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Brasil fora da lista europeia de exportação após novas exigências sanitárias

Falta de garantias sobre uso de antimicrobianos na pecuária leva União Europeia a retirar o país de relação de autorizados
A carne bovina está com exportação para a Europa barrada por falta de segurança sanitária, segundo representantes da UE. Foto: Valter Campanato/ Agência Brasil

A União Europeia (UE) divulgou a revisão da relação de nações que atendem às normas do bloco contra o uso excessivo de antimicrobianos na pecuária. Nessa atualização, o Brasil deixou de constar entre os países autorizados.

De acordo com o bloco europeu, a retirada do País ocorreu pela ausência de garantias formais de que não há utilização desses medicamentos na produção pecuária. A informação foi publicada pela Agência France-Presse (AFP). Argentina, Paraguai e Uruguai continuam liberados.

A porta-voz da Comissão Europeia para a Saúde, Eva Hrncirova, confirmou à Agência Lusa que o País não integra a lista e pode deixar de exportar para a UE mercadorias como bovinos, equinos, aves, ovos, aquicultura, mel e invólucros.

REGRAS SANITÁRIAS

Segundo a representante europeia, o retorno depende do cumprimento das exigências do bloco sobre o uso de antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais que originam os produtos exportados.

“A partir da comprovação de conformidade, a UE poderá autorizar ou retomar as exportações”, declarou, acrescentando que há cooperação entre o bloco e autoridades brasileiras sobre o tema.

Na versão da lista divulgada em 2024, o Brasil aparecia como apto a vender carne bovina, de frango e de cavalo, além de tripas, pescado e mel.

MEDICAMENTOS

A legislação europeia veta antimicrobianos utilizados também como promotores de crescimento animal. A explicação é do pesquisador Leonardo Munhoz, do Centro de Bioeconomia da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Entre os medicamentos citados estão virginiamicina, avoparcina, bacitracina, tilosina, espiramicina e avilamicina.

Em abril, uma portaria do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) proibiu importação, fabricação, venda e uso de parte dessas substâncias, incluindo avoparcina e virginiamicina.

DESAFIOS

Dois caminhos podem recolocar o Brasil na lista. O primeiro é restringir legalmente os demais medicamentos mencionados ou assegurar que a carne exportada esteja livre dessas substâncias.

A segunda alternativa apresenta maior dificuldade de implementação, pois exige rastreabilidade detalhada, processo mais lento e caro, conforme avaliação de Leonardo Munhoz.

Uma vez comprovada a ausência desses antimicrobianos, as exportações poderão ser retomadas, mesmo que isso aconteça após setembro.

IMPACTOS

Desde 2019 já havia expectativa de endurecimento das exigências europeias.

“Gera preocupação relevante para o agro porque a União Europeia é um mercado estratégico para proteínas animais e porque essas exigências podem impactar rastreabilidade, certificação sanitária e compliance exportador”, afirma o pesquisador Leonardo Munhoz.

Dados do Agrostat indicam que o bloco é o terceiro maior destino da carne bovina brasileira em valor exportado, atrás de China e Estados Unidos. No conjunto das carnes, a União Europeia ocupa a segunda posição, atrás da China.

REAÇÕES

A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) informou ao portal de notícias G1 que ainda não possui posicionamento oficial. Já a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) analisa possíveis reflexos para o setor de carne de frango.

O presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel), Renato Azevedo, declarou que a notícia pegou de surpresa o segmento.

“Entendo que isso é algo político, visto que há uma grande pressão dos europeus para barrar produtos brasileiros depois do acordo do Mercosul”, afirmou o líder classista.

ACORDO COMERCIAL

“Para o mel, é totalmente descabido falar em risco de uso excessivo de antibióticos, considerando que o Brasil é o principal produtor de mel orgânico do mundo”, acrescentou Renato Azevedo.

A Associação Brasileira das Indústrias de Pescados (Abepesca) informou que não exporta para a UE desde 2016.

A atualização da lista foi divulgada 12 dias após a assinatura do acordo de livre comércio entre União Europeia e Mercosul, alvo de críticas de agricultores e ambientalistas europeus, sobretudo na França.

POSICIONAMENTO

Leonardo Munhoz afirma que a decisão não tem ligação direta com o tratado comercial, por se tratar de norma sanitária aplicada a qualquer país que exporte alimentos ao bloco.

O acordo entrou em vigor em 1º de maio de forma provisória e aguarda decisão judicial europeia sobre a legalidade.

“Nossos agricultores seguem alguns dos padrões de saúde e antimicrobianos mais rigorosos do mundo. Portanto, é legítimo que os produtos importados estejam sujeitos aos mesmos requisitos. A decisão tomada hoje demonstra que o sistema europeu de controle funciona”, afirmou o comissário europeu para a Agricultura, Christophe Hansen.