Uma bolsa de sangue coletada no Ceará cruzou o país em um voo comercial para atender a um paciente transplantado em Juiz de Fora, em Minas Gerais. Na quinta-feira (8), o Centro de Hematologia e Hemoterapia do Ceará (Hemoce), equipamento da Secretaria da Saúde do Estado (Sesa), mobilizou um doador cadastrado para viabilizar a transfusão de um tipo sanguíneo extremamente raro. Apenas seis pessoas estavam identificadas no Cadastro Nacional de Sangue Raro (CNSR) como possíveis doadoras compatíveis com o paciente.
Para agilizar o atendimento, a bolsa foi transportada na cabine da aeronave, sob os cuidados do piloto. A operação evidencia a importância da integração entre os hemocentros brasileiros para localizar doadores com características sanguíneas incomuns e atender pacientes que não podem receber sangue da maioria das pessoas.
Anticorpo dificulta localização de sangue compatível
O paciente mineiro havia passado por um transplante de rim e precisava de transfusão após a identificação de um anticorpo contra o antígeno Jsb, presente nas hemácias da maioria das pessoas. Como não possui esse marcador, ele precisa receber sangue de doadores que também não o apresentem.
Diante da dificuldade para encontrar uma bolsa compatível, a rede de hemoterapia acionou o Cadastro Nacional de Sangue Raro, que permitiu localizar um possível doador no Ceará. Após receber a solicitação, o Hemoce mobilizou a equipe para confirmar a compatibilidade, realizar os exames necessários e viabilizar a coleta.
Para a superintendente do Hemoce, Luany Mesquita, o atendimento demonstra a importância de manter uma estrutura especializada e fortalecer a integração entre os serviços de hemoterapia.
“O atendimento a pacientes que necessitam de sangue raro exige uma estrutura especializada, com identificação de doadores, testes rigorosos de compatibilidade e capacidade de mobilização. Por isso, é crucial manter um cadastro ativo e fortalecer a integração entre os hemocentros, pois uma necessidade transfusional pode surgir em qualquer lugar do país e precisamos estar preparados para responder com segurança e agilidade”, destaca.
Hemoce tem mais de 700 doadores de sangue raro
O Hemoce possui mais de 700 doadores identificados com fenótipos sanguíneos raros, distribuídos em diferentes regiões do Ceará. O trabalho envolve a identificação de características incomuns nas hemácias e a manutenção de um cadastro que permite localizar pessoas compatíveis quando surge uma necessidade transfusional específica.
A identificação pode ocorrer por meio de análises sorológicas ou de técnicas avançadas, como a genotipagem, que analisa o DNA para reconhecer características que não são detectadas por exames convencionais.

Também é possível identificar fenótipos raros em pacientes que desenvolvem anticorpos específicos após transfusões ou gestações. Nesses casos, a investigação laboratorial pode revelar a ausência de determinados antígenos nas hemácias.
Segundo a diretora técnica de Hemoterapia do Hemoce, Denise Brunetta, diferentes estratégias laboratoriais contribuem para ampliar o cadastro e localizar doadores aptos a atender necessidades específicas.
“Buscamos ativamente doadores com características incomuns nos glóbulos vermelhos, seja por triagem realizada na rotina de avaliação do sangue do doador, seja por genotipagem, que identifica variantes não detectáveis por exames convencionais. Além disso, alguns doadores são identificados quando desenvolvem anticorpos específicos após transfusão ou gestação, o que revela a ausência de determinados antígenos em seu sangue”, explica.
Hemocentro cearense integra registro internacional
Em 2025, o Hemoce tornou-se o primeiro hemocentro do Brasil a integrar o Registro Internacional de Sangue Raro, sediado em Bristol, na Inglaterra, e gerenciado pela Sociedade Internacional de Transfusão de Sangue (ISBT). A participação amplia as possibilidades de cooperação com serviços de outros países para localizar bolsas compatíveis e compartilhar informações sobre fenótipos raros. O reconhecimento também está relacionado ao trabalho de identificação e caracterização de características sanguíneas incomuns realizado pelo hemocentro cearense.
O que é sangue raro?
O conceito vai além dos tipos sanguíneos mais conhecidos, como A, B, AB e O, e dos fatores Rh positivo e negativo. As hemácias possuem centenas de antígenos em sua superfície, e um sangue pode ser considerado raro quando não apresenta um antígeno comum na população, quando há ausência simultânea de vários antígenos ou quando ocorre uma combinação incomum dessas características.
Para pacientes que desenvolveram anticorpos contra determinados antígenos, encontrar uma bolsa compatível é fundamental para reduzir o risco de reações transfusionais. Por isso, a identificação e o cadastramento de doadores raros são essenciais para que os hemocentros respondam a essas demandas com segurança e agilidade.
