O tempo muda a forma como as famílias se relacionam. Em algum momento da vida, muitos filhos passam a ocupar um papel que, até então, sempre pertenceu aos pais: o de cuidar. A rotina muda, as responsabilidades aumentam e a relação ganha novos significados. Neste Dia dos Pais, o Opinião CE conta a história de Maurício Silva, que vive diariamente essa inversão de papéis ao cuidar do pai e da mãe, enquanto também exerce a paternidade ao lado da esposa, Luiza, e da filha, Heloísa.
Dentro de casa, Maurício divide os dias entre o trabalho, a família que construiu e a atenção dedicada aos pais, já idosos. O cuidado faz parte da rotina e vai desde a higiene pessoal até a alimentação, mas envolve, sobretudo, presença. É uma história que revela como o amor familiar atravessa gerações e transforma o significado de ser pai e ser filho.
“É uma honra cuidar do meu pai. Já idoso, bastante debilitado pela idade, sei que jamais terei como retribuir as lutas e as dificuldades pelas quais ele passou para me educar e cuidar enquanto criança. Mas sinto-me honrado pela oportunidade que Deus está me concedendo de cuidar dele nessa fase tão peculiar da vida”, afirma.
A inversão dos papéis
Com mais de 90 anos, o pai de Maurício exige cuidados permanentes. Aos poucos, o filho percebeu que passou a exercer um papel semelhante ao que recebeu durante a infância. “Os cuidados que um idoso de mais de 90 anos requer são semelhantes aos de um bebê. Então, de fato, é como se meu pai fosse um filho que requer especial carinho, cuidado e redobrada atenção”, relata.
Na prática, essa rotina inclui tarefas simples, mas carregadas de significado. “De maneira geral, são os cuidados com higiene e saúde. Eu banho, faço a troca de roupas, preparo lanches”, resume.
Há um momento do dia que sintetiza essa relação. “Quando eu chego do trabalho, à noite, ele me recebe com um sorriso no rosto e me dá a bênção. Então, eu vou banhá-lo, trocar-lhe as roupas e servir um lanche. Faço isso todos os dias.“
Um novo olhar sobre o pai
Assumir o papel de cuidador também fez Maurício revisitar a própria história. Ele conta que, durante a infância, o pai dedicava grande parte do tempo ao trabalho, o que limitava a convivência entre os dois. Hoje, a proximidade construída na velhice tem proporcionado momentos que ele jamais imaginou viver.
“Sem dúvidas. Em razão da rotina de trabalho, meu pai, quando mais jovem, pouco tinha tempo para me dedicar atenção. Agora, já idoso, eu tenho a honra de cuidar do meu velho pai e escutar dele algo que eu pouco ouvi na minha infância e adolescência: ‘Meu filho, eu te amo’.”
A experiência mudou sua percepção sobre a paternidade, a família e o próprio tempo.
Entre duas gerações
Conciliar os cuidados com os pais, a esposa e a filha exige organização e apoio familiar. Maurício afirma que nunca enxergou essa responsabilidade como um peso, mas reconhece que a rotina exige equilíbrio. “Particularmente, nunca senti medo, cansaço ou dificuldade de lidar com a responsabilidade, haja vista ser algo que sempre coloquei no meu coração: cuidar de meus pais na velhice, chegado o tempo. Contudo, existem as dificuldades de convivência quanto à atenção que tenho que dividir entre pai, mãe, esposa e filha pequena.”
Ele destaca que a família tem sido essencial nesse processo. “Minha prioridade é minha família, esposa e filha. São elas, aliás, que me ajudam muito na lida diária e, graças a Deus, é assim que temos dado conta do devido cuidado que tenho com os meus pais.” Enquanto cuida da geração que veio antes, Maurício também acompanha o crescimento da filha. Vive, ao mesmo tempo, a experiência de ser filho, pai e cuidador.
O legado que permanece
Mesmo diante da fragilidade provocada pela idade, Maurício afirma que o pai continua lhe ensinando diariamente. “Meu pai, ainda hoje, tem a minha mãe como prioridade na vida dele. Ele se preocupa muito com o bem-estar dela. Ele sempre me ensinou que a família é a prioridade de um homem. Então, ele fica feliz que eu tenha aprendido isso, justamente com ele.”
