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Projeto da misoginia vira alvo de desinformação nas redes após aprovação no Senado

Levantamento aponta uso de inteligência artificial, narrativas falsas e atuação de políticos e influenciadores para distorcer debate
O relatório destaca ainda o crescimento de termos ligados à cultura misógina redpill, que retrata o projeto como uma ameaça aos homens. Foto: Paulo Pinto/ Agência Brasil

O chamado Projeto de Lei da Misoginia virou alvo de uma ofensiva de desinformação nas redes sociais, coordenada por políticos de direita e, principalmente, da extrema-direita, segundo levantamento do Observatório Lupa.

O estudo identificou narrativas falsas, teorias conspiratórias e conteúdos produzidos com inteligência artificial (IA) para atacar o PL aprovado pelo Senado Federal em março deste ano.

Entre os dias 24 de março e 30 de abril de 2026, pesquisadores coletaram mais de 289 mil publicações no X (antigo Twitter) sobre o assunto. A análise também reuniu 6,3 mil posts no Facebook, 2,9 mil no Instagram e mil no Threads.

A análise desse conjunto de dados permitiu ao observatório mapear picos de desinformação, tendências narrativas e padrões de comportamento nas plataformas digitais. O projeto em debate no Congresso é o PL 896/2023, que define misoginia como a conduta que exterioriza ódio ou aversão às mulheres.

PROJETO

Se houver aprovação pela Câmara dos Deputados sem mudanças, o texto passará a incluir a condição de mulher na Lei do Racismo (7.716/1989). A proposta prevê pena de dois a cinco anos de prisão, além de multa, para práticas enquadradas como misóginas.

O levantamento da Lupa aponta que o principal pico de engajamento ocorreu em 25 de março, um dia após a aprovação da proposta no Senado Federal. A movimentação ganhou impulso após a publicação de um vídeo do deputado federal de extrema-direita Nikolas Ferreira (PL-MG).

Na gravação, o parlamentar associou ao PL da Misoginia trechos de outro projeto, o PL 4224/2024, da senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA). Esse texto tratava da Política Nacional de Combate à Misoginia, mas não fazia parte da proposta aprovada pelos senadores.

ALCANCE

De acordo com o estudo, a publicação alcançou ao menos 751 mil visualizações em apenas 24 horas. Posteriormente, o vídeo foi apagado e republicado sem o trecho que citava o outro projeto.

O relatório também aponta que uma das principais narrativas difundidas nas redes afirmava que o projeto restringiria a liberdade de expressão. Outra versão dizia que a proposta poderia ser usada para perseguir a direita.

Outra linha recorrente de desinformação afirmava que perguntar a uma mulher se ela estava com TPM poderia levar alguém à prisão.

“As publicações mais virais sobre o PL da Misoginia têm explorado, sobretudo, o medo como motor de engajamento”, afirma o relatório.

Segundo os pesquisadores, conteúdos falsos também sugeriram que a proposta provocaria demissões em massa de mulheres ou criminalizaria trechos da Bíblia. A pesquisa identificou o uso de inteligência artificial para criar vídeos falsos sobre supostas consequências da proposta.

Um dos exemplos citados envolve publicações que alegavam que empresários teriam começado a demitir mulheres para evitar processos ligados à futura legislação.

ATORES

Entre os nomes mais influentes na circulação desses conteúdos aparecem, além de Nikolas Ferreira, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o vereador paulistano Lucas Pavanato (PL-SP), o comentarista político Caio Coppola e a influenciadora Babi Mendes.

O relatório destaca ainda o crescimento de termos ligados à cultura misógina redpill, que retrata o projeto como uma ameaça aos homens. Também surgiram menções frequentes a aplicativos de transporte em tom irônico, sugerindo medo de acusações falsas em interações cotidianas.

Para os pesquisadores, as postagens ignoram um ponto central do projeto: a misoginia, no escopo da proposta, está ligada a práticas discriminatórias que gerem constrangimento, humilhação, medo ou exposição indevida por causa do gênero.

“Ao ignorar esse contexto, as postagens distorcem o debate e ampliam a desinformação”, conclui o estudo.

Com informações da Agência Brasil.