No Ceará, 31% das mulheres viveram situações de violência doméstica sem declará-las como violência nos últimos 12 meses. Os dados são do Mapa Nacional da Violência de Gênero. Cerca de três em cada dez entrevistadas citam ao menos uma das situações concretas de violência investigadas, embora não tenham declarado espontaneamente ter sofrido violência doméstica ou familiar.
Em relação à média nacional, o resultado cearense oscila dentro da margem de erro da estimativa do País, que é de 29%. A diferença de dois pontos percentuais não permite classificá-lo como distinto do patamar nacional.
O Mapa Nacional da Violência de Gênero é uma plataforma mantida pelo Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), o Instituto Natura e a Gênero e Número. A análise, que evidencia a distância entre a violência vivenciada pelas mulheres e aquela que chega aos registros oficiais, foi possível pelo cruzamento de dados.
Os resultados da plataforma foram atualizados com os resultados por Unidade da Federação (UF) da 11ª edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo DataSenado em 2025. A pesquisa da Casa legislativa ouviu 21.641 mulheres de 16 anos ou mais em todo o Brasil entre 16 de maio e 8 de julho de 2025.
De acordo com Maria Teresa Prado, coordenadora do Observatório da Mulher contra a Violência do Senado, os dados mostram que é preciso olhar também para o que acontece antes de a mulher chegar à Rede de Proteção.
“Uma política pública só consegue proteger plenamente quando as mulheres têm informação para reconhecer a violência, conhecem seus direitos e encontram caminhos acessíveis e seguros para buscar ajuda”, afirmou.
DataSenado: 27% das cearenses sofreram violência doméstica ou familiar
O levantamento realizado pelo DataSenado revela que 27% das cearenses já sofreram violência doméstica ou familiar provocada por um homem ao longo da vida e 16% afirmam ter passado por esse tipo de violência nos 12 meses anteriores à pesquisa.
Entre as mulheres que declararam ter sofrido violência provocada por um homem, 85% relataram violência psicológica, 83% violência física e 79% violência moral. Em 60% dos casos, o agressor era o marido ou companheiro da vítima no momento da agressão. Do total de vítimas no estado, 17% ainda convivem com a pessoa que as agrediu e, destas, 75% moram com o agressor.
Nas situações de violência mais grave, 49% das entrevistadas afirmaram que o agressor estava com ciúmes, 48% disseram que ele estava inconformado com o término ou tentativa de término do relacionamento e 45% relataram que ele estava bêbado.
Já para 79% das mulheres que encerraram o relacionamento com o agressor, a violência teve muita influência na decisão. O impacto no convívio com outras pessoas foi sentido por 68% das vítimas, enquanto 67% disseram que sua rotina diária foi afetada, 41% relataram impactos na vida profissional ou trabalho remunerado e 39% disseram que seus estudos foram impactados.
Segundo Vitória Régia da Silva, diretora executiva da Gênero e Número, os dados ajudam a romper com uma leitura da violência doméstica como um episódio isolado. Conforme ela, “a violência não termina quando a agressão acaba”.
“Ela reorganiza a rotina, afeta relações, trabalho, renda e as possibilidades que uma mulher tem de tomar decisões sobre a própria vida. Quando olhamos para esses dados em conjunto, conseguimos entender que enfrentar a violência de gênero exige mais do que responder à agressão: exige políticas capazes de olhar para as condições que permitem que essas mulheres reconstruam suas vidas”, afirmou.
