Uma pesquisa da Universidade Federal do Ceará (UFC) revelou que a poluição causada pelo lançamento de esgoto no mar de Fortaleza pode atingir a população por uma via pouco perceptível: o ar. O estudo identificou bactérias de origem intestinal humana tanto na superfície do oceano quanto em bioaerossóis – partículas microscópicas lançadas na atmosfera pela ação das ondas e pelo rompimento de bolhas na água.
A descoberta amplia a compreensão sobre os impactos da contaminação por esgoto em áreas urbanas litorâneas e acende um alerta para os riscos associados à qualidade ambiental da orla da Capital. Os pesquisadores realizaram coletas em pontos próximos à foz do Riacho Maceió, no bairro Mucuripe, durante os períodos seco e chuvoso. As análises apontaram a presença recorrente de enterobactérias, microrganismos encontrados no intestino humano e frequentemente associados à contaminação por material fecal.
Segundo o levantamento, mais de 70% das bactérias identificadas estavam presentes tanto na água quanto nos aerossóis marinhos, indicando uma relação direta entre a poluição das águas costeiras e a qualidade do ar na região.
Ao todo, foram identificados 29 grupos bacterianos, incluindo espécies associadas a infecções gastrointestinais, urinárias e respiratórias.
Esgoto sem tratamento preocupa pesquisadores
De acordo com a professora Oscarina Viana de Sousa, do Instituto de Ciências do Mar (Labomar) da UFC, os resultados apontam para uma fonte contínua de contaminação ambiental. “Isso indica que existe um descarte contínuo de esgoto não tratado e a presença de um grande número de microrganismos com potencial patogênico”, afirma a pesquisadora.
Embora o estudo não tenha investigado diretamente casos de doenças, os pesquisadores alertam para a presença de bactérias, fungos, protozoários e vírus que podem representar riscos à saúde humana.
Clima influencia dispersão dos microrganismos
A pesquisa também identificou que as condições climáticas exercem influência sobre a circulação desses organismos. Durante o período chuvoso, a quantidade de bactérias aumenta na superfície do mar em razão do maior carreamento de esgoto e matéria orgânica para as águas costeiras. Já na estação seca, ventos mais intensos e menor umidade favorecem a suspensão e a dispersão dos bioaerossóis, que podem percorrer longas distâncias pela atmosfera.
Os resultados integram o artigo científico “Microbial ocean-atmosphere transfer: The influence of sewage discharge into coastal waters on bioaerosols from an urban beach in the subtropical Atlantic”, publicado no periódico internacional Marine Environmental Research.
Fiscalização e saneamento
Para os pesquisadores, os resultados reforçam a necessidade de ampliar a coleta e o tratamento de esgoto, além de intensificar a fiscalização para combater ligações clandestinas que contribuem para a contaminação das águas costeiras. O estudo também destaca a importância de políticas públicas voltadas ao saneamento básico como estratégia fundamental para reduzir riscos ambientais e proteger a saúde da população.
Histórico de irregularidades
Os resultados da pesquisa reforçam alertas já feitos por órgãos públicos sobre problemas relacionados ao descarte irregular de esgoto em Fortaleza. Em 2023, por exemplo, a Prefeitura de Fortaleza chegou a divulgar um relatório técnico elaborado pela Secretaria Municipal do Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma) que identificou pelo menos 26 ligações indevidas da rede da Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) ao sistema de drenagem pluvial.
Segundo o documento, as ocorrências foram registradas nas regiões da Praia de Iracema, Poço da Draga e do Riacho Maceió, no bairro Papicu. Durante o levantamento, equipes técnicas percorreram cerca de 146 quilômetros de galerias pluviais para mapear possíveis irregularidades.
Com base nas informações coletadas, a Prefeitura notificou os responsáveis pelas supostas infrações, aplicou multas e estabeleceu prazos para a realização das correções necessárias. O objetivo foi reduzir o lançamento inadequado de esgoto na rede de drenagem e minimizar impactos ambientais nas áreas costeiras da Capital.
A fiscalização, conforme a Cagece, vem sendo ampliada. Entre 2021 e 2025, conforme a Companhia, cerca de 30 mil imóveis que utilizavam a rede de abastecimento de maneira irregular foram identificados e regularizados em todo o Ceará, resultado que também permitiu recuperar 16.016.100 m³ de água desviada ilegalmente.
Somente em 2025, em parceria com a Ambiental Ceará, a empresa realizou aproximadamente 500 mil vistorias em todo o Estado, detectando irregularidades em cerca de 11% dos locais visitados. Atualmente, calcula-se que o volume de água perdido em decorrência do uso indevido alcance 55.095.000 m³ por ano, o que representa, em média, 13% de toda a água disponibilizada para comercialização pela companhia.
