Outro dia, após aquele emocionante jogo de muitos gols entre a Inglaterra e a França na Copa, fiquei ali, pensando cá com meus botões — quando uma mulher da mesa ao lado gritou com um cara da mesa vizinha: “Por que você está olhando para mim? Eu não quero que você olhe para mim!” Na semana passada, em um sinal de trânsito, percebi haver uma discussão entre os motoristas dos dois carros à minha frente. No sinal seguinte, quando parei, um dos carros baixou o vidro e um cara olhou-me e disse: “Que mulher doida, aquela! Disse que eu estava olhando demais para ela”.
A minha querida mãe, pela idade avançada, precisa de cuidadora e, apesar do cuidado e apreço que temos por elas, muitas mulheres já passaram por lá, e com idades diferentes. Algumas vêm de outros municípios distantes. Sempre que tenho oportunidade, converso com elas. Curioso, sem ser invasivo, sempre pergunto sobre seus lugares de origem, se têm filhos, se estudam e maridos. Logo, constatei, sendo generoso, que noventa por cento delas são mães solteiras, separadas ou divorciadas, como queira.
Os motivos econômicos e sociais que as levam a fazer esse êxodo rural, permanente ou não, todos nós já sabemos. Mas o que tem mais me chamado a atenção é a resposta na ponta da língua quando faço a pergunta: “Você tem interesse em ter outro companheiro, morar junto, ter outro marido?” A grande maioria, de forma enfática, responde: “Deus me livre de homem!”, “Homem só dá trabalho” e outras ainda destacaram: “homem só quer saber de sexo”. Sem nenhum exagero, apenas algumas dizem um “sim” sem muita convicção. Aliás, não devemos nos admirar tanto das respostas.
Em sua grande maioria, são mulheres oriundas das classes C e D, que, de modo geral, são abandonadas com filhos pelos companheiros e ficam com toda carga e responsabilidade de criar e educar os filhos. Sem creches, trabalho longe de casa e, quando não conseguem, o que é perfeitamente compreensível, muitas vezes voltam à casa dos pais, etc. Contraditoriamente, essas mulheres muitas vezes casam em busca da liberdade para terem o status de mulheres casadas, ainda que sejam de menor idade. Ou seja, saem da tutela autoritária do pai para se submeterem aos desmandos, abusos e violência corporal e psicológica do companheiro. E, por falar em violência contra a mulher, os dados oficiais de feminicídio no Brasil, divulgados por órgãos públicos, revelam que “quatro mulheres são mortas por dia no Brasil”. Parece que o “Gigante Adormecido” nunca vai acordar, se civilizar.
Por outro lado, a civilização tem seu preço. Na China, por exemplo, em 1979, foi aprovada a “política do filho único”, ou seja, as famílias deveriam ter apenas um filho homem. Esse controle populacional adotado entre 1979 e 2015, com o objetivo de reduzir o rápido crescimento da população com a redução da população feminina, estimulou o descaso e ainda permitiu a escravidão de mulheres, tratadas como coisas. Pois é, a China se desenvolveu economicamente com sua tecnologia de ponta, permitindo a disponibilidade de trabalho e de recursos econômicos às mulheres que querem desfrutar da liberdade de viver sem a dependência de homem.
Por aqui, a dependência econômica não explica a violência contra a mulher. Agora, tenente-coronel da Polícia Militar é acusado de matar sua esposa, a soldado da PM. Sargento que mata a esposa, a capitã, ambos da Polícia Militar; empresário que mata a esposa; e por aí vai. Está claro que o discurso do machismo como explicação para toda essa violência contra a mulher não se sustenta mais. Por outro lado, as mulheres, de modo geral, são vulneráveis e omissas em relação à riqueza fácil que entra em casa pelos maridos: políticos, empresários, banqueiros, etc. Como se elas gostassem de ter o bom e o melhor sem querer saber a origem do dinheiro. Mas, afinal, não está na hora de o estado brasileiro querer entender profundamente os motivos complexos e profundos dessa violência contra a mulher, incentivando, financiando pesquisas científicas sérias realizadas por historiadores, sociólogos e antropólogos? E a participação da mulher na política? Se as mulheres não quiserem ter mais filhos, não tem problema: cria-se cachorro. Depois a ciência resolve. Pois é, a civilização e a liberdade têm preço.
