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“O crime está na intolerância religiosa”, diz sacerdotisa após ataques por estátua do Diabo no Ceará

A líder religiosa afirmou ainda que pretende tomar providências diante dos ataques que relata ter recebido nas redes sociais.
Mãe Rainha das Trevas afirmou que a estátua representa fé, respeito e gratidão e rebateu críticas recebidas após a inauguração do monumento. Foto: Reprodução/Redes Sociais

A sacerdotisa conhecida como Mãe Rainha das Trevas, responsável pelo Palácio Estrela Negra da Quimbanda, em São Gonçalo do Amarante, rebateu críticas e ataques nas redes sociais após a inauguração de uma estátua de 11 metros de altura que representa o Diabo. Em vídeo publicado neste domingo (9), ela afirmou que o monumento representa sua fé e acusou críticos de disseminarem intolerância religiosa, racismo religioso e discursos de ódio.

“Você quer escutar uma verdade? Cada vez mais eu vejo que eu estou no caminho certo, porque esse discurso de ódio que eu vejo aí sendo semeado nas redes sociais, aqui ninguém ensina isso não”, afirmou.

O monumento foi inaugurado em 25 de julho, durante as comemorações pelos 29 anos do templo religioso, localizado na Praia da Taíba. Segundo Mãe Rainha das Trevas, a estrutura foi construída em um terreno pertencente ao próprio templo e representa um agradecimento à espiritualidade que segue. “Esse monumento é um monumento de fé, respeito e gratidão ao Diabo”, declarou.

A sacerdotisa afirma ainda que a obra é a maior do mundo dedicada à representação do Diabo. Segundo ela, mais de R$ 100 mil foram investidos na construção, com recursos próprios. O tempo necessário para concluir a estrutura não foi informado, pois, conforme explicou, a construção envolveu rituais e preceitos espirituais.

Sacerdotisa critica ataques nas redes sociais

No vídeo publicado neste domingo, Mãe Rainha das Trevas também contestou informações que, segundo ela, vêm sendo divulgadas sobre sua atuação religiosa e os rituais realizados no templo. “E sobre os rituais da sacralização dos animais, gente, não tem nada fora da lei. A lei protege e ampara os rituais de sacralização dos animais dentro das religiões de matrizes africanas”, afirmou.

Ela acrescentou que, segundo sua própria descrição, os animais utilizados nos rituais são destinados à alimentação e doação.

“Na minha casa, tudo que é sacralizado é destinado para doação, doação para o pai e mãe de família que muitas vezes está passando por dificuldade a ter alimentar os seus filhos”, disse.

A líder religiosa afirmou ainda que pretende tomar providências diante dos ataques que relata ter recebido nas redes sociais. “Sabe onde é que está o crime? O crime está na intolerância religiosa, no racismo religioso e na disseminação de ódio nas redes sociais. Mas todas as providências está sendo tomado para que isso seja resolvido”, declarou.

Símbolo religioso

Segundo Mãe Rainha das Trevas, o Diabo possui, dentro da tradição religiosa que segue, um significado diferente daquele atribuído por outras tradições. Na interpretação da sacerdotisa, a figura representa proteção, misericórdia, paz e transformação espiritual. Ela afirma que a Quimbanda é uma religião de matriz africana voltada ao culto dessas entidades e, na tradição seguida pelo templo, também aos demônios.

A Constituição Federal assegura a liberdade de crença, enquanto a Lei nº 7.716/1989 estabelece punições para práticas de discriminação ou preconceito motivadas por religião.

A sacerdotisa também afirma que toneladas de carne provenientes dos animais utilizados nos rituais são distribuídas anualmente para famílias em situação de vulnerabilidade e instituições que atendem crianças e idosos. O templo, segundo ela, também promove uma festa anual para crianças, com distribuição de brinquedos e doces em comunidades de São Gonçalo do Amarante e Fortaleza.

Prefeitura diz que licença não menciona estátua

A repercussão do monumento também levou o prefeito de São Gonçalo do Amarante, Professor Marcelão (PT), a se manifestar sobre as autorizações concedidas para o funcionamento do templo. Na última semana, o gestor apresentou publicamente uma autorização emitida pela Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Ceará (Sema), concedida após análise dos requisitos legais e ambientais da região.

Segundo o prefeito, porém, o documento trata da construção do templo religioso e não faz menção à instalação da estátua.

“Tanto a Sema quanto a Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo do Município farão as visitas para saber se, tecnicamente, segue os padrões. As licenças foram para construir um templo. É autorização para um templo religioso e não a estátua”, afirmou.

Professor Marcelão explicou que a licença emitida pelo órgão municipal ocorreu em respeito ao pedido da secretaria estadual, já que a área está localizada dentro de uma Área de Proteção Ambiental (APA) gerida pela Sema. O prefeito também afirmou que a escultura gerou preocupação entre parte dos moradores e informou ter se reunido com padres e pastores evangélicos para tratar do assunto.

“As pessoas estão preocupadas, aflitas, mas precisam ver os meios técnicos. Não há intolerância religiosa, os meios técnicos poderão resolver essa situação. Estarão lá averiguando. O laudo vai sair pelos técnicos, que estarão lá nos próximos dias”, completou.

Trajetória de Mãe Rainha das Trevas

A sacerdotisa conta que sua trajetória na Quimbanda começou depois de ser expulsa de casa ao decidir seguir a religião. Segundo seu relato, ela frequentava uma igreja protestante antes de se converter. Atualmente, afirma ter construído um patrimônio milionário, constituído família e encontrado na espiritualidade sua principal riqueza.

A estátua instalada no Palácio Estrela Negra da Quimbanda passou a ter repercussão nacional após sua inauguração e se tornou o centro de um debate que envolve liberdade religiosa, intolerância, questões ambientais e as autorizações para a construção do templo.