O Ceará reúne condições para ampliar sua participação no desenvolvimento tecnológico, mas precisa continuar investindo em formação, pesquisa e articulação entre empresas, universidades e instituições de ciência e tecnologia. A avaliação é de Luiz Alves, diretor de Inovação e Novos Negócios do Instituto Atlântico, em entrevista ao Opinião Tech, realizada na sede da instituição, em Fortaleza.
Na conversa, Luiz Alves falou sobre o estágio tecnológico do Estado e os impactos da expansão da inteligência artificial, automação, computação de alto desempenho e data centers. Para o diretor, o Ceará conseguiu construir um ambiente de negócios e inovação capaz de antecipar transformações. “Eu acho que o Atlântico tem esse papel de ajudar o Estado do Ceará a antecipar o futuro, com muita experimentação, olhando à frente.”
Interiorização do conhecimento
Segundo Luiz Alves, a existência de diferentes polos de formação e inovação fora de Fortaleza também é um fator importante para a capacidade do Estado de produzir tecnologia.
Um dos pontos abordados na entrevista foi a interiorização do conhecimento. Para Luiz Alves, a expansão de universidades e instituições de ensino tecnológico para o interior permite formar profissionais que posteriormente podem atuar em instituições de ciência e tecnologia de ponta sem precisar deixar suas regiões de origem.
“O conhecimento é transformador. O conhecimento transforma a vida das pessoas e você não pode deixar isso como uma exclusividade dos grandes centros. A interiorização do conhecimento é libertadora.”
O diretor citou municípios como Tauá e Quixadá como exemplos de locais que passaram a formar profissionais capazes de atuar em projetos tecnológicos de maior complexidade. Na avaliação dele, esse processo permite que profissionais permaneçam em suas cidades e trabalhem para instituições localizadas em outros pontos do Estado, gerando conhecimento e riqueza nas próprias regiões onde vivem. “Essas pessoas estão tendo a oportunidade de trabalhar em locais de ponta como o Atlântico, gerando riqueza localmente e distribuindo essa riqueza na região onde elas moram.”
Data centers ampliam demanda por profissionais qualificados
A chegada de investimentos relacionados a data centers e inteligência artificial também foi abordada na entrevista. Para Luiz Alves, o movimento cria uma oportunidade para o Ceará, mas exige preparação da mão de obra. “O mercado de data center é novo no mundo inteiro. Isso não é um demérito do Estado do Ceará. O movimento da inteligência artificial, seja essa dos data centers, seja as que estão aplicadas em outros segmentos, como da indústria, tem uma demanda por pessoas qualificadas.”
O diretor avalia que o Estado possui vocação para aproveitar esse movimento, mas não pode permanecer parado diante da transformação tecnológica. Ele também citou a sanção, na última semana, do Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata), como um elemento que pode estimular uma cadeia de pesquisa científica e tecnológica associada aos novos investimentos. “A gente consegue olhar muito para frente, eu acho que isso é um exemplo claro de que sim, que o Estado do Ceará olha adiante, olha à frente.”

Para Luiz Alves, o avanço depende ainda de uma maior articulação entre diferentes setores. “Hoje, nós, cearenses, aprendemos que se a gente estiver junto é difícil parar.”
Luiz Alves também explicou como o próprio Instituto Atlântico surgiu e relacionou sua trajetória à importância das políticas públicas para a criação de um mercado de ciência e tecnologia no Brasil. Segundo ele, o instituto surgiu no período de implementação da chamada Lei de Informática, que estimulou empresas do setor de eletroeletrônicos a realizar investimentos em pesquisa e desenvolvimento. O Atlântico começou com seis pessoas e, segundo o diretor, atualmente reúne cerca de 600 profissionais. Ao longo de 25 anos, foram desenvolvidos mais de 1.300 projetos de tecnologia para empresas do Brasil e do exterior.
“Mais uma vez eu volto para a questão de como a política pública é importante. Criou-se um mercado de ciência e tecnologia no país como fruto dessa lei”, ressaltou.
Também há a possibilidade de estudantes, pesquisadores e profissionais se conectarem ao instituto por meio de vagas, bolsas, parcerias com universidades e visitas ao laboratório de inteligência artificial.
Instituto Atlântico amplia projetos de IA
Segundo Luiz Alves, o Instituto Atlântico espera superar R$ 60 milhões em projetos relacionados à inteligência artificial em 2026. As aplicações desenvolvidas para a indústria envolvem áreas como eficiência operacional, qualidade de produtos, processamento de imagens e redução do consumo de matéria-prima.
As soluções são aplicadas em diferentes desafios da indústria, incluindo melhoria da eficiência operacional, redução de problemas em processos produtivos, aumento da qualidade dos produtos e redução do consumo de matéria-prima. “Você colocando essas soluções, como a gente fala, no chão de fábrica, você consegue diretamente impactar no resultado financeiro dessas organizações.”
Quando são consideradas também as tecnologias de infraestrutura que permitem o funcionamento dessas soluções, o volume chega a R$ 90 milhões, segundo o diretor. “Esse recorte dos 55 [milhões] que a gente espera que ultrapasse 60 [milhões] até o final do ano, está só na camada da inteligência artificial. Chamamos de camada de software. (…) Mas eu só consigo ter essa camada se eu tiver uma infraestrutura que está cabendo por baixo.”
Além do impacto econômico para as empresas contratantes, Luiz Alves destaca que os projetos também funcionam como espaços de formação de profissionais e de cooperação com universidades. Além do impacto para as empresas, os projetos também funcionam como espaços de formação e qualificação de profissionais.
O Opinião Tech também conheceu projetos desenvolvidos no Laboratório de Inteligência Artificial (Alia), inaugurado em maio de 2026. Voltado à supercomputação, robótica e automação industrial, o laboratório integra a estrutura de inovação do Instituto Atlântico, que completa 25 anos em novembro deste ano.
Formação será decisiva
Para Luiz Alves, a preparação para a expansão da IA precisa alcançar profissionais de diferentes áreas, e não apenas especialistas em tecnologia.
Para ele, a capacitação não deve ficar restrita aos profissionais de tecnologia. Médicos, biomédicos, administradores, advogados, contadores e trabalhadores de outras áreas também precisarão compreender como utilizar a tecnologia em suas atividades.
“A gente precisa estudar inteligência artificial e compreender que ela não é só mais um martelo digital. É uma ferramenta que vai criar novos perfis de trabalhadores em todos os segmentos, sem exceção.”
O diretor defendeu ainda investimentos em pesquisa básica e formação de profissionais capazes de desenvolver novas soluções tecnológicas. Nesse contexto, citou um programa realizado em parceria com outro instituto do Estado para a formação de 150 mestres, doutores e pós-doutores, envolvendo as cinco regiões do Brasil e desafios de alta complexidade da indústria nacional. Para Luiz Alves, o objetivo é ampliar a capacidade de desenvolvimento tecnológico do país e reduzir a dependência de soluções produzidas no exterior. “Nessa perspectiva, a gente está falando de soberania tecnológica.”
Ao mesmo tempo, ele defendeu que a formação em inteligência artificial alcance trabalhadores de diferentes setores e seja acompanhada por parcerias entre especialistas em tecnologia e profissionais que dominam as atividades específicas de cada área. “Essa dobradinha entre quem domina a regra do negócio e quem domina a tecnologia.”
