Voltei de Belém com as malas mais pesadas e não foi por roupa, sapato ou lembrança turística, foi por farinha. Trouxe farinha de mandioca, farinha d’água, farinha mais torrada, mais crocante, mais grossa. Trouxe pupunha, feijão manteiguinha e outros ingredientes que fazem parte daquela cultura alimentar tão rica, mas nada chamou mais atenção das pessoas do que a quantidade de farinha que eu trouxe. E eu entendo.
Porque, para muita gente, farinha é acompanhamento. Porém, para nós, ela sempre foi muito mais do que isso. Como uma boa maranhense, criada entre sabores do Norte e do Nordeste, eu cresci entendendo a farinha como presença obrigatória na mesa. Ela alimenta, sustenta, transforma textura, acrescenta sabor e, muitas vezes, é o que completa a refeição.
No Pará, eu percebi outra coisa: a farinha ali não é coadjuvante – Ela ocupa espaço. As farinhas que experimentei tinham sabor próprio. Eram crocantes, torradas no ponto certo, mais granuladas, cheias de personalidade. Farinhas que você come pura, sem precisar virar farofa para acontecer. E talvez tenha sido isso que mais me encantou.
Existe uma valorização muito grande do ingrediente em sua forma mais original. Sem excesso de refinamento, sem descaracterizar textura, cheiro ou sabor. Tudo é mais rústico, mais intenso e mais verdadeiro. Enquanto em muitos lugares a farinha ficou fina demais, branca demais, quase sem identidade, no Pará ela continua carregando força e território, e isso diz muito sobre cultura alimentar. A mandioca, a macaxeira e tudo que nasce dela, atravessam gerações. Alimentaram famílias inteiras, sustentaram histórias, criaram memória afetiva e seguem presentes até hoje nas mesas mais simples e também nas cozinhas mais sofisticadas.
Poucos ingredientes são tão versáteis quanto ela. E talvez por isso eu tenha voltado tão mexida com essas experiências. Porque não era só sobre trazer insumos na mala, era sobre trazer lembranças de sabor. Trazer referências. Trazer pedaços de uma vivência que agora também fazem parte do meu repertório.
Confesso que, na hora de organizar a bagagem, algumas coisas se tornaram negociáveis. As farinhas não. Porque existem sabores que a gente prova e existem sabores que a gente precisa levar para casa.
