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Como nasce a festa do Pau da Bandeira de Santo Antônio, em Barbalha

Cortejo de tronco de árvore como mastro da bandeira de padroeiros é registrado, no Cariri, desde o século XIX.
Um dos momentos mais aguardados é o hasteamento da bandeira. Foto: Antonio Rodrigues

A Festa do Pau da Bandeira de Santo Antônio, em Barbalha, que acontece neste domingo (31), é um dos mais populares eventos juninos do país. E não é por acaso que, desde 2015, é reconhecida como patrimônio cultural brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (Iphan). Os registros oficiais indicam que essa manifestação está prestes a completar um século. E como nasce tudo isso?

Pouca gente sabe, mas a tradição de utilizar o tronco de uma grande árvore como mastro da bandeira do padroeiro não é uma exclusividade de Santo Antônio, muito menos de Barbalha. O professor da Universidade Federal do Cariri (UFCA), Jucieldo Ferreira, doutor em História Social, conta que essa é uma prática antiga. 

Século XIX

No Cariri, há registros do hasteamento do pau da bandeira desde o século XIX, como foi relatado pela expedição do médico e naturalista botânico Francisco Freire Alemão, que esteve na região por volta de 1860 e descreveu o ritual no Crato. “Não acho que seja só do Ceará. Aqui na região, se tornou uma prática popular, mas há relatos em outros lugares. Era uma prática corriqueira e ganhou mais força e importância aqui”, explica. 

Um artigo publicado pelo advogado e pesquisador Heitor Feitosa Macêdo traz ainda a relação da forte influência indígena para esse ritual a partir do contato com a madeira em diferentes manifestações, especialmente na corrida de toras, mas em outras práticas, como os cacetes de jucás, os pífaros de taboca, exemplifica. 

No Cariri, anualmente acontecem hasteamentos em cidades como Santana do Cariri, Nova Olinda e Missão Velha — essa última traz maiores similaridades com o evento da cidade vizinha, Barbalha, mas em louvor a São José. A mesma coisa em pequenos distritos e sítios. Todos em devoção do padroeiro da igreja ou capela local. 

Registro histórico

Em Barbalha, a festa é registrada oficialmente pela Igreja em 1928, mas provavelmente acontecia antes disso. O ano foi adotado como inaugural pelo Município, porém, a festa toma força com o passar dos anos. No livro “Sentidos de Devoção”, em artigo escrito pelo próprio Jucieldo e pelos pesquisadores Océlio Teixeira e Sandra Nancy Ramos, traz mais detalhes desse crescimento. 

Antes de mais nada, é importante lembrar que a devoção a Santo Antônio remonta também ao período colonial, mais precisamente a 1790, ano da inauguração da sua capelinha no sítio que se tornaria Barbalha. Em 1838, a modesta capela foi elevada à categoria de Freguesia, sendo desmembrada da de São José de Missão Velha. Oito anos depois, o povoado seria elevado à categoria de Vila, tendo autonomia ao Crato.

Na década de 1940, há uma transformação na festa, a qual o professor Océlio Teixeira classifica como “carnavalização”. O que é isso? O evento passa a se tornar ainda mais popular, relacionando a religiosidade com as relações cotidianas, como o envolvimento de bebida e música. “Num processo contínuo de inter-relações sociais e culturais”, descreve no artigo. “Que vai deixando o tom mais festivo, galhofeiro”, completa Jucieldo. 

Esse processo ganha força a partir da década de 1970, quando o poder público municipal passou a ter uma participação mais efetiva na organização da festa do padroeiro. O discurso era também transformar num evento turístico, capaz de atrair visitantes. Vale lembrar que em 1969 havia sido inaugurada a estátua do Padre Cícero, em Juazeiro do Norte, cidade vizinha. 

Nesse sentido, foi introduzido o desfile dos grupos folclóricos, que se mantém até hoje. “Entram os penitentes, reisados, lapinha, maneiro pau, por exemplo. Há uma mescla da carnavalização e folclorização”, explica Jucieldo. 

O cortejo

Mesmo assim, o cortejo do pau da bandeira é que ganha protagonismo e se torna o carro-chefe para atrair turistas. Com o controle da festa dividido entre a paróquia e o poder público, aumenta a participação popular, o consumo de bebidas e as brincadeiras, tendo a feição atual. 

Por outro lado, o cortejo, que conforme orientação da hierarquia eclesiástica deveria ser um ato religioso de piedade, fé e sacrifício, é transformado num espaço de afirmação dos carregadores. Aos poucos, criam seus próprios costumes, situações de irreverência e experiências pessoais. Eles, na prática, são os protagonistas. 

E parte deste grupo abraça o ofício por herança. Salomão Veloso, 28, é da quarta geração de carregadores de sua família, por exemplo. Seu bisavô, Melquíades da Costa Veloso, foi o segundo capitão da história do pau da bandeira, conta. Ele acompanha o cortejo desde os nove anos, ao lado do carro de hidratação. Aos 14, passou a puxar corda de isolamento e, atualmente, carrega o mastro nos ombros. Seu momento mais especial é a entrada na rua do Rosário, ao lado do pai, que mantém o ofício.

Paralelo a isso, há as simpatias com o santo, tido como casamenteiro. Colocar sua imagem de cabeça para baixo, popular em diferentes partes do país, em Barbalha se une à pinga “Xô Caritó”, ao pó “cata-marido” e, especialmente, o chá da casca da madeira do mastro. Além disso, os participantes da festa, principalmente as mulheres, sentam ou tocam no tronco trazido pelos carregadores, alimentando a superstição em torno de conseguir um matrimônio.

A protagonista do sucesso desses costumes, sem dúvidas, é Socorro Luna, a “solteirona mais famosa do Brasil”, que criou a Noite das Solteironas, no sábado que antecede o cortejo.