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Após quase 28 anos, filho consegue levar acusado da morte de sua mãe ao banco dos réus

Aleson Bruno Fernandes perdeu sua mãe aos dois anos de idade. Já adulto, decidiu mobilizar o sistema de justiça para, enfim, o acusado ser julgado.
Bruno atuará como assistente de acusação no caso da morte de sua mãe. Foto: Reprodução/Redes Sociais

No dia 9 de julho de 1998, a dor de perder a mãe atravessou quatro crianças da cidade de Milhã, na região do Sertão Central do Ceará. Ivaneide Barbosa Fernandes Silva, de 24 anos, foi morta a golpes de faca por um homem que a assediou. A motivação? Ela apenas recusou a investida. Disse “não”. O caso marcou o município que, até então, não havia registrado nenhuma morte violenta contra uma mulher em toda a sua história.

Quase 30 anos depois, o acusado do crime, que confessou em juízo, sentará no banco dos réus após uma incansável luta de sua família por justiça, liderada por Aleson Bruno Fernandes, filho de Ivaneide, que tinha apenas dois anos quando sua mãe foi assassinada. Ele vai atuar como assistente de acusação no júri.

“Crescer sem mãe é crescer com um buraco que nada preenche. A gente não teve colo de mãe, não teve conselho de mãe, não teve bronca de mãe. Teve saudade”, confessa Bruno, que está com 30 anos de idade e é ouvidor-geral adjunto do município de Milhã.

Bruno e seus três irmãos, Alek Júnior, Ana Lívia e Ana Cláudia — a última que tinha apenas um ano quando sua mãe foi morta — foram criados por seu pai com a ajuda da avó e dos tios. “Devo minha vida a eles”, destaca o servidor público. 

Longa batalha

Em suas próprias palavras, Bruno diz que cresceu com a sensação de que a justiça tinha esquecido de sua família. Para entender esse desabafo é preciso voltar no tempo. 

Na época, a Polícia Civil investigou o caso e o Ministério Público do Ceará ofereceu a denúncia por homicídio qualificado: motivo fútil e recurso que dificultou a defesa da vítima. É importante lembrar que ainda não havia a tipificação feminicídio — a mudança só acontece em 9 de março de 2015, com a sanção da Lei nº 13.104, que altera o Código Penal. 

Em 27 de julho de 1998, com a entrega da denúncia, o juiz decretou a prisão preventiva do suspeito. No dia seguinte, ele fugiu da cadeia pública de Solonópole, cidade vizinha de Milhã. “A partir daí o processo ficou suspenso por 20 anos. A Justiça não conseguia achar ele pra citar. Ficou esse tempo todo foragido”, lembra o filho de Ivaneide.

Pela idade precoce em que ficou órfão, Bruno não guarda memórias de sua mãe, mas absorveu a luta por justiça ao amadurecer e entender o que ela tinha sofrido. Já adulto, passou a buscar instâncias, mobilizar o sistema de justiça e constituiu advogados para acompanhar o caso. 

Tudo mudou em 27 de março de 2023, quando o suspeito foi localizado no estado de Rondônia, a cerca de 4 mil quilômetros do Ceará. A Polícia, enfim, cumpriu um mandado de prisão. 

Depois de mais de 25 anos, ele foi pronunciado, após o Tribunal de Justiça do Ceará reconhecer que há indícios suficientes de autoria e materialidade para levar a júri popular.

Porém, a defesa apresentou um recurso, que só foi apreciado no último dia 30 de junho. Por decisão unânime, a pronúncia foi mantida e o réu irá a julgamento em Solonópole, em data que ainda será marcada. 

“A justiça atrasa, mas não falha quando um filho se recusa a desistir. O tempo não absolve. O tempo cobra. E hoje, a primeira parcela foi paga: o júri está confirmado. Seguimos. Por ela. Pelos quatro. Por Milhã. Por todas que vieram depois e por nenhuma que venha mais”, escreveu Bruno em suas redes sociais.  

“O sentimento é de dever cumprido, mas não de felicidade”

Ao Opinião CE, o servidor público, que vai ingressar no curso de Direito, reforça que o sentimento é de dever cumprido, mas não de felicidade. “Não tem como ser feliz com a morte da mãe. O que eu sinto é alívio. São 28 anos esperando. 28 anos vendo outras mães, outros filhos e pensando: ‘por que com a minha foi diferente?’”, desabafa. 

Ver o autor sentando no banco dos réus, para ele, é a prova que o tempo não apaga o crime. “É a prova de que fugir por 25 anos não adianta. É a prova de que uma mãe de Milhã vale tanto quanto qualquer pessoa”, completa. 

“Eu só queria que minha mãe estivesse aqui pra ver, mas já que ela não pode, eu vou estar lá no júri por ela, como assistente de acusação. Vou olhar no olho dele e falar por ela. Esse caso é o primeiro homicídio de mulher da história de Milhã. Eu quero que sirva de exemplo: pode demorar 10, 20, 30 anos, mas a justiça chega. E quando chega, ela vem com o peso da lei”, finaliza.