Ensinar uma criança a reconhecer os sentimentos dos outros, respeitar as diferenças e conviver com quem pensa ou age de maneira diferente é um processo construído ao longo da infância. As experiências cotidianas, as relações familiares e a convivência escolar têm papel importante no desenvolvimento da empatia e na formação de ambientes mais inclusivos.
Em entrevista ao Opinião Criança, videocast do Opinião CE, a psicóloga clínica e escolar Marília Barreira, doutora em Psicologia e professora da Universidade de Fortaleza (Unifor), explica como a participação dos adultos contribui para o desenvolvimento da capacidade de compreender o outro e prevenir comportamentos discriminatórios. A entrevista completa está disponível no canal do YouTube do Opinião CE.
Segundo a especialista, o aprendizado precisa considerar a faixa etária e o nível de compreensão de cada criança. Nos primeiros anos de vida, conceitos abstratos, como empatia e respeito, podem ser difíceis de assimilar. Por isso, situações concretas do cotidiano são importantes para ajudar os pequenos a compreender as consequências de suas atitudes.
Se uma criança machuca um colega, por exemplo, os adultos podem ajudá-la a lembrar de uma situação em que ela própria sentiu dor e explicar que o outro também pode experimentar esse sentimento. A psicóloga ressalta que a imitação exerce um papel importante no desenvolvimento infantil. As crianças observam e reproduzem comportamentos dos adultos que fazem parte de sua rotina, o que torna o exemplo tão relevante quanto as orientações verbais.
“Não é só o que a gente fala para a criança, mas o que a gente faz perto dela também”, destaca Marília.
Atitudes discriminatórias, comentários preconceituosos e formas agressivas de tratar outras pessoas podem influenciar a maneira como os pequenos aprendem a se relacionar. Para a especialista, ensinar empatia exige coerência entre o discurso dos adultos e suas práticas cotidianas.
Acolhimento e pertencimento ajudam a combater a exclusão
Sentir-se acolhida, valorizada e parte de um grupo também contribui para o desenvolvimento da empatia. De acordo com Marília Barreira, quando a criança percebe que tem valor em ambientes como a família e a escola, tende a construir relações mais significativas e a considerar como suas atitudes afetam outras pessoas. A convivência permite compreender que cada indivíduo possui qualidades, dificuldades e particularidades. Essas diferenças, portanto, não devem ser motivos para rejeição ou exclusão.
Quando uma criança sofre preconceito, bullying ou algum tipo de exclusão, o acolhimento dos adultos é fundamental. Muitas vezes, ela ainda não consegue identificar ou expressar o que aconteceu e precisa de ajuda para compreender a situação e reconhecer os próprios sentimentos. “A palavra-chave é acolhimento e diálogo”, afirma a psicóloga.
Nessas situações, pais, responsáveis e educadores devem escutar a criança sem minimizar seu sofrimento, reconhecer suas emoções e intervir quando necessário. A atuação conjunta da família e da escola é importante para mediar conflitos e prevenir comportamentos discriminatórios.
A especialista também chama a atenção para a necessidade de compreender o contexto de todas as crianças envolvidas, inclusive daquela que pratica uma agressão. Isso não significa ignorar ou justificar a violência, mas investigar os fatores associados ao comportamento e oferecer o acompanhamento adequado.

Diálogo entre adultos e crianças fortalece a empatia
A construção da empatia também depende da qualidade das relações entre crianças e adultos. Para Marília Barreira, criar espaços de escuta e diálogo ajuda os pequenos a se sentirem seguros para compartilhar experiências, dúvidas e conflitos. A especialista recomenda que pais, responsáveis e educadores demonstrem interesse pelo cotidiano infantil e evitem julgamentos precipitados. Perguntar sobre as relações na escola, as conversas entre colegas e os sentimentos diante de determinadas situações pode abrir espaço para abordar temas como inclusão, preconceito e respeito às diferenças.
“Demonstrar interesse, mas voltando àquela história também do não julgar no primeiro momento”, orienta Marília.
Atividades comuns, como preparar uma refeição, organizar a casa ou fazer o trajeto até a escola, também podem se transformar em oportunidades de conversa e convivência. Esses momentos ajudam os adultos a conhecer melhor as experiências das crianças e a orientá-las diante de situações do dia a dia. Outro aspecto importante é reconhecer que cada criança possui características e necessidades próprias. As estratégias educativas precisam considerar essas particularidades, sem deixar de estabelecer limites e orientar comportamentos.
O desenvolvimento da empatia, portanto, não é responsabilidade exclusiva da família ou da escola. Os diferentes ambientes frequentados pela criança, as relações que estabelece e os conteúdos aos quais tem acesso também participam de sua formação.
