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Relatório aponta ameaças, monitoramento e ataques a bispos em embate entre bolsonarismo e a CNBB

Documento entregue a bispos nesta segunda-feira (28) reúne episódios atribuídos pela comissão a setores da extrema direita e inclui a atual controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida
Bispos e integrantes da CNBB receberam o relatório da CBJP nesta segunda-feira (28), em meio à controvérsia envolvendo Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida. Foto: Arquivo/CNBB

Bispos e integrantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) receberam, na segunda-feira (28), um relatório da Comissão Brasileira de Justiça e Paz (CBJP) que reúne 58 episódios classificados pela entidade como ataques de setores da extrema-direita contra a Igreja Católica no Brasil. O levantamento, divulgado inicialmente pelo Brasil de Fato, reúne casos registrados desde 2018 e chega à atual controvérsia envolvendo o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL).

Segundo o relatório, a CNBB, seus dirigentes e campanhas pastorais foram alvo, ao longo dos anos, de acusações que associavam a entidade ao PT e ao comunismo, além de questionamentos sobre sua atuação religiosa e campanhas de boicote à Campanha da Fraternidade.

“Os documentos reunidos mostram que, desde pelo menos 2018, a conferência, seus dirigentes e suas campanhas pastorais são alvos de acusações financeiras, de associação ao PT ou ao comunismo e de desqualificação religiosa… A Campanha da Fraternidade aparece repetidamente como ocasião para boicotes e mobilização pública, inclusive com orientações para não contribuir com a coleta”, afirma o relatório da CBJP.

Episódios reunidos pela comissão

O documento apresenta links para os episódios relacionados no levantamento. A retrospectiva começa em fevereiro de 2018, quando o blogueiro Bernardo Kuster publicou um vídeo associando a CNBB à esquerda e ao PT e criticando a Campanha da Fraternidade.

Em outubro daquele ano, o relatório registra uma declaração do então candidato Jair Bolsonaro (PL), que classificou a CNBB como “a parte podre da igreja Católica”.

Em 2019, o documento aponta ataques ao então presidente da CNBB, dom Walmor Oliveira, além de uma publicação de Eduardo Bolsonaro (PL) no X na qual afirmou que a esquerda teria se infiltrado na Igreja Católica, “principalmente através da CNBB”.

O levantamento também inclui episódios relacionados à Carta ao Povo de Deus, documento assinado por bispos em 2020 com críticas à condução do governo federal durante a pandemia de Covid-19. Segundo a CBJP, 152 bispos teriam sido espionados naquele período por uma estrutura da Agência Brasileira de Inteligência (Abin que ficou conhecida como “Abin paralela”. O relatório também cita manifestações do blogueiro Rodrigo Constantino contra a CNBB após a divulgação da carta.

Outro episódio mencionado ocorreu em 2022, quando o então cardeal Odilo Scherer foi alvo de ataques nas redes sociais durante a campanha eleitoral. O relatório afirma que a utilização de vermelho em sua foto de perfil no X foi usada por críticos como argumento para associá-lo ao PT.

Controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida

A entrega do relatório ocorre em meio ao novo conflito entre a campanha de Flávio Bolsonaro e setores da Igreja Católica.

A controvérsia começou após circular nas redes sociais a informação de que o candidato teria intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A informação foi relacionada a uma proposta apresentada em 2007 na Câmara dos Deputados, que acabou arquivada em agosto de 2008. Flávio Bolsonaro nega ter qualquer projeto com esse objetivo e afirma que a associação é falsa.

O episódio ganhou novo capítulo após Flávio Bolsonaro afirmar que pessoas “de dentro da CNBB” teriam participado da disseminação da informação. A entidade negou a acusação e declarou não ter produzido, autorizado ou participado da elaboração ou divulgação de conteúdos falsos relacionados às eleições. A disputa também chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF). Depois de decisões divergentes envolvendo conteúdos sobre o tema, o caso deverá ser analisado pelo plenário da Corte.

CNBB afirma não integrar candidatura ou partido

Em nota divulgada no domingo (27), a CNBB afirmou que não integra qualquer estrutura político-partidária, partido ou candidatura. A entidade também disse que não participou da elaboração ou divulgação das informações relacionadas à suposta mudança do título de Nossa Senhora Aparecida.

A conferência afirmou que suas manifestações durante o período eleitoral estão relacionadas à sua missão pastoral e a princípios como dignidade humana, bem comum, democracia e liberdade de consciência.

A tensão ocorre na reta final da campanha eleitoral de 2026 e coloca novamente no centro do debate a relação entre instituições religiosas, candidatos e disputas políticas nas redes sociais.