Um estudo da Universidade Federal do Ceará (UFC) identificou uma relação entre a ocupação urbana de Fortaleza e a quantidade de microplásticos transportada pelas águas das chuvas até a região costeira. Segundo a pesquisa, quanto maior a densidade populacional ou a proporção de áreas de uso residencial, maior é a quantidade de microplásticos encontrada no escoamento das águas pluviais.
O trabalho foi desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente (Prodema) e é apontado pela UFC como o primeiro estudo da América do Sul com esse foco de análise. A pesquisa foi realizada pela cientista ambiental Victória Maria Carneiro dos Santos, sob orientação do professor Michael Barbosa Viana e coorientação do professor Tommaso Giarrizzo.
As coletas ocorreram entre janeiro e abril de 2025, durante o período chuvoso, em bacias de drenagem de quatro áreas de Fortaleza: Meireles, Praia do Futuro I, Barra do Ceará e Cais do Porto. As análises e o tratamento dos dados foram concluídos em 2026.
Microfibras são maioria
As microfibras de tecidos aparecem entre os principais tipos de microplásticos transportados pelas águas pluviais até a orla de Fortaleza. No levantamento, elas representaram entre 34,7% e 57,9% das partículas encontradas. Na Praia do Futuro, a proporção chegou a quase 58%. Os materiais relacionados a tecidos também predominaram no trecho residencial da Barra do Ceará e nas regiões do Cais do Porto.
A pesquisa também identificou entre os polímeros mais frequentes o polietileno, o polipropileno e o tereftalato de polietileno (PET). Esses materiais são utilizados em produtos presentes no cotidiano, como sacolas, frascos, embalagens de alimentos, potes, fios e tecidos para roupas, além de materiais hospitalares e automotivos. Os microplásticos são partículas plásticas com dimensões inferiores a cinco milímetros. No ambiente urbano, podem ser transportados pela água da chuva por meio dos sistemas de drenagem até rios, praias e outros ambientes costeiros.
Como foi feita a pesquisa
Para realizar o levantamento, os pesquisadores coletaram amostras de água nas áreas de desembocadura das galerias pluviais dos quatro pontos selecionados de Fortaleza. As coletas foram feitas em dias de chuva, após 30 minutos do início da precipitação. O material foi armazenado em garrafas de alumínio e posteriormente levado ao laboratório, onde foram analisadas a concentração e as características das partículas.
A escolha das áreas levou em consideração características de ocupação urbana, uso do solo e a conexão das respectivas bacias de drenagem com o ambiente de praia. Os pesquisadores classificaram os microplásticos de acordo com características como formato, cor, tamanho e tipo de polímero. Essas informações permitem identificar padrões associados às possíveis fontes das partículas.
O estudo aponta que a presença predominante de microfibras também pode estar relacionada à presença de ligações clandestinas de esgoto no sistema de drenagem urbana de Fortaleza.
Pesquisa amplia dados sobre poluição por microplásticos
A pesquisa busca preencher uma lacuna na produção científica sobre a relação entre características dos ambientes urbanos e o transporte de microplásticos para o mar, especialmente em países do Sul Global. O artigo científico decorrente do estudo foi publicado em 2026 na revista Water, Air, & Soil Pollution e analisou a influência da densidade populacional e do uso do solo na ocorrência de microplásticos no escoamento pluvial da zona costeira de Fortaleza.
Os resultados reforçam a necessidade de avaliar as diferentes fontes e caminhos pelos quais os microplásticos são transportados no ambiente urbano até alcançar a região costeira.
