do seu bisavô e Benigna começou a chorar repentinamente. O motivo? Se compadeceu com o boi que estava conduzindo o maquinário — no início do século XX, ainda eram comuns equipamentos rurais por tração animal. “Meu pai pediu para não levar mais ela para lá e prometeu soltar o boi”, contou Iranir.
Aos 12 anos, a jovem despertou o desejo de cultivar plantas medicinais e flores e esse foi um capítulo importante da tragédia que viria a seguir. Com autorização da sua família, Benigna buscava água na cacimba, diariamente, para regar seus vegetais. A fonte ficava a poucos metros de casa.
Início dos assédios
A família de Benigna soube que um rapaz, ainda sem identificá-lo, estava a perseguindo, especialmente no trajeto da escola. A própria jovem chegou a relatar ao padre Cristiano Coelho, da Igreja Matriz de Sant’Ana, que um garoto queria namorar com ela e mandava cartas com frequência.
O sacerdote, imediatamente, contou aos pais, que a retirou da unidade de ensino que ficava no antigo sítio de Inhumas, mais próxima de onde morava, colocando-a na sede de Santana do Cariri. Seu irmão, Cirineu, passou a esperar sua saída do colégio para acompanhá-la até em casa, por segurança.

Foi buscando água para cuidar de suas plantas que, no fim da tarde do dia 24 de outubro de 1941, Benigna foi atacada por Raimundo Alves Ribeiro, o “Raul”, de 17 anos, que a perseguia há mais de um ano. Escondido na vegetação, o jovem a surpreendeu e tentou agarrá-la à força. Após resistir, ele desferiu golpes com um facão, ferindo suas mãos, a cabeça, os rins e, fatalmente, o pescoço.
“Ele acabou com nossa infância. Nós nunca mais brincamos. Em noite de lua, não gosto nem de olhar pro céu”, desabafou emocionada Iranir. Nem ela, nem Tetê puderam vê-la no velório pelo estado de mutilação em que o corpo foi encontrado.
Mesmo alvo de devoção, as duas me confessaram que, até então, nunca teriam visitado o local em que sua irmã tombou morta, pela dor que mantinham ao longo dos anos.
Devoção popular
O assassinato da adolescente causou grande comoção em Santana do Cariri pela crueldade e os sinais de violência encontrados em seu corpo. Rapidamente, o lugar onde foi padeceu sem vida passou a ser alvo de peregrinação. A própria cacimba, onde Benigna buscava água, recebeu o mesmo clamor popular.
O padre Cristiano Coelho, que antes do crime havia entregado uma Bíblia à Benigna, incentivou a fé em torno dela. Foi ele que reverberou a jovem como “Heroína da Castidade”.
Pouco mais de 80 anos após a sua morte, Benigna Cardoso foi considerada beata pelo Vaticano, a partir de um processo iniciado em 2011. A “beatificação” é o primeiro passado para a “canonização”, onde a Igreja Católica reconhece oficialmente a fama e o testemunho de santidade de alguém que viveu e morreu heroicamente, marcado pelas virtudes cristãs.
Iranir e Tetê, apesar de terem tido o contato físico com Benigna, desenvolveram a ligação espiritual com ela e acreditam em sua santidade. Não só pelo martírio que sofreu, mas pela devoção a Deus e por enxergarem sua bondade. As duas, quando se veem em inquietação, se apegam à irmã, assim como milhares de devotos que visitam Santana do Cariri, anualmente, no dia 24 de outubro.
