Neste domingo (6), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que qualquer país que se alinhar às “políticas antiamericanas” do bloco será alvo de uma tarifa adicional de 10% sobre seus produtos exportados aos EUA. A declaração, feita em meio à Cúpula do Brics, realizada no Rio de Janeiro, foi publicada na rede social Truth Social e gerou reações diplomáticas de incertezas no comércio global.
“Qualquer país que se alinhe às políticas antiamericanas do Brics será taxado com tarifa extra de 10%. Não haverá exceções a essa política. Obrigado pela atenção em relação a essa questão”, escreveu Trump.
A ameaça ocorre no momento em que os líderes do Brics, grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, além de novos membros como Arábia Saudita, Irã e Indonésia, divulgaram a “Declaração do Rio de Janeiro”, na qual criticam duramente medidas unilaterais de proteção comercial, sem mencionar explicitamente os EUA. Parte do documento inclui a defesa do multilateralismo e outros pontos:
- Fortalecimento de instituições multilaterais, como a ONU, e o respeito ao direito internacional.
- Rejeição a ações unilaterais, como as que enfraquecem o sistema global. O tarifaço de Trump não foi especificamente citado.
Ainda no domingo, os líderes do bloco publicaram um comunicado conjunto criticando as tarifas de Trump e afirmando que “manifestam sérias preocupações com o aumento de medidas tarifárias e não tarifárias unilaterais, que distorcem o comércio e são inconsistentes com as regras da OMC”. O primeiro-ministro chinês, Li Qiang, e o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, estavam entre os participantes do encontro.
Tarifa ou pressão:
A publicação de Trump não especifica quais políticas seriam consideradas “antiamericanas”, e nem os países que seriam diretamente afetados. No entanto, a declaração pode ser interpretada como um sinal de pressão sobre países emergentes que se aproximam do bloco, que tem ganhado relevância geopolítica nos últimos anos.
Os EUA se preparam para enviar as cartas tarifárias a dezenas de países a partir desta segunda-feira (7). O prazo de 90 dias estabelecido pela Casa Branca para negociações comerciais está prestes a expirar em 9 de julho, e há expectativa de que novas tarifas entrem em vigor já em 1º de agosto.
Reações internacionais:
A reação dos países-membros do Brics tem sido marcada por cautela. A China reafirmou que o Brics “não é direcionado contra nenhum país” e defendeu o multilateralismo. A Índia e a Indonésia, também alvos potenciais das tarifas, disseram que ainda avaliam os impactos e não comentaram oficialmente.
“Não há vencedores em guerras comerciais”, afirmou Mao Ning, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, em entrevista coletiva nesta segunda-feira.
Mao Ning ainda descreveu o Brics como “uma importante plataforma de cooperação” entre países emergentes e em desenvolvimento.
O premiê chinês, Li Qiang, também se pronunciou durante a cúpula:
“O mundo de hoje está mais turbulento, com o unilateralismo e o protecionismo em ascensão”, disse Li.
“A China está disposta a trabalhar com os países do Brics para promover uma governança global em uma direção mais justa, razoável, eficiente e ordenada”, concluiu.
Conflitos globais:
Além das tensões comerciais, o Brics manifestou posições conjuntas sobre outros temas internacionais que estão em alta, como os conflitos no Oriente Médio. O grupo condenou ataques recentes contra o Irã e pediu o fim da violência em Gaza, defendendo a criação de um Estado Palestino com base nas fronteiras de 1967, postura que pode ser vista como uma crítica indireta aos EUA e Israel.
Putin participou do encontro por videoconferência, enquanto líderes como Lula, Li Qiang e Narendra Modi estavam presentes no Rio.
Consequências:
Segundo especialistas, a atual medida anunciada por Trump pode marcar o início de mais uma rodada de tensões comerciais e diplomáticas entre os EUA e os países do Sul Global.
“As declarações de Trump são um tiro de advertência para os países emergentes que pensam em seguir o caminho de alinhamento com o Brics”, disse Mingze Wu, operador da StoneX Financial, em Cingapura, acrescentando que provavelmente são uma resposta ao que o Brics afirmou sobre Gaza.
A ofensiva de Washington ocorre em um momento de crescente fortalecimento do Brics como alternativa ao sistema global dominado por potências ocidentais. A presidência do bloco está sob comando do Brasil desde 1º de janeiro deste ano.
