O governador do Ceará, Elmano de Freitas (PT), defendeu a renovação das lideranças da esquerda e afirmou que o partido precisa ampliar sua presença nacional para enfrentar a polarização política e a força da extrema-direita. Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, concedida publicada nesta sexta-feira (16), o governador, reeleito em primeiro turno nas eleições de 4 de outubro, afirmou que a construção de novas lideranças depende da relação direta com a população, para além das instâncias partidárias.
“Para ser liderança do país, tem que andar o país”, declarou Elmano. Segundo ele, lideranças regionais precisam percorrer o Brasil, conhecer diferentes realidades e seguir o exemplo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). “Liderança nacional não se decide em reunião de diretório nem em gabinete. Se decide na relação dessa liderança com o povo”, afirmou.
Ao tratar do futuro do PT, Elmano citou o senador Camilo Santana, o ex-ministro Fernando Haddad e o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e o ministro da Casa Civil, Rui Costa, como lideranças com capacidade de representar o partido. O governador, porém, não apontou um nome específico como sucessor de Lula em futuras disputas presidenciais.
Elmano avaliou que a esquerda ainda precisa avançar na renovação de seus quadros e na capacidade de melhorar as condições de vida da população. Para ele, o país continuará dividido politicamente por um longo período. O governador também afirmou que a direita brasileira enfrenta um problema por estar sendo hegemonizada pela extrema direita, enquanto o setor que considera comprometido com a democracia e a Constituição se tornou minoritário.
Na avaliação do petista, a esquerda não conseguiu acompanhar as transformações na organização da sociedade e no mundo do trabalho, especialmente nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Segundo ele, essas mudanças alteraram as condições em que o PT surgiu e se organizou politicamente, o que exige uma reconfiguração da atuação do partido nessas regiões.
Elmano também avaliou que a campanha de Lula no primeiro turno errou ao concentrar atenção no histórico do presidente e em suas realizações anteriores, em vez de apresentar com maior clareza suas propostas para um novo mandato. Para o governador, o eleitorado quer saber o que o presidente pretende fazer para melhorar a vida da população. Ele afirmou ainda que a campanha deveria ter deixado mais claro quem é Flávio Bolsonaro (PL) para os eleitores.
Sobre a disputa presidencial, Elmano disse ter ficado surpreso com o resultado do primeiro turno, no qual Flávio Bolsonaro terminou à frente de Lula. O governador avaliou que o presidente pode ampliar sua vantagem no Nordeste no segundo turno e afirmou ter convicção de que a ampla maioria dos eleitores que se abstiveram no primeiro turno votaria em Lula. Ele também atribuiu parte da redução da votação do presidente no Nordeste, em comparação com 2022, à prioridade dada por militantes às disputas estaduais e à avaliação de que a eleição presidencial seria relativamente fácil de vencer.
Ao abordar a relação entre a esquerda e as demais regiões do país, Elmano afirmou que Lula precisa obter bons resultados em estados como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro para vencer a eleição presidencial. Segundo ele, uma votação expressiva apenas no Nordeste não é suficiente para garantir a vitória nacional. O governador citou a eleição de 2018, quando Fernando Haddad perdeu para Jair Bolsonaro, apesar do bom desempenho do petista em parte do país.
O governador também criticou a atuação da extrema direita na discussão sobre o fim da escala de trabalho 6×1. Segundo ele, parlamentares desse campo político votaram favoravelmente à proposta mesmo anunciando que poderiam revertê-la caso vencessem a eleição presidencial. Elmano classificou essa postura como “descarada” e afirmou que a extrema-direita defende a flexibilização total da jornada de trabalho.
Na área da segurança pública, tema central da disputa eleitoral no Ceará, Elmano defendeu a combinação de políticas de prevenção à violência e de enfrentamento ao crime organizado. Para ele, a esquerda acumulou experiência na prevenção, enquanto a direita tem um discurso mais forte de enfrentamento. O governador defendeu a articulação dessas abordagens em uma política nacional de segurança pública e citou o apoio de Lula à lei antifacção e à proposta de emenda constitucional da segurança pública.
Elmano também se posicionou contra a redução da maioridade penal, proposta discutida no contexto da PEC da Segurança Pública. O governador afirmou que a medida criaria mais problemas para o sistema prisional e dificultaria a recuperação de jovens com possibilidade de não ingressar no mundo do crime. Questionado sobre a posição de seu aliado Camilo Santana a respeito do tema, respondeu que tem o direito de pensar diferente.
