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Brasil tem período pré-eleitoral mais violento da década; casos se concentram nos municípios

Um caso de violência política foi registrado a cada 44 horas no Brasil entre outubro de 2024 e agosto de 2026. O período é considerado o mais violento da série histórica de uma década
Violência política no período pré-eleitoral foi a maior da década. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Um total de 354 episódios de violência política foi registrado no Brasil entre 28 de outubro de 2024 e 15 de agosto de 2026, segundo levantamento divulgado nesta quarta-feira (30) pelas organizações Terra de Direitos e Justiça Global. A média equivale a um caso a cada 44 horas e, segundo as entidades, representa o período pré-eleitoral mais violento dos últimos 10 anos.

A pesquisa está na quarta edição e acompanha casos de violência política no País desde 2016. Os dados referentes ao primeiro turno das eleições de 2026, entre 16 de agosto e 4 de outubro, serão divulgados posteriormente. Do total registrado, 96,3% dos episódios tiveram como vítimas pessoas que ocupavam mandatos eletivos ou cargos públicos. A política municipal concentrou 63% dos casos, com vereadores e prefeitos entre os principais alvos.

Mulheres representam metade das vítimas

As mulheres foram vítimas em 50,6% dos episódios, apesar de ocuparem cerca de 18% das cadeiras legislativas do País, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A violência também apresenta diferenças de acordo com o tipo de ocorrência. Nos casos de violência física, que incluem agressões, atentados e assassinatos, 77,2% das vítimas eram homens. Já as mulheres representaram 58,3% das vítimas de violência simbólica, que reúne ameaças e ofensas.

O levantamento identificou ainda 31 ameaças de violência sexual e 67 episódios com conteúdo de conotação sexual ou comentários sobre corpo e aparência. Em todos esses casos, as vítimas eram mulheres. Para Gisele Barbieri, coordenadora de incidência política da Terra de Direitos, o cenário representa uma ameaça à participação das mulheres nos espaços de poder.

“Principalmente no que se refere aos casos contra mulheres, cisgêneras, transexuais e travestis que foram metade das vítimas dos episódios de violência política”, afirma.

Segundo a pesquisadora, a violência contra mulheres na política é sistêmica e dificulta o acesso delas aos espaços de poder e decisão.

A vereadora de Fortaleza Adriana Gerônimo (Psol) está entre as mulheres pretas vítimas de violência política citadas no levantamento nacional. Foto: Reprodução/CMFor

Violência racial

A pesquisa identificou ainda quatro ameaças atribuídas a grupos ou perfis declaradamente neonazistas ou supremacistas. Todos os casos tiveram como alvo mulheres pretas A vereadora de Fortaleza Adriana Gerônimo (Psol) está entre as mulheres pretas vítimas de violência política citadas no levantamento nacional. A parlamentar cearense foi alvo de uma das quatro ameaças identificadas pela pesquisa como assinadas por grupos ou perfis declaradamente neonazistas ou supremacistas. Os outros casos tiveram como vítimas mulheres pretas de diferentes regiões do País.

Além da cearense, foram vítimas a prefeita Professora Nilda (RN) e as vereadoras Alice Carvalho (RS) e Vivi Reis (PA).

O levantamento também aponta diferenças relacionadas à raça e a gênero.

Entre as 179 mulheres vítimas de violência política, 64 eram pretas, o equivalente a aproximadamente uma em cada três. As mulheres foram vítimas em 64 dos 84 episódios registrados contra pessoas pretas. Entre elas, 11 eram mulheres trans ou travestis. O levantamento também identificou quatro mulheres indígenas e uma mulher amarela entre as vítimas. Dos 32 casos em que uma mesma pessoa sofreu ataques repetidos durante o período analisado, 23 tiveram mulheres como vítimas.

Violência se concentra nos municípios

A política municipal concentrou 63% dos casos registrados. Dos 28 episódios com intenção de matar, 24 ocorreram contra políticos que atuavam nos municípios. Entre eles estão 10 dos 11 assassinatos e 14 dos 17 atentados identificados no período. Vereadores e vereadoras foram vítimas em 176 episódios, o equivalente a 49,6% do total. A pesquisa aponta uma média de três casos de violência para cada mil vereadores eleitos em 2024.

“A violência política é um fenômeno permanente, que não se restringe aos períodos eleitorais e se manifesta sobretudo nos municípios. Essa violência atinge diretamente quem ocupa espaços de decisão e exerce poder sobre contratos e recursos públicos”, afirma a diretora-executiva da Justiça Global, Glaucia Marinho.

Segundo ela, grupos criminosos e policiais estão entre os responsáveis pelos episódios identificados.

Maioria dos casos não resulta em punição

Apesar de 300 episódios, ou 84,5% do total, terem sido alvo de denúncia formal ou pública, apenas 46 casos, equivalentes a 13%, tinham apuração judicial ou policial em andamento. Em somente nove episódios, ou 2,5% do total, houve punição efetiva dos autores. O levantamento aponta ainda que, em 64 casos (18,1%), o agressor também ocupava mandato eletivo ou cargo público. Policiais e outros agentes estatais aparecem como responsáveis por 29,9% dos episódios. Em 52 casos, as agressões ocorreram dentro do próprio local de trabalho parlamentar.

Gisele Barbieri defende uma resposta conjunta do Estado e cobra a aplicação da Lei nº 14.192/2021, que estabelece medidas para prevenir, reprimir e combater a violência política contra a mulher. Para Franciele Petry, uma das coordenadoras da pesquisa, a violência também pode funcionar como mecanismo de intimidação para novas candidaturas. “A violência política precisa ser enfrentada porque sua reprodução impede justamente uma participação plena e efetiva de determinados grupos e corpos”, afirma.

A pesquisadora cita mulheres, pessoas negras, transexuais e integrantes da população LGBTQIAP+ entre os grupos afetados.

“Não é possível afirmar que estamos em uma democracia plena se os espaços de representação não são ocupados por essa diversidade”, diz Franciele.

Em 2025, ano sem eleições, foram registrados 225 casos de violência política, segundo o levantamento. Desde o início da série histórica, em 2016, as entidades já mapearam 1.937 episódios de violência contra agentes políticos e lideranças.