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“Precisamos organizar a sociedade ao redor da criança”, defende especialista em Montessori

Doutor em Montessori na Mídia pela USP, pesquisador defende que crianças precisam ser protegidas, mas também ter acesso a condições adequadas de desenvolvimento e espaço para participar das decisões que afetam suas vidas
Gabriel Salomão, doutor em Montessori na Mídia pela USP, durante entrevista ao Opinião Criança. Foto: Opinião CE

“A criança é a construtora da humanidade”. A afirmação é do pesquisador Gabriel Salomão, doutor em Montessori na Mídia pela Universidade de São Paulo (USP), em entrevista ao Opinião Criança, do Opinião CE. Para ele, compreender o papel da infância exige ir além da proteção e reconhecer as crianças como participantes da construção da sociedade. A entrevista completa fica disponível no canal do YouTube do Opinião CE.

Na avaliação de Salomão, o Brasil avançou na criação de mecanismos de proteção à infância, mas ainda precisa ampliar a participação das crianças nos debates sobre o mundo em que vivem.

“O Brasil é um destaque nesse sentido [colocar a criança no centro do debate]. A gente tem uma legislação riquíssima de proteção à infância, uma legislação muito boa agora de proteção da criança no ambiente digital”, afirma.

O pesquisador aponta três pilares para compreender o lugar da criança na sociedade: proteção, provisão e participação. A divisão, segundo ele, está relacionada aos princípios utilizados pela Organização das Nações Unidas (ONU) para pensar os direitos da infância. A proteção diz respeito à garantia de segurança diante de situações de violência, abuso e outras ameaças. Já a provisão envolve aquilo que a sociedade oferece para que a criança possa se desenvolver. “São três pilares da ONU para quando a gente pensa o lugar da criança no mundo. A provisão é aquilo que a gente oferece para essa criança, o que Maria Montessori chamaria de ambiente preparado, para essa criança poder se desenvolver”, explica.

O terceiro pilar, segundo Salomão, é justamente aquele em que ainda há espaço para avanços: a participação. “A participação é o tanto que a gente escuta essa criança quando a gente vai pensar o mundo da gente”, afirma.

Participação ainda é um desafio

Para o pesquisador, o Brasil avançou significativamente na proteção das crianças, enquanto a oferta de condições para o desenvolvimento também apresentou avanços, embora ainda existam desafios na educação. Ele cita o Ceará como um destaque no cenário educacional, mas ressalta que o país ainda precisa avançar em diferentes indicadores.

“Acho que avançamos muito na proteção, temos muito para avançar, mas avançamos um monte. Avançamos um pouco na provisão, se a gente olhar para o Brasil hoje, embora as nossas taxas de educação ainda não sejam maravilhosas, o Ceará é um destaque em boas taxas de educação, mas nacionalmente ainda temos um tanto para pedalar aí”, afirma.

Para Salomão, porém, a participação infantil permanece como uma das principais questões a serem enfrentadas. “O lugar onde a gente ainda precisa avançar muito talvez seja a participação”, resume.

“A criança é a construtora da humanidade”

Gabriel Salomão também destaca uma das ideias centrais da perspectiva montessoriana: a criança não deve ser vista apenas como alguém que recebe educação, proteção e cuidados dos adultos, mas como um sujeito ativo na construção da humanidade. “A criança é a construtora da humanidade. Não há humanidade que não tenha sido construída ativamente pela criança”, afirma.

Pesquisador destaca os pilares de proteção, provisão e participação para pensar o lugar da criança no mundo. Foto: Opinião CE

Segundo ele, cada adulto carrega consigo o resultado do processo de desenvolvimento vivido durante a infância. “Cada um de nós adultos é o resultado dos esforços da criança que a gente foi um dia. Dos esforços. Aquela criança precisou se esforçar para andar, se esforçar para falar, se esforçar para aprender. Nós somos os resultados dos esforços de uma criança”, explica.

A partir dessa compreensão, Salomão recupera o pensamento de Maria Montessori para defender uma mudança na maneira como a sociedade organiza seus espaços, instituições e relações em torno da infância.

“E a Maria Montessori nos dizia que se a gente perceber de verdade que a criança é a construtora da humanidade, nós vamos organizar a civilização ao redor da criança”, afirma.

Para o pesquisador, essa mudança de perspectiva parte do reconhecimento de que o desenvolvimento infantil não é um processo passivo. “Porque já que é ela que constrói a humanidade, nada mais lógico do que organizar a humanidade para que essa construção ocorra da melhor maneira possível. O lugar da criança é esse. Agora nós precisamos perceber”, conclui.

Gabriel Salomão mantém pesquisas e produção sobre Montessori e educação e é autor de conteúdos publicados sobre infância, educação e desenvolvimento infantil. No Opinião CE, ele também assina textos sobre educação montessoriana.