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Entidades médicas pedem ampliação da faixa etária para mamografia de rastreio estabelecida pela ANS

O parecer defende o exame preventivo para todas as mulheres entre 40 e 74 anos, o que demandaria tratamentos que impactariam menos a qualidade de vida da paciente, e teriam menos risco de recidivas, metástases e mortalidade
No entanto, segundo o diretor-geral do Inca, Roberto Gil, a inclusão de mais pacientes pode dificultar o acesso das mulheres já cobertas pelo protocolo. Foto: José Cruz/Agência Brasil

Entidades médicas apresentaram à Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) um parecer que defende a mamografia de rastreio para todas as mulheres entre 40 e 74 anos. O documento busca mudar os critérios usados pela ANS para certificar planos de saúde em seu novo programa de valorização de boas práticas no tratamento do câncer.

Em dezembro do ano passado, a Agência lançou uma consulta pública para receber contribuições sobre o programa, e divulgou a cartilha preliminar com orientações e critérios para os planos de saúde que desejarem obter a certificação, sendo alvo de protestos.

Um dos principais deles é a realização de rastreamento organizado, ou seja, a convocação das usuárias para realizarem exames regularmente, mesmo sem sintomas.

No caso do câncer de mama, a cartilha seguiu o protocolo do Ministério da Saúde e do Instituto Nacional do Câncer (Inca): mamografias a cada dois anos para as mulheres com idades entre 50 e 69 anos. No entanto, para as entidades médicas, essa faixa etária exclui uma parcela importante da população. Após os protestos, a ANS concedeu um prazo de um mês para que as organizações apresentassem um parecer com evidências científicas para ampliação da faixa etária do grupo, o que foi feito na última semana. 

EVIDÊNCIAS

Conforme o parecer elaborado em conjunto pelo Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem, Sociedade Brasileira de Mastologia e Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, em 2024, 22% das mulheres que morreram por câncer de mama no Brasil tinham menos de 50 anos, e 34% tinham mais de 70. Os estudos reunidos no documento também apontam que houve crescimento de casos de câncer em mulheres mais jovens, e que esses tumores geralmente são mais agressivos e tem mais risco de metástase.

Para as entidades médicas, a mamografia deve incluir essas pessoas, uma vez que o diagnóstico de câncer em pessoas assintomáticas, a partir de exames de imagem, demanda tratamentos que impactam menos a qualidade de vida da paciente, e tem menos risco de recidivas, metástases e mortalidade.

“No grupo do rastreamento, o tumor é detectado no estágio inicial e apresenta características biológicas menos agressivas, permitindo maior número de cirurgias conservadoras da mama. Essas pacientes também possuem menos indicação de quimioterapia, consequentemente com menores efeitos colaterais do tratamento”, destaca o documento.

Além disso, conforme as entidades, o diagnóstico precoce também é custo-efetivo e se associa a benefícios econômicos, já que reduz os custos do tratamento, ao evitar terapias caras para cânceres em estágios mais avançados.

RISCOS

Para o diretor-geral do Inca, Roberto Gil, não há discussão sobre os benefícios do diagnóstico precoce, mas sim sobre a efetividade de aumentar a idade dos exames de rastreamento, que devem ser feitos por todas as mulheres, quando não há sintomas ou suspeita.

“Nossa questão não está baseada na incidência da doença abaixo dos 50 anos, mas nas fortes evidências de que o rastreamento abaixo de 50 anos não tem sensibilidade, aumentando o risco de sobrediagnóstico e de maior número de intervenções, sobrecarregando todo o sistema de Saúde”, afirmou o gestor.

Segundo o especialista, os dados científicos que existem hoje não é da opinião de um especialista, é da literatura médica, avaliada com o nível de evidência 1, meta-análise e estudo randomizado, que é o maior nível de evidência que se tem. Ainda de acordo com ele, a maioria dos trabalhos não conseguiu mostrar nenhum aumento de sobrevida na faixa dos 40 aos 50 anos, só houve aumento de sobrevida na faixa de 50 a 69 anos. O que, para ele, se explica pela maior densidade da mama de mulheres mais jovens, o que aumenta as chances de um resultado falso positivo, que precisará ser descartado por exames adicionais, ou até por cirurgias desnecessárias.

DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO

Ainda segundo Roberto Gil, a inclusão de mais pacientes pode dificultar o acesso das mulheres que já estão cobertas pelo protocolo. De acordo com a última Pesquisa Nacional de Saúde, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2019, menos de 60% das mulheres de 50 a 69 anos tinham feito mamografia há menos de dois anos da data da entrevista.

Porém, as sociedades médicas temem que, se o protocolo do Inca for mantido como critério pelo programa de acreditação da ANS, os planos de saúde passem a negar exames de rotina em pacientes fora da faixa etária, ainda que eles estejam cobertos pelo rol obrigatório. O parecer ressalta que o cenário do rastreamento é melhor na rede privada, onde “53% dos tumores são detectados pela mamografia, em pacientes assintomáticas, e 40,6% são diagnosticados no estágio I (menos agressivo)”, assim, não há risco de prejuízo para as usuárias que já têm indicação, caso mais mulheres sejam incluídas.

A ANS informou ainda que recebeu o documento no dia 26 de fevereiro, e a proposta do Manual de Certificação de Boas Práticas em Atenção Oncológica passa pela análise das mais de 60 mil contribuições recebidas durante a Consulta Pública 144, sem previsão de conclusão. O órgão pontuou ainda que as análises vão embasar a proposta final de Certificação Oncológica, que será objeto de nova audiência pública.