O Opinião Criança, projeto do Grupo Opinião CE, e a Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (Alece) realizaram, nesta sexta-feira (19), a palestra “Neurodivergência e o Desenvolvimento Infantil”, ministrada por Gabriel Salomão, especialista em Educação Montessori.
A iniciativa, que faz parte do projeto “Cada mente é um mundo – entendendo a neurodivergência”, é voltada a pais, mães, educadores, profissionais da saúde e responsáveis por crianças neurodivergentes.
Em um auditório lotado no Complexo das Comissões Técnicas da Alece, mais de 100 inscritos participaram do momento. Uma das inscritas na palestra foi Anna de Morais, jornalista e estudante de Psicologia, que destacou ter vivido uma experiência “muito enriquecedora”.
“O professor Gabriel compartilhou, com muita generosidade, experiência e sabedoria sobre os processos de ensino e de aprendizagem das crianças”, afirmou.
Ela frisou ainda que o momento ajuda na sensibilização para que as pessoas estejam mais aptas a acolher as crianças de forma a “não olhar necessariamente para os diagnósticos, mas olhar para a criança de uma forma individualizada”.
“Gostaria de parabenizar o Opinião Criança por essa proposta corajosa de se voltar para um público, hoje, dentro da nossa sociedade, tão carente de esclarecimento e de acolhimento”, acrescentou.
Paulo Fernandes também esteve entre os participantes impactados pela iniciativa. Pai de uma criança de 5 anos com dupla excepcionalidade, ele relata que, desde o diagnóstico do filho, tem buscado, ao lado da esposa, acompanhamento especializado para atender às necessidades da criança. Apesar desse esforço, avalia que as áreas da saúde e da educação ainda são restritas em conhecimento e aplicação de métodos para crianças neurodivergentes, o que torna fundamental ampliar o debate sobre o tema.
“Eventos como o de hoje, que trazem um profissional gabaritado, reconhecido no mundo da educação e que desempenha um papel muito importante, especialmente no espaço em que estamos — que é público e tem condições de promover alterações legislativas —, são fundamentais para discutir um tema que ainda não é tratado como deveria, para que a gente consiga sair dessa condição de exclusão e avançar para uma condição de compreensão”, destacou.
Importância da independência do agir, querer e pensar
O palestrante, em seu momento de fala, destacou a importância de propiciar caminhos para que as crianças ajam, queiram e pensem por si mesmas.
De acordo com ele, são um sucesso quaisquer formas de educação que ajudem na independência das crianças. Ao mesmo tempo, qualquer coisa que impeça a criança de agir, querer e pensar por si mesma é vista como um fracasso.
“Quando a gente tem um ambiente que não tem liberdade para as crianças, não é seguro e estável o suficiente, (…) eu não posso mudar, eu preciso me conter, porque o ambiente é perigoso”, disse, sob a perspectiva de uma criança.
A exclusão e o bullying nas escolas, conforme o especialista, são exemplos de ações que uma criança neurodivergente, ao sofrer, precisará buscar formas de conter. Já em situações em que o ambiente é estável, a criança poderá mudar e tentar coisas novas, favorecendo a liberdade e a independência de pensamento e de ação.
“Só é possível abrigar a diversidade, educar a diversidade e conviver com a diversidade em um ambiente que é estável e seguro, porque só nesse ambiente a criança pode ser livre”, acrescentou.
Ainda segundo Gabriel Salomão, a neurodivergência deve ser tratada como um fenômeno social, não biológico. Ele explica: “A diversidade é biológica, a divergência é social. A gente decide quem cabe e quem não cabe”, apontou.

Opinião Criança
Projeto do Grupo Opinião, o Opinião Criança consiste em um projeto multiplataforma, incluindo conteúdos impressos, digitais, audiovisuais e atividades presenciais.
Entre os destaques está a produção de uma edição especial do jornal infantil Opinião Criança sobre neurodivergência. O material conta com reportagens, entrevistas com especialistas adaptadas para o público infantil, participação de parlamentares ligados à pauta da inclusão, atividades interativas e recursos de acessibilidade, como audiodescrição e QR codes.
Durante o evento na Alece, a diretora do Grupo Opinião e editora do Opinião Criança, Elba Aquino, destacou o processo de criação do projeto. Segundo ela, foi no caminho de se perguntar “qual mundo receberiam os seus filhos” que surgiu a ideia de reunir educadores, pesquisadores e profissionais de saúde que a ensinaram a enxergar a infância “com mais respeito e mais responsabilidade”.
“Com o tempo, percebi que cuidar da infância não é uma tarefa apenas das famílias. É uma missão coletiva. A escola, os profissionais, os meios de comunicação, as instituições e toda a sociedade precisam participar dessa conversa”, afirmou.
O jornal, de acordo com Elba, é pensado para servir como uma ponte de diálogo entre adultos e crianças, mantendo a “absoluta prioridade para o olhar infantil”.
A diretora ressaltou ainda que a escolha por um jornal impresso se deve ao fato de vivermos, atualmente, em “um tempo de excesso de estímulos e velocidades”. O material surgiu, então, como um “convite para desacelerar, ler, imaginar, criar com as mãos, fazer arte, experimentar, brincar, descobrir a cidade, conhecer pessoas, desenvolver autonomias e viver experiências reais”.
