A discussão sobre superdotação e altas habilidades tem ganhado cada vez mais espaço no Ceará. O tema mobiliza famílias, educadores e representantes do poder público em busca de mais conhecimento, acolhimento e políticas voltadas para crianças com desenvolvimento neuroatípico.
Em entrevista ao projeto Opinião Criança, do Grupo Opinião CE, pais de crianças superdotadas relataram os desafios enfrentados desde o diagnóstico até a adaptação dos filhos no ambiente escolar. Para Patrícia Santos, mãe do jovem Heitor, a descoberta da superdotação veio acompanhada de expectativas que, na prática, não se confirmaram.
“Eu comecei a entender que não era assim. Até porque, dentro da superdotação, tem várias vertentes”, destacou.
Segundo ela, a principal dificuldade está na preparação das escolas para atender às necessidades específicas desses estudantes.
Falta de preparo nas escolas
O advogado José Alberto, pai de duas crianças superdotadas, também relatou experiências desafiadoras no ambiente escolar. Segundo ele, a instituição onde seus filhos estudavam não possuía estrutura adequada para compreender e acolher comportamentos relacionados às altas habilidades. “O grito que eles davam, que era o tédio que batia na aula, de ele querer ir para uma turma mais avançada, aquela inquietação constante que ele tinha, foi identificado lá não como um comportamento de uma criança superdotada, mas sim como um mau comportamento”, afirmou.
De acordo com José Alberto, a situação gerou uma série de desdobramentos que culminaram na decisão de transferir os filhos para outra instituição.
“Ali, quando a gente viu o que é que estava acontecendo, a gente identificou e tomou a decisão de mudar de colégio”, pontuou.
Debate avança no Ceará
A pauta ganhou força na Assembleia Legislativa do Ceará (Alece) por meio de iniciativas lideradas pela deputada estadual Emília Pessoa (PSDB). Como parte das ações de conscientização, o Estado recebeu recentemente a professora Olzeni Ribeiro, referência nacional em superdotação e altas habilidades. Patrícia Santos afirma que o contato com os estudos e orientações da especialista foi fundamental para compreender melhor as necessidades do filho.
“Quando eu comecei a me aprofundar justamente com as informações que a doutora Olzeni passa, eu percebi que a gente precisava muito mais de cuidado em todos os aspectos, principalmente na questão do acompanhamento diário, na escola, nas emoções”, ressaltou.
O que caracteriza a superdotação
Em entrevista ao Opinião CE, Olzeni Ribeiro explicou que crianças superdotadas apresentam desenvolvimento neuroatípico, com características que diferem do padrão esperado para a idade. “São crianças que falam mais rápido, andam mais rápido, crianças que se sentam com três a quatro meses”, exemplificou.
A especialista ressalta, porém, que nem todas as crianças apresentam as mesmas características. Segundo ela, a percepção inicial costuma partir da própria família.
“Isso não tem como não perceber. À medida em que os pais convivem com outras crianças, vizinhos, parentes, eles já percebem que aquela criança destoa do desenvolvimento do outro que é da mesma idade”, explicou.
Rede de apoio reúne mais de 200 famílias
Diante da necessidade de compartilhar experiências e informações, pais de crianças superdotadas criaram um grupo de apoio no Ceará. Atualmente, a iniciativa reúne mais de 200 participantes em uma comunidade no WhatsApp. Para Patrícia Santos, o espaço tem sido fundamental para orientar famílias e facilitar o acesso a profissionais especializados.
“Muitas vezes, a criança e os pais não se entendem e não conseguem desenvolver isso. Acaba virando um problema, o que não é. Se souber utilizar a superdotação, você consegue alcançar o mundo”, afirmou.
José Alberto destaca que a mobilização também tem contribuído para mudanças dentro das instituições de ensino. “Criamos um relacionamento com outros pais e, a partir dali, chegamos ao dono do colégio dos nossos filhos. Então, o colégio deles, o atual, já passou a se adaptar, já passou a buscar orientação”, concluiu.
