A gastronomia brasileira é grande demais para caber em uma única identidade. Cada região tem seus ingredientes, técnicas, hábitos e maneiras de compreender a comida. E existe algo especialmente interessante quando essas diferenças se encontram à mesa, não para disputar espaço, mas para criar novas possibilidades.
É essa a proposta do Mayú Brasileiro, projeto do restaurante-escola Mayú, do Senac Ceará, comandado pela chef cearense Raquel Holanda. A cada edição, um chef convidado de outra parte do país chega a Fortaleza para compartilhar seu repertório e construir, ao lado de Raquel, uma experiência que aproxima diferentes culturas gastronômicas brasileiras.
Já tive a oportunidade de participar de duas edições e gosto de observar como a iniciativa vai além de reunir dois profissionais na mesma cozinha. O projeto começa com uma aula-show aberta ao público, um momento de troca de conhecimentos, técnicas e referências. Depois, ganha forma em dois jantares especiais, nos quais os chefs assinam juntos um menu de seis etapas, harmonizado e pensado para apresentar as particularidades de cada cozinha.
Em outubro, o convidado é o chef gaúcho Marcelo Schambeck, do restaurante Capincho, reconhecido por uma cozinha autoral que valoriza a cultura e os ingredientes do Sul. Ao lado de Raquel, ele propõe um encontro entre suas referências e os sabores do Ceará.

O resultado desse tipo de experiência não está apenas nos pratos servidos. Está também nas escolhas, nas combinações e nas possibilidades que surgem quando um profissional se permite conhecer outra realidade. Não se trata simplesmente de colocar ingredientes de lugares diferentes na mesma receita. É compreender o que cada um carrega e descobrir como esses repertórios podem conversar sem perder suas características.
A cozinha brasileira é feita de muitas cozinhas. Temos diferenças de clima, território, produtos, técnicas e tradições, e talvez uma das formas mais interessantes de conhecê-las seja justamente criar oportunidades para que elas circulem. Quando um chef cozinha fora de seu território, também precisa escutar, observar e reconhecer novos caminhos.
Gosto de pensar que a gastronomia do país se fortalece quando valoriza essa diversidade. Não precisamos tornar tudo parecido para construir uma identidade em comum. Podemos preservar nossas particularidades e, ainda assim, encontrar pontos de conexão. No Mayú Brasileiro, essas conexões ganham forma em uma experiência que começa no conhecimento e chega à mesa. E nos lembram de que ainda há muito Brasil para descobrir, inclusive dentro da nossa própria cozinha.
Que tal viver essa experiência? O Jantar Mayú Brasileiro será realizado nos dias 28 e 29 de outubro, quarta e quinta-feira, às 19h, no Restaurante-Escola Mayú, localizado na Avenida Desembargador Moreira, 1301, no bairro Aldeota. O jantar por adesão custa R$ 440 por casal ou R$ 240 por pessoa, por noite. Para reservas e mais informações, é possível entrar em contato pelo WhatsApp (85) 99430-9755 ou pelo Instagram @restaurantemayu.
Mayú brasileiro convida Marcelo Schambeck
Marcelo Schambeck é chef e sócio do Capincho, eleito o 11º melhor restaurante do Brasil na lista da Exame. É um dos nomes de maior destaque no cenário gastronômico de Porto Alegre. Em seus cardápios, Marcelo tem o sulismo, a cultura e as referências regionais como ponto de partida para suas criações. Formado pelo Curso Superior em Gastronomia da Unisinos, teve experiências em cozinhas de chefs ícones da gastronomia nacional. Já cozinhou na França e, a convite da Embaixada do Brasil, realizou jantares na Índia, Paquistão e África do Sul.
Muito além do prato
Celebrado em 20 de outubro, o Dia dos Chefes de Cozinha é uma oportunidade de olhar para uma profissão que vai muito além do preparo dos alimentos. Por trás de cada prato existem estudo, técnica, repertório cultural, criatividade e muitas horas de trabalho. Ser chef também é conhecer ingredientes, respeitar tradições, formar equipes e compreender que a gastronomia é uma expressão da identidade de um povo. Em um país de tantas cozinhas como o Brasil, valorizar esses profissionais é também reconhecer quem pesquisa, preserva e transforma os sabores que contam nossas histórias.
Um Dia a Tapioca Vira
O chef Pedro Paulo, o Pepê, sócio do Muvuco Boteco do Mar, aposta na valorização do pescado cearense. Após uma experiência no restaurante Tuju, em São Paulo, ele identificou espaço para recuperar o protagonismo dos peixes na gastronomia de Fortaleza. Desde 2018, Pepê passou a buscar pescado fresco diretamente nos mercados e difundiu entre pescadores do Serviluz a técnica japonesa de abate ikejime. A trajetória foi contada no videocast “Um dia a Tapioca Vira” e está disponível no canal do YouTube do Opinião CE. Vale a pena conferir!
