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Enfermeiros, garis, médicos e trabalhadores da educação pressionam Senado por piso salarial nacional

Mais de 20 propostas em tramitação buscam garantir remuneração mínima para diversas categorias, mas discussão sobre fontes de financiamento ainda trava avanços
Mulheres representam 22% das candidaturas ao Senado em 2026, enquanto homens são 78% dos concorrentes. Foto: Carlos Moura/Agência Senado

Nas últimas semanas, o plenário do Senado Federal se transformou em palco de uma mobilização crescente. Parlamentares de diferentes partidos têm cobrado do presidente da casa legislativa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), a votação de projetos que garantem piso salarial para categorias sem remuneração mínima definida ou com vencimentos considerados defasados.

Entre os grupos contemplados pelas propostas estão garis, profissionais de enfermagem e trabalhadores da educação. Embora tenha prometido convocar uma reunião de líderes para organizar as demandas, Davi Alcolumbre ainda não definiu uma data para o encontro.

O fortalecimento do movimento ocorreu durante os debates sobre a Medida Provisória (MP) 1.334/2026, aprovada na semana passada. A medida reajusta o piso dos professores da educação básica pública para R$ 5.130,63 em 2026.

A discussão ganhou ainda mais espaço com a tramitação de uma proposta destinada aos demais profissionais das escolas públicas. Desde então, o tema da valorização salarial passou a ocupar com frequência os pronunciamentos no plenário.

DESAFIO FISCAL

Pelo menos 20 propostas, entre projetos de lei e propostas de emenda à Constituição, estão em tramitação no Senado Federal com o objetivo de estabelecer pisos salariais para diferentes categorias profissionais.

Embora a Constituição assegure aos trabalhadores o direito a uma remuneração compatível com a complexidade das funções exercidas, a principal barreira para o avanço dessas iniciativas continua sendo a mesma: a definição dos recursos necessários para custear os reajustes.

A posição do presidente do Senado Federal tem sido reiterada em todas as discussões. Segundo Davi Alcolumbre, a valorização das categorias é legítima, mas a criação de novos pisos exige negociação entre União, estados e municípios, além de equilíbrio fiscal.

Durante sessão realizada no último dia 20, o presidente anunciou a intenção de reunir os líderes partidários para organizar as pautas e discutir as fontes de financiamento.

“Muitas das vezes, as fontes que estão colocando para suprir a nova demanda da legislação são as mesmas. Então, é bom a gente fazer a reunião para esclarecer quais são as fontes de receita que vão cobrir essas despesas”, ressaltou Davi Alcolumbre.

EDUCAÇÃO

Nos estados e municípios, os salários dos profissionais da educação básica são pagos principalmente com recursos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), principal mecanismo de financiamento da educação pública brasileira. Em alguns casos, há complementação da União.

A preocupação de gestores municipais está relacionada à capacidade financeira para absorver os aumentos.

Em audiência pública da comissão mista que analisou a MP, o prefeito de Muriaé-MG e integrante da Frente Nacional de Prefeitas e Prefeitos, Marcos Guarino, relatou dificuldades enfrentadas pelos municípios.

“O grande problema que a gente sente é que, quando chegam setembro e outubro, o dinheiro do Fundeb praticamente já acabou. A gente acaba investindo muito mais do que os 25% de educação, muito mais do que os 15% de saúde, e mais a folha. Quer dizer, o município vai ficando muito estrangulado“, afirmou Marcos Guarino.

Aprovada na semana passada, a MP 1.334/2026 foi editada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP) em 22 de janeiro. A norma fixa o piso dos professores da educação básica pública em R$ 5.130,63 para 2026, valor 5,4% superior ao de 2025.

O reajuste representa ganho real de 1,5 ponto percentual acima da inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC). Além disso, a proposta altera o critério de atualização da remuneração mínima da categoria.

Mudanças promovidas pela relatora, a senadora Professora Dorinha Seabra (União Brasil-TO), transformaram a medida provisória no Projeto de Lei de Conversão (PLV) 4/2026, encaminhado para sanção presidencial.

Entre as alterações incluídas estão a ampliação do benefício para professores temporários, exigências de transparência nos cálculos e a fixação expressa do valor de R$ 5.130,63 no texto legal.

O impacto estimado para 2026 é de R$ 6,4 bilhões.

OUTRAS CATEGORIAS

Enquanto o piso do magistério avança, profissionais de apoio escolar, como merendeiras, auxiliares de limpeza e secretários escolares, aguardam uma definição.

O Projeto de Lei (PL) 2.531/2021, aprovado pela Câmara dos Deputados em dezembro de 2025, estabelece um piso equivalente a 75% do valor destinado aos professores, cerca de R$ 3.847 pelos parâmetros atuais. A proposta ainda depende de análise do Senado Federal.

A iniciativa mobilizou parlamentares nos últimos dias. Para a senadora Teresa Leitão (PT-PE), o entendimento construído em torno do magistério cria condições para ampliar a política salarial.

“Nós temos já um projeto de piso negociado que envolveu os entes estaduais e municipais. Portanto, a gente tem mais previsibilidade para votar o piso de quem não é do magistério”, afirmou a parlamentar pernambucana.

No mesmo debate, o senador Omar Aziz (PSD-AM) destacou a importância de todos os profissionais envolvidos na rotina escolar.

“Nós reclamamos muito da qualidade da educação, mas a escola depende desde a pessoa com maior quantidade de títulos até quem está ali ajudando a mantê-la limpa e funcionando”, disse o amazonense.

A senadora Professora Dorinha Seabra ressaltou que a existência de uma fonte específica de financiamento permite discutir uma implantação gradual. “É possível fazer de maneira gradativa para que eles também tenham o seu piso assegurado”, frisou.

GARIS

Também durante a sessão, o senador Fabiano Contarato (PT-ES) voltou a defender a votação do PL 4.146/2020, de autoria do senador Angelo Coronel (Republicanos-BA).

A proposta estabelece piso salarial de R$ 3.036 para garis e margaridas, profissionais responsáveis por atividades de varrição, coleta e acondicionamento de resíduos em espaços públicos.

O texto já foi aprovado pela Câmara dos Deputados e aguarda inclusão na pauta do Senado Federal.

Segundo Fabiano Contarato, trata-se de uma categoria essencial para o funcionamento das cidades e que ainda enfrenta baixa valorização profissional.

“São homens e mulheres que trabalham na invisibilidade e que precisam dessa resposta. Eu quero me colocar à disposição para que a gente faça uma reunião o mais rápido possível para deliberar sobre esse projeto”, disse o senador.

SAÚDE

Entre os projetos com tramitação mais avançada está o PL 1.365/2022, da senadora Daniella Ribeiro (PSD-PB), que fixa em R$ 13.662 o piso salarial de médicos e cirurgiões-dentistas para jornadas de 20 horas semanais.

A proposta foi aprovada na Comissão de Assuntos Sociais (CAS) no dia 20 de maio e aguarda turno suplementar antes de seguir para a Câmara dos Deputados, caso não haja recurso para apreciação em Plenário.

De acordo com o relator da matéria, senador Fernando Dueire (PSD-PE), a iniciativa corrige uma defasagem histórica, já que a legislação atualmente utilizada como referência foi criada em 1961.

“Valorizar médicos e cirurgiões-dentistas é reconhecer que a qualidade da saúde oferecida à população passa diretamente pela valorização de quem está na linha de frente”, afirmou Fernando Dueire.

O caso da Enfermagem é apontado como exemplo das dificuldades enfrentadas para transformar pisos salariais em medidas financeiramente sustentáveis.

Em julho de 2022, o Congresso Nacional promulgou a Emenda Constitucional 124, criando o piso nacional da categoria. Poucas semanas depois, a Lei 14.434/2022 definiu os valores para enfermeiros, técnicos, auxiliares e parteiras.

ENFERMAGEM

A aplicação da medida acabou suspensa pelo Supremo Tribunal Federal (STF) devido à ausência de indicação da fonte de financiamento.

Uma nova etapa ocorreu em dezembro de 2022, quando a Emenda Constitucional 127 autorizou repasses federais com recursos do Fundo Social. Em maio de 2023, o presidente Lula sancionou a lei (14.581) que abriu crédito especial de R$ 7,3 bilhões, permitindo a implementação do piso.

Atualmente, a União realiza complementações financeiras para assegurar os valores mínimos no setor público. Na iniciativa privada, a aplicação ocorre de forma desigual e depende de negociações entre sindicatos e empregadores.

No Senado Federal, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 19/2024 propõe que o cálculo do piso da enfermagem considere uma jornada semanal de 36 horas.

A matéria já foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e aguarda votação em plenário.

A autora da proposta, senadora Eliziane Gama (PSD-MA), destacou o impacto da pandemia para a categoria durante a defesa da matéria.

“Hoje é um dia histórico para o Brasil em relação aos profissionais de enfermagem. Nós perdemos centenas de profissionais para a covid. É uma reparação que a sociedade brasileira precisa fazer”, disse durante a votação na CCJ.

Além das categorias mencionadas, outras também aguardam análise no Senado Federal. Entre elas estão psicólogos, nutricionistas, conselheiros tutelares e policiais militares, com propostas em diferentes fases de tramitação.

Com informações da Agência Senado.