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Aos 17 anos, Eneias escolheu ser pai de dois meninos: “Os três ocupam o mesmo lugar”

Enéas escolheu assumir como seus os dois filhos da esposa e construiu uma história de amor, presença e cuidado
Foto: Arquivo pessoal

Aos 17 anos, Eneias Melo da Rocha se casou e, naquele mesmo dia, assumiu uma responsabilidade que mudaria para sempre sua vida. A mulher que escolheu para dividir a vida já tinha dois filhos pequenos: Eder, então com cerca de dois anos, e Esley, com aproximadamente um ano e seis meses. Naquele momento, Enéas não apenas se tornou marido, também escolheu ser pai. Hoje, aos 45 anos, ele olha para os dois homens que ajudou a criar e para Isabele Cristina, sua filha biológica, de 23 anos, e não faz distinção entre os três.

“Tenho uma filha biológica, mas para mim os três ocupam o mesmo lugar”, afirma.

A história dessa família, porém, começou muito antes. Ainda criança, Enéas precisou aprender a lidar com a distância e a saudade dos próprios pais.

Do Piauí para o Ceará

Filho de agricultores, Eneias cresceu em um sítio distante da cidade, no interior do Piauí. As dificuldades para estudar e trabalhar fizeram com que deixasse os pais ainda muito jovem. Por volta dos 12 anos, veio para o Ceará, onde passou a morar com primos de segundo grau e começou a construir a própria vida.

A distância dos pais não era apenas geográfica. Sem condições financeiras para retornar ao Piauí com frequência, os encontros eram raros. As cartas passaram a ser uma das principais formas de manter o contato com a família.

Eneias reencontra os pais anos depois da partida do Piauí. Foto: Arquivo Pessoal

Anos depois, após a morte da mãe, uma dessas cartas revelou um pouco da realidade enfrentada por Eneias naquele período. Em poucas linhas, o jovem pedia ajuda financeira aos pais para comprar algumas coisas. Era um pedido simples, mas revelava as dificuldades de quem precisou aprender a se virar longe de casa.

A experiência da distância deixou marcas e ensinamentos. Entre eles, a referência do próprio pai.

“No começo foi muito difícil, mas o que aprendi com meu pai nunca esqueci. Meu pai sempre foi homem honesto, e a separação e a saudade deles me fizeram o homem sincero e responsável que sou hoje”, conta.

O menino que virou pai

Foi ainda muito jovem que Eneias começou a construir a própria família. Ao se casar, encontrou dois meninos pequenos que, até então, não tinham nele uma figura paterna. A decisão, porém, veio da convivência. Eneias escolheu assumir os dois como filhos. “Assumir como meus próprios filhos”, resume.

Os meninos eram pequenos e, naturalmente, passaram a chamá-lo de pai. Para Eneias, o reconhecimento vindo das crianças se transformou em motivo de orgulho.

“Bem pequenos eles já me chamavam de pai. Fiquei orgulhoso”, relata.

Esley, hoje com 27 anos, confirma que nunca enxergou Eneias como outra coisa que não seu pai. Ele tinha pouco mais de um ano quando o padrasto chegou à família e, por isso, a figura paterna foi construída a partir da convivência diária.

Mesmo quando visitava a família do pai biológico, Esley não conseguia estabelecer a mesma relação. O contato era pequeno e, dentro de casa, havia alguém ocupando aquele lugar todos os dias.

“Desde sempre eu considero ele como pai. Quando ele se casou com a minha mãe, eu tinha um ano e alguns meses, perto de dois anos. Então, desde criança, ele era o meu pai”, afirma.

Para Esley, a diferença estava justamente na presença. “Eu considero ele pai porque ele não tinha nenhuma obrigação pela minha pessoa, mas ele resolveu assumir mesmo sendo jovem.”

Foto: Arquivo Pessoal

Uma paternidade construída no cotidiano

Assumir dois filhos ainda tão jovem significava lidar com responsabilidades para as quais Eneias nem sempre se sentia preparado. Ele conta que teve medo de não conseguir sustentar a família, mas nunca sentiu que precisava provar que era pai dos meninos. O vínculo havia sido construído pela convivência. “Era muito novo e tinha preocupação de não conseguir. Em nenhum momento eu tive que provar que não era pai deles. Eles eram bem apegados a mim.”

Esley guarda lembranças simples daquela infância. Uma delas envolve a chegada de Eneias em um carro vermelho. A imagem ficou marcada na memória e se relaciona a uma fotografia de uma Saveiro vermelha que permanecia guardada em uma caixa.

Outra lembrança veio por meio do trabalho. Eneias trabalhou durante muitos anos em uma retífica, especializada na recuperação e manutenção de motores de veículos. A atividade acabou influenciando também a trajetória profissional de Esley. “Hoje a profissão que tenho aprendi a gostar através da profissão dele.”

Casal teve filha biológica nascida no Ceará. Foto: Arquivo Pessoal

Trabalho para sustentar a família

A vida profissional de Eneias foi construída em meio a dificuldades. Durante anos, o trabalho em uma retífica foi o caminho encontrado para sustentar a família e garantir aos filhos oportunidades que ele próprio nem sempre teve. Mesmo diante das dificuldades, manteve a convicção de que era possível vencer sem abandonar os princípios que havia aprendido com os pais.

“Fiz questão de ensinar a eles que, mesmo sendo difícil, podemos conseguir. Hoje me orgulho de ver eles bem”, afirma.

A família cresceu novamente com o nascimento de Isabele Cristina, filha biológica de Eneias e Maria Lucinete da Silva Melo. A chegada da menina marcou também uma nova etapa profissional. Depois de anos trabalhando para outras pessoas, Eneias deixou o emprego e, ao lado da esposa, abriu a própria retífica em Caucaia. A empresa passou a fazer parte da história da família e permanece até hoje como resultado de anos de trabalho.

Três filhos, o mesmo lugar

Com o passar dos anos, a diferença entre os vínculos biológicos deixou de fazer sentido dentro daquela família. Eder, Esley e Isabele cresceram sob o mesmo olhar paterno. Para Eneias, não existe uma hierarquia entre os filhos. “Tenho uma filha biológica, mas para mim os três ocupam o mesmo lugar.”

A presença também foi uma escolha consciente. Eneias procurou acompanhar os filhos em diferentes momentos da vida e acredita ter conseguido oferecer algo que ele próprio gostaria de ter recebido quando era criança: a presença de um pai.

Hoje, aos 45 anos, vê os três filhos adultos seguindo suas próprias trajetórias.

Eder, de 29 anos, seguiu os passos do pai e trabalha com ele na retífica. Esley, de 27 anos, é formado pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) como técnico em manutenção automotiva e atualmente cursa Engenharia de Software. Isabele, de 23 anos, cursa Engenharia Civil na Universidade Federal do Ceará (UFC), em Fortaleza.

A história de Eneias é, sobretudo, sobre uma escolha. A de transformar uma relação que poderia ser apenas de convivência em um vínculo de paternidade. Ele conheceu cedo a ausência, a distância e a saudade dos próprios pais. Quando teve a oportunidade de construir sua própria família, escolheu fazer diferente. No fim, o que definiu Eneias como pai não foi o nascimento de uma criança, mas a decisão de estar presente. Para Eder, Esley e Isabele, essa presença atravessou a infância, a adolescência e chegou à vida adulta. Um pai que escolheu ser pai e três filhos que, cada um à sua maneira, aprenderam a chamá-lo assim.