Eu devia ter por volta de 10 anos quando informei ao meu irmão que ele era adotado. Com toda a soberba típica de uma irmã mais velha, eu lhe explicava: Eu sou linda como a mamãe e sou inteligente como o papai. Você não é nenhum dos dois, logo você é adotado. Orgulhosa da minha inquestionável lógica, eu olhava para os nossos primos que riam — a plateia cativa das nossas tretas fraternas durante as férias. Estávamos todos em cima da Pampa vermelha do meu pai que, na falta de uma casa da árvore, nos servia como uma espécie de clubinho de onde planejávamos as mais variadas estratégias para aterrorizar a vizinhança. Incluindo, mas não limitado ao uso de bombinhas de festa junina em lugares inusitados.
Pois bem. Com toda a deduragem típica de um irmão mais novo, Francisco correu para contar tudo à mamãe. E ela, em toda sua sabedoria materna estilo anos 90, foi rápida em sua resposta: Fale para sua irmã que adotada é ela! Não tem ninguém nessa família de quem ela possa ter herdado tamanha maldade. Será? Eu fiquei cismada.
É preciso aqui deixar claro que não existe nada de errado em ser adotado. Crianças adotadas não são mais maldosas ou menos amadas. Além da mente imatura de uma criança de 10 anos, esse tipo de pensamento reflete um tipo de preconceito prevalente três décadas atrás. Mas compartilho esse pequeno incidente, porque ele retrata bem o agente propulsor da relação fraterna: pertencimento. Quase todas as tretas entre irmãos, bem lá no fundo, são sobre proteger o espaço na dinâmica familiar e com a gente não era diferente.
Nossos irmãos, muito mais do que qualquer outra pessoa, exercem influência sobre quem nos tornamos. Muitas vezes, escolhemos ser e fazer exatamente o oposto só para estabelecer nossa individualidade. E outras vezes, o que nossas decisões refletem é, na verdade, uma falta de escolha — o oposto é o que nos resta.
Eu, na condição de irmã mais velha, escolhi partir. Ao meu irmão, restou ficar. E foi só recentemente, mais de 20 anos depois, que parei para refletir sobre isso.
Quando fui embora, meu irmão tinha 16 anos. Hoje me questiono: será que tirei dele a chance de ir? Será que ele ficou por ser o único filho com quem nossos pais poderiam contar? Os ses da vida carregam uma montanha de possibilidade na qual pode ser doloroso se demorar. Então, eu fico com a certeza: meu irmão ficou, me dando assim a liberdade que eu tanto almejava. E, por isso, eu sou grata.
A convenção social prescreve que ter irmãos é a garantia de não estar sozinho, de ter alguém com quem contar. É um frágil sistema de trocas: aturamos anos de tretas para sermos recompensados com o tipo de parceria que só existe entre quem compartilha uma infância inteira de traumas. Com sorte, o ápice dessa parceria seria atravessar juntos a velhice dos pais, quando o papel de cuidadores se inverte.
A realidade, porém, muitas vezes difere do que é esperado. Não só porque laços sanguíneos não são garantia de afeição e amizade, como também porque distâncias geográficas são impostas. E é aí, bem aqui, que sinto que meu irmão foi injustiçado: aturou os anos todos de tretas, mas não teve a recompensa de uma irmã presente.
Existe, no entanto, uma característica muito particular das relações que são forjadas durante anos de proximidade: elas comportam distâncias, e não só as físicas. Eu e meu irmão nos reaproximamos muito durante os últimos dois anos. E essa reaproximação foi como encaixar peças do quebra-cabeça da minha identidade. Muito de quem sou passa por ele e conversar com ele sempre me deixa com a sensação de que aprendi um pouco mais sobre mim. Não só isso, mas olhar para o homem incrível que ele se tornou fortalece a minha convicção de que a criação dos meus pais deu muito certo. É como olhar para um espelho onde enxergo as melhores partes de mim.
Há duas semanas, tive a alegria de ver meu irmão casar com o amor da vida dele, alguém verdadeiramente especial a quem devemos a nossa reaproximação. Comecei a escrever essa crônica como um discurso que eu gostaria de ter feito durante sua festa de casamento, mas decidi não discursar. Após uma vida inteira dividindo as atenções comigo, eu queria que, naquele dia tão especial, ele não precisasse fazer isso. Aliás, enquanto todos os olhares se voltavam para a noiva durante sua entrada, meu olhar estava fixo nele, em seu sorriso, sua emoção, seu choro não contido apesar da tentativa. Ali não estava o homem de 37 anos, estava o menino que amava o Chaves e que me deu o apelido que, até hoje, eu uso como meu endereço de e-mail. Com todo o amor típico de uma irmã mais velha, meu olhar estava nele.
