O Campeonato Cearense 2024 teve início na semana passada. O “Manjadinho”, como é conhecido o certame, é polarizado entre Fortaleza e Ceará, que venceram os últimos 28 títulos. No entanto, o torneio não deixa de ser menos importante para os demais clubes. Três deles têm apenas o estadual como certeza no calendário. As prefeituras do Interior e da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), inclusive, são agentes ativos no processo de fortalecimento das equipes. O OPINIÃO CE conversou com três clubes que vão disputar a primeira divisão cearense: Caucaia, Horizonte e Iguatu, que desdobram seus atuais cenários e se projetam no futuro.
Com 10 clubes, o Cearense tem duração até a primeira quinzena de abril. Incluindo desde os multicampeões rivais da Capital a clubes do Interior que nunca conquistaram o torneio, o campeonato é palco de confrontos onde a disparidade financeira ultrapassa a casa de centenas de milhões. O Ceará e o Fortaleza, por exemplo, vão possuir orçamentos de R$ 149 milhões e R$ 258 milhões – maior da história no Estado –, respectivamente. No entanto, o orçamento na casa das centenas de milhão para nos dois principais clubes do Estado.
Para conseguir arcar com os custos comuns aos clubes de futebol, como o pagamento da folha salarial, a manutenção do seu espaço físico e a alimentação dos jogadores e trabalhadores da agremiação esportiva, os times têm se voltado para uma ajuda financeira da Prefeitura de suas respectivas cidades, através do patrocínio da gestão municipal. Segundo a Federação Cearense de Futebol (FCF), ao OPINIÃO CE, o assunto das tratativas entre clube e Prefeitura é tratado diretamente e internamente entre os dois agentes participantes da ação de patrocínio. A Federação não deixou de destacar, no entanto, que vê tais parcerias com bons olhos. “A FCF enxerga de forma muito positiva, pois é um investimento a longo prazo”.
“O futebol movimenta a economia do Município e também ajuda os jovens atletas. Quando um clube disputa nossas competições, ele atrai a imprensa, gera patrocínios, há a descoberta de novos talentos que podem render valores financeiros, além do incentivo ao esporte e o crescimento de lazer da cidade”, completou a Federação.
O Caucaia Esporte Clube, localizado na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), é uma das equipes que tem apenas o estadual como certeza no calendário de 2024. Segundo a Secretaria do Esporte e Juventude de Caucaia (Sejuv), a parceria com o time vem de uma Lei Municipal, a 3.052, de 2019, que estabelece as normas para a política de patrocínio.
Ainda conforme a Sejuv, a parceria é realizada após o clube acionar a gestão. “O clube nos envia um termo, que possui o cronograma de desembolso. Daí o enviamos para a Procuradoria Geral do Município. Nela, é feito um parecer, em que é definido o valor para a temporada baseado no orçamento do ano vigente”. Em 2023, ainda de acordo com a pasta municipal, foram realizados dois termos: o primeiro, para as competições principais, no valor de R$ 120 mil em três parcelas. Já o segundo, para as competições de base, em duas parcelas que totalizam R$ 60 mil.
A Prefeitura de Caucaia está aguardando a devolutiva da Procuradoria Geral do Município, para que, a partir dele, os próximos passos sejam tomados.
INTERIOR
A Associação Desportiva Iguatu, clube que vem vivendo o seu melhor momento da história nas últimas temporadas, vai ter um patrocínio da Prefeitura um pouco maior, no valor de R$ 250 mil dividido em oito parcelas. No entanto, conforme o presidente do time, Antônio Filho, a quantia é “praticamente insignificante”. Como explicou o dirigente, a folha salarial do clube, atualmente, está avaliada em R$ 200 mil por mês. “Só dá para pagar uma folha dos atletas, Para a alimentação diária e a folha, por exemplo, não dá”, disse.
Além disso, outra questão envolvendo a gestão municipal se tornou um problema. Em julho de 2022, o então prefeito, Ednaldo Lavor (PSD) – segundo presidente da história do Iguatu -, e o vice, Franklin Bezerra (PSDB) tiveram seus mandatos cassados em decisão do Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE-CE), por abuso de poder político. Com a saída de ambos, o presidente do Legislativo Municipal, Ronald Bezerra (Republicanos), assumiu o Município.
Durante o período de Ronald como prefeito interino, Antonio Filho acusou a Prefeitura de não pagar o patrocínio na íntegra. “Quando esse prefeito interino entrou, faltavam umas parcelas para ser cumprido do ano passado e atrasou tudo”. Conforme o dirigente do Iguatu, devido aos atrasos do pagamento, R$ 40 mil do patrocínio de 2023 não haviam sido repassados ao clube. No entanto, como explicou Antônio, o prefeito Ednaldo, desde que retornou ao cargo, repassou R$ 20 mil ao retornar à Prefeitura e a outra metade nesta sexta-feira (26). “Já falei com ele umas três ou quatro vezes por telefone, ele está nessa correria aí por conta que aqui ficou o salário dos funcionários da cidade todos atrasados”, disse.
PARTE DA HISTÓRIA
Claudízio Vieira de Paula, torcedor do Iguatu e um dos compositores do hino do clube, conversou com o OPINIÃO CE sobre a relação com o Azulão do Centro-Sul. Conforme ele, é de muito orgulho poder fazer parte da história do Iguatu. Ele explicou como se deu o processo de criação do hino. “Havia já uma primeira versão iniciada por Batista Filho, com a qual dei seguimento na composição, a pedido da Diretoria da época, com inclusão de mais uma estrofe e do refrão, além de incluir melodia e harmonia, com o apoio do Maestro Helinho Gomes. Posteriormente fiz gravação também como intérprete da versão final oficializada pelo clube. Portanto os créditos cabem não só a mim, mas também a Batista Filho e Helinho Gomes”, pontuou.
Segundo o torcedor do Azulão, o investimento da Prefeitura é essencial para o crescimento do clube. “Sabemos que, sem o apoio da Prefeitura, embora tendo um grupo fiel de empresas patrocinadoras, seria inviável a evolução do time, sobretudo nos anos iniciais. Hoje, com o crescimento do time e exposição a nível nacional, os patrocínios surgem, mas mesmo assim, o apoio da Prefeitura ainda é necessário”, completou.
Para este ano, o atual campeão da Copa Fares Lopes vai ter no seu calendário duas competições nacionais: a Série D e a Copa do Brasil. Ambos os certames serão disputados pelo clube do Centro-Sul pela segunda temporada consecutiva. Em 2023, a equipe não conseguiu passar da fase de grupos da Série D, mas chegou a segunda fase da Copa do Brasil, ao eliminar o América de Natal/RN no primeiro jogo. Na etapa seguinte, foi eliminado para o Santos/SP.
SEGUNDA DIVISÃO
O apoio das prefeituras aos clubes de suas cidades não fica restrito à primeira divisão estadual. O presidente do Maranguape Futebol Clube, Francisco Emanoel, aponta que, sem o apoio da gestão municipal, manter o clube seria “quase inviável”. Conforme o dirigente, ainda não existe uma definição de qual será o valor deste patrocínio. No entanto, ele acredita que será semelhante ao do ano passado, quando o clube foi campeão da terceira divisão cearense.
“Eu acredito que será parecido com o que foi agora na terceira divisão [no ano passado]. Em torno de R$ 70 mil parcelados em quatro meses. Isso é uma Lei votada pelos vereadores, que aprovam para a Prefeitura repassar esse valor ao clube em forma de patrocínio”, disse.
De acordo com Emanoel, sem o investimento o Maranguape não estaria conseguindo disputar as competições. Como explicou, a relação entre a equipe e a gestão do Prefeito Átila Câmara (PSB) é boa, o que facilita as tratativas referentes aos valores dos repasses.
