Atrair grandes data centers para o Ceará é uma oportunidade para impulsionar a economia, mas o desafio é fazer com que esses investimentos também gerem conhecimento, tecnologia e empregos qualificados. Essa é a avaliação de Hugo Figueirêdo, presidente da Empresa de Tecnologia da Informação do Ceará (Etice), em entrevista ao Opinião Tech, videocast de tecnologia e inovação do Opinião CE.
Durante a entrevista, realizada nas instalações da Etice, a equipe do Opinião CE conheceu o data center da empresa, estrutura que sustenta bases de dados e serviços tecnológicos utilizados por órgãos públicos. Figueirêdo defendeu que o Estado avance para além da oferta de energia e conectividade, criando condições para que empresas desenvolvam produtos, serviços e soluções tecnológicas no Ceará.
“É preciso agregar mais valor na cadeia produtiva da informação digital. E como é que a gente faz isso? É desenvolvendo conhecimento, desenvolvendo tecnologia, criando novas empresas, atraindo empresas de grande porte para desenvolver os seus produtos e serviços aqui no Ceará e assim oferecer mais empregos de qualidade também para a população”, afirmou.
A avaliação ocorre em meio à expansão dos investimentos em data centers no Estado, impulsionada pela disponibilidade de energia renovável, pela infraestrutura de fibra óptica e pela conexão internacional por cabos submarinos. Para Figueirêdo, essas condições colocam o Ceará em posição estratégica na economia digital, mas precisam ser acompanhadas de políticas que estimulem a inovação e fortaleçam o ambiente de negócios local.
A entrevista completa fica disponível no YouTube do Opinião CE.
Etice oferece infraestrutura digital para serviços públicos
Empresa 100% estatal, a Etice presta serviços de tecnologia da informação e comunicação para órgãos governamentais. Entre seus clientes estão secretarias e órgãos do Executivo estadual, a Assembleia Legislativa, o Poder Judiciário, o Tribunal de Contas, prefeituras cearenses e instituições públicas de outros estados. Segundo Figueirêdo, cerca de 10% do faturamento da empresa já vem de clientes de fora do Ceará. Em 2025, a receita ficou em torno de R$ 500 milhões, de acordo com o presidente.
A atuação da Etice inclui infraestrutura e ferramentas utilizadas em serviços públicos, como videomonitoramento, reconhecimento facial e biometria em estádios, teleconsultas e sistemas de matrícula escolar pela internet. Essas soluções são utilizadas pelos órgãos responsáveis pela execução dos serviços. A empresa fornece a infraestrutura tecnológica que permite ao poder público ampliar o alcance e a eficiência do atendimento à população.
Cinturão Digital pode ampliar conectividade e atrair empresas
Outro ativo estratégico citado pelo presidente é o Cinturão Digital do Ceará, rede de fibra óptica que conecta municípios do Estado e integra a infraestrutura de telecomunicações. A estrutura permite levar conectividade a diferentes regiões e ampliar o acesso a redes que se comunicam com mercados internacionais.
O sistema é composto por 12 pares de fibra óptica. De acordo com Figueirêdo, seis estão reservados para a Etice e parceiros, enquanto os outros seis passam por estudos, em conjunto com o Banco Mundial, para avaliar a possibilidade de concessão ao setor privado. A proposta é ampliar o aproveitamento da infraestrutura já instalada pelo Estado e abrir espaço para novos negócios. Um dos exemplos citados pelo presidente é a concessão de um par de fibras à Brisanet, em 2015. Segundo ele, a estrutura contribuiu para a expansão da empresa, que ampliou sua atuação no setor de telecomunicações.

A estratégia também pode favorecer a instalação de data centers fora da Região Metropolitana de Fortaleza, aproximando a infraestrutura digital das áreas com maior disponibilidade de energia e criando oportunidades para interiorizar investimentos.
Energia renovável e formação profissional são diferenciais
Além da conectividade, Figueirêdo destaca a capacidade de geração de energia eólica e solar do Ceará como um dos fatores que favorecem a atração de data centers. Essas estruturas demandam grandes volumes de eletricidade para manter operações contínuas, especialmente com o avanço da inteligência artificial. Na avaliação do presidente da Etice, o Estado também precisa aproveitar os investimentos em educação para formar profissionais capazes de atender às novas demandas do setor tecnológico.
Ele cita a atuação de instituições como a Universidade Estadual do Ceará (Uece), o Instituto Federal do Ceará (IFCE) e o Instituto Centec, além da implantação do campus do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) em Fortaleza, como parte do ambiente de formação e pesquisa que pode contribuir para esse processo. A combinação entre infraestrutura e capital humano, segundo Figueirêdo, é fundamental para que o Ceará não se limite a receber grandes equipamentos tecnológicos, mas também desenvolva competências e empresas ligadas à economia digital.
Data centers podem gerar empregos além da construção
A expansão do setor já cria oportunidades de trabalho durante a implantação dos empreendimentos e pode sustentar novos postos na fase de operação. Ao comentar o projeto de data center da ByteDance, controladora do TikTok, no Complexo do Pecém, Figueirêdo mencionou a previsão de cerca de 3,8 mil empregos durante as obras e aproximadamente 400 postos permanentes na operação. Além dessas vagas, o presidente aponta possibilidades de geração de empregos em atividades relacionadas à produção de energia, à prestação de serviços, à pesquisa, ao desenvolvimento tecnológico e à criação de novas empresas.
Para ampliar os resultados econômicos, ele defende que os grandes investimentos sejam acompanhados de contrapartidas voltadas à inovação. A Etice também pretende utilizar seu poder de compra para estimular fornecedores e parceiros a ampliar investimentos em desenvolvimento tecnológico no Estado.

Ceará precisa transformar infraestrutura em inovação
Ao comparar a expansão dos data centers com o debate sobre o hidrogênio verde, Figueirêdo afirmou que a transição energética e o avanço da inteligência artificial são duas grandes transformações em curso, mas seguem dinâmicas diferentes. Na avaliação dele, a velocidade de expansão da inteligência artificial exige atenção para que o Ceará aproveite as oportunidades sem deixar de investir na capacidade local de desenvolver tecnologia.
O desafio, portanto, é fazer com que energia, conectividade e grandes empreendimentos funcionem como base para uma cadeia produtiva mais ampla, capaz de gerar conhecimento, estimular negócios e oferecer empregos de maior qualificação à população cearense.
