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Sabático

Noite de sábado, gripada, resolvi assistir um filme. Isso é raro porque minha opção normal é sair de...

Noite de sábado, gripada, resolvi assistir um filme. Isso é raro porque minha opção normal é sair de casa para relaxar. Prefiro assim porque o aquecimento global não está para brincadeira. Um ventinho é sempre bem-vindo.

Ao ligar a televisão, são milhares de opções nos streamings. A escolha é dificil, com tantos filmes disponíveis. No entanto, decidi reassistir, em vez de ver algo novo. Faço isso, de vez em quando, com livros e filmes. Espero passar alguns anos para ver o quanto a minha visão das coisas mudou. Somos sempre outros. O que chamou a atenção há dez anos, geralmente deixa de estar no foco quando o tempo passa. Essa é a impressão que tenho.

A opção foi o blockbuster Comer, Rezar e Amar, estrelado por Julia Roberts. Esse foi um dos poucos que consumi primeiro a versão livro para depois assistir o filme. Lembro bem das minhas muitas viagens de ônibus para o trabalho, em que a autora Elizabeth Gilbert foi minha companhia. Minha edição era simples, sem orelha, com a capa do filme. Eu havia comprado na revista da Avon.

Certamente devo ter dobrado várias páginas, marcado à caneta as citações. Como o filme é de 2010, devo ter comprado meu exemplar ali por 2011 ou 2012. Por essa época, nem sonhava que dali a alguns anos também ia precisar fazer essa viagem de volta para si.

Lembro que achei a personagem principal uma pessoa fútil, levada pelas emoções passageiras. Como assim jogar tudo para o alto porque não se sentia satisfeita? As convenções sociais não são assim tão fáceis de transpor, minha querida, eu falava na minha cabeça, aos quase 30 anos. Tá louca? E ainda mais o disparate de tirar um ano para redescobrir quem era e voltar a ter equilíbrio, viajando pelo mundo… Não era possível nem imaginar uma loucura daquela entre minhas amigas, colegas de trabalho e vizinhas.

Talvez tenha sido por isso que, depois de ler, passei o livro pra frente. Não lembro bem se vendi em um sebo ou se dei para alguém. O filme me passou essa mesma sensação, embora tenha sentido um pequeno comichão por dentro. Por aquela época eu já amava a Itália porque tinha assistido Sob o Sol de Toscana e Cartas para Julieta. O desejo de conhecer aquele país ainda permanece. O romantismo nunca saiu de mim, nem a vontade de provar massas e gelatos.

Passada mais de uma década desse contato, dessa vez consegui acompanhar não apenas a sua insatisfação com a vida que levava, como também a busca por equilíbrio. Nem precisei sair do Ceará para fazer essa viagem para dentro, quando chegou a minha vez. E o melhor, nem percebi também o ano sabático que tirei para mim quando minha vida mudou. Simplesmente aconteceu.

Quando o filme acabou, olhei para minha versão gripada sentada no sofá e percebi que ali estava outra mulher. Como a Liz Gilbert atestou nesse seu segundo livro – de lá para cá, já escreveu outros cinco – “A ruína é uma dádiva, é o caminho para a transformação”.

O fim do Comer, Rezar e Amar é Liz Gilbert se abrindo novamente para o amor com o brasileiro Felipe, que na vida real se chama José Nunes. Anos mais tarde, Liz se divorcia de novo e se casa com a melhor amiga. Depois da morte da esposa por câncer, Liz continua sua trajetória entregue à sua própria vida, com sua escrita, vivendo com ela mesma. Essa, na verdade, é a única companhia definitiva da gente nesta existência. E é a relação com essa pessoa que deve estar em primeiro lugar. Essa lição, eu aprendi.