Um estudo lançado na última quarta-feira (17) estima que o Ceará teve 3.432 mortes, entre 2000 e 2019, associadas ao calor extremo — o 11º estado do país em registros em números absolutos. Isso equivale a 0,43% da mortalidade total registrada no período, excluindo os óbitos por causas externas (acidentes e violências).
O estudo Saúde e ondas de calor no Brasil: evidências sobre mortalidade, morbidade hospitalar e implicações para o SUS foi elaborado por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Nele, foram analisados 5.566 municípios brasileiros, quase a totalidade. Apenas quatro ficaram de fora por incompatibilidades técnicas e administrativas, mas nenhum deles é cearense.
A pesquisa revelou ainda que a grande maioria das pessoas afetadas são idosos com mais de 65 anos: 3.186, o que eleva a mortalidade para 0,63 neste grupo. Pessoas de 0 a 64 foram 287 óbitos.
No Brasil, neste mesmo intervalo de 20 anos, estima-se 120 mil mortes associadas às ondas de calor, uma média de 6 mil óbitos por ano — a média cearense foi de 171/ano.
“A inovação deste estudo está em integrar, em escala nacional, a caracterização das ondas de calor considerando frequência, intensidade e duração com uma análise detalhada de seus impactos sobre internações hospitalares e mortalidade”, explica a pesquisadora Beatriz Oliveira, da Fiocruz, trazendo a relevância da pesquisa.
Avaliação dos números
As análises indicam associação consistente entre a exposição ao calor extremo e o aumento da mortalidade, especialmente entre idosos, pessoas com doenças respiratórias, mulheres e indivíduos com menor escolaridade.
“Percebemos que os efeitos são observados em todo o território. Quando a gente olha para os resultados, consegue ter uma dimensão melhor do problema e orientar políticas públicas mais eficazes”, complementa Beatriz.
O pesquisador da UFBA Ismael Silveira acredita que os resultados alertam para a seriedade do problema. “Com isso, podemos chamar atenção para planos de contingência específicos, além de fortalecer a capacidade tanto de antecipação quanto de resposta do SUS”, diz.
Internações
De acordo com o estudo, as ondas de calor aumentam de forma consistente o risco de internações por doenças respiratórias, especialmente pneumonia, e por enfermidades geniturinárias, como insuficiência renal, em praticamente todas as regiões do país.
Entre crianças com menos de 10 anos, as gastroenterites apareceram como a causa de internação mais fortemente associada aos episódios de calor extremo. Segundo os pesquisadores, contribuem para esse cenário a maior vulnerabilidade à desidratação e alterações ambientais que afetam a qualidade da água e a conservação de alimentos.
Na população com mais de 60 anos, o levantamento identificou elevada sensibilidade para doenças respiratórias, renais e metabólicas, incluindo diabetes. O estudo também sugere que eventos cardiovasculares durante ondas de calor podem evoluir rapidamente para quadros graves, com possibilidade de morte antes da hospitalização.
O supervisor de Impactos, Vulnerabilidades e Adaptação do projeto Ciência&Clima, Sávio Raeder, demonstra como as pessoas em vulnerabilidade social sofrem ainda mais como os efeitos do calor extremo.
“Na mortalidade, identificamos um gradiente social de risco, com maior aumento percentual do risco de morte entre pessoas com menor escolaridade. Esses resultados reforçam a necessidade de direcionar ações de adaptação e proteção aos grupos mais vulneráveis”, disse Raeder.
Alerta global
Em 2023, a Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência especializada da Organização das Nações Unidas (ONU), apontou que as ondas de calor intenso devem aumentar em frequência, intensidade e duração, por conta das mudanças climáticas, em virtude do aumento das emissões de gases do efeito estufa.
Um estudo realizado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) também mostrou que esses fenômenos têm crescido de forma acelerada, nas últimas décadas, no Brasil e a tendência é que as ondas de calor se intensifiquem na próxima década. Isso é por conta dos bloqueios atmosféricos, sistemas que impedem a chegada de frentes frias, que estão por trás do aumento das temperaturas extremas.
Os bloqueios criam uma bolha de calor, onde o ar quente fica preso e não há formação de nuvens nem ocorrência de chuvas. Segundo a pesquisa, até 2071, esses sistemas podem se tornar dez vezes mais potentes, agravando ainda mais as ondas de calor tanto no continente quanto no oceano. (Com informações da Agência Brasil)
