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Diana Azevedo alerta para riscos de cortes nas universidades e cobra debate sobre futuro

Vice-reitora da UFC analisa os desafios da educação pública em um segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro e afirma que o debate político tem sido dominado por paixões e convicções
Debate sobre o futuro da educação brasileira envolve financiamento da ciência, formação profissional e autonomia universitária. Foto: Caterine Rocha/Opinião CE

O futuro das universidades públicas, da ciência e da autonomia universitária está entre os temas em discussão diante de um eventual segundo turno presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Em entrevista ao Opinião CE, Diana Azevedo, engenheira química, pesquisadora e vice-reitora da Universidade Federal do Ceará (UFC), avalia os desafios da educação brasileira e alerta para os riscos de um país que não investe no desenvolvimento científico e tecnológico.

Para a pesquisadora, o debate político tem sido marcado mais por paixões e convicções pessoais do que pela discussão de propostas e dos caminhos necessários para o futuro da educação.

“O que a gente tem visto é que o debate, se é que a gente pode chamar disso, está muito mais dominado pelas paixões e pelas certezas e valores de cada um, do que propriamente naquilo que está posto sobre a mesa”, afirma.

Na avaliação de Diana, esse cenário dificulta uma discussão consistente sobre a educação pública em um país que ainda busca universalizar o acesso ao ensino e à saúde. “Esse apaixonamento do debate, acho que tem impedido que a gente, de fato, discuta seriamente o futuro da educação”, diz.

A entrevista está disponível no canal do YouTube do Opinião CE e faz parte da série Opinião CE nas Eleições 2026, que discute, a partir de entrevistas com especialistas, o que está em jogo na decisão que os brasileiros tomarão no próximo domingo (25), no segundo turno para a Presidência.

Universalização da educação e o papel dos serviços públicos

Diana destaca que o Brasil ainda enfrenta o desafio de ampliar o acesso à educação para toda a população. Para ela, a discussão sobre políticas públicas precisa considerar a importância de serviços capazes de atender a sociedade de forma abrangente, independentemente das condições individuais de acesso. Ao fazer uma comparação com a saúde, a vice-reitora cita a pandemia de Covid-19 para ilustrar a relevância de uma estrutura pública articulada em todo o território nacional.

“Às vezes, as pessoas dizem, ainda no âmbito da saúde: ‘não preciso do SUS, porque eu tenho plano de saúde’. Aí, quando a gente tem uma pandemia como a Covid-19, quem é que está articulado no território todo para oferecer a proteção, as vacinas, os desenvolvimentos que a gente precisa?”, questiona.

A reflexão também se relaciona ao papel das universidades públicas na formação de profissionais, na produção de conhecimento e no desenvolvimento de soluções para problemas que afetam a população.

Falta de investimento em ciência pode ampliar desigualdades

Ao abordar os riscos de não investir em ciência e tecnologia, Diana afirma que o Brasil pode voltar a enfrentar problemas históricos relacionados à concentração populacional nas regiões metropolitanas e à falta de oportunidades de desenvolvimento no interior. A pesquisadora destaca especialmente a realidade do semiárido nordestino, onde a escassez de atividades econômicas capazes de fixar a população contribuiu, historicamente, para deslocamentos em direção aos centros urbanos.

“O primeiro grande risco [de não investir em ciência e tecnologia] é uma situação que vivemos por muito tempo no País. Então, o adensamento das regiões metropolitanas, porque o interior do país não desenvolvia atividades que permitissem fixar sua população, principalmente aqui na nossa região semiárida”, afirma.

Segundo ela, a limitação de oportunidades no interior esteve associada à dependência da agricultura de subsistência e do emprego público. Nas cidades, o crescimento populacional sem infraestrutura suficiente também trouxe consequências sociais. Diana cita a ocupação de áreas sem acesso adequado a saneamento básico e serviços de saúde como parte dos problemas relacionados a esse processo. A vice-reitora ressalta, ainda, que o desenvolvimento científico contribuiu para amenizar os efeitos das secas periódicas, demonstrando como a produção de conhecimento pode responder a desafios históricos do Nordeste.

Vice-reitora da UFC analisa os desafios da educação pública e os riscos da falta de investimento em ciência e tecnologia. Foto: Caterine Rocha/Opinião CE

Brasil corre risco de continuar dependente de commodities

Na avaliação de Diana, a falta de investimento em ciência e tecnologia também ameaça a capacidade do Brasil de transformar sua riqueza natural em desenvolvimento econômico de maior valor agregado. Ela afirma que o país dispõe de recursos abundantes em áreas como agronegócio, mineração e geração de energia solar e eólica, mas alerta para o risco de depender de tecnologias desenvolvidas por outros países para explorar essas potencialidades.

“Se a gente olha para o país como um todo, o grande risco que a gente corre é um risco também que já experimentamos desde o descobrimento do Brasil, de sermos um fornecedor de commodities”, diz.

Para a pesquisadora, a abundância de recursos naturais, por si só, não garante a geração de riqueza. O domínio tecnológico é um fator decisivo para ampliar a capacidade nacional de aproveitar esses recursos. “O país é rico, né? Então, tanto no agronegócio, como recursos minerais, como agora sol, vento, nós temos uma abundância de recursos que não geram riqueza em si, mas que podem ser explorados por outros detentores da tecnologia que usa aquele recurso”, afirma.

A análise coloca a ciência, a tecnologia e as universidades públicas no centro da discussão sobre o modelo de desenvolvimento brasileiro, em um cenário de disputa política nacional e de decisões que podem influenciar os rumos da educação e da pesquisa no País.