Menu

Filme “Feito Pipa” teve roteiro desenvolvido em Lab Cena 15, projeto cearense de incentivo ao cinema

A produção foi gravada em Quixadá, no Sertão Central do Ceará
Foto: Divulgação

O filme cearense selecionado para representar o Brasil na disputa pelo Oscar em 2027, “Feito Pipa”, foi um dos projetos desenvolvidos durante a 7ª edição do Laboratório Cena 15, da Escola Porto Iracema das Artes. A Academia Brasileira de Cinema anunciou, nesta quarta-feira (16), a escolha do longa dirigido por Allan Deberton e roteirizado por André Araújo.

Estrelado por Lázaro Ramos, Yuri Gomes e Teca Pereira, o longa-metragem coleciona premiações, entre elas dois prêmios no 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim e cinco Kikitos dourados no Festival de Gramado. A produção foi gravada em Quixadá, no Sertão Central do Ceará.

A história acompanha Gugu, um jovem que busca compreender a própria identidade enquanto sonha em se tornar jogador de futebol. Criado livremente pela avó, ele tenta evitar a mudança para a casa do pai, com quem mantém uma relação conturbada. O roteiro foi construído a partir de fragmentos de experiências pessoais de André Araújo, em parceria com Allan Deberton.

Entrevista ao Opinião CE, Araújo afirmou que “Feito Pipa” é seu projeto mais íntimo, comparado aos que já fez, o que está desenvolvendo e que talvez faça no futuro. A trama é pessoal, mas não em um sentido autobiográfico. 

“O que está na tela não é a minha história, mas é o projeto com o qual tenho mais intimidade, com aquele universo, com aqueles personagens. A forma como me relaciono com ele diz muito também da maneira como vejo o mundo”, pontuou.

André Araújo trouxe para história um pouco das suas experiências, afetos e memórias. “O roteiro nasce desse desejo que sempre tenho, de reimaginar o lugar de onde eu vim, e também experimentar o mundo a partir do cinema, da arte. Tem uma poesia no filme que também é uma poesia que eu enxergo dentro de mim, enquanto artista, enquanto cineasta”.

Com o anúncio da Academia Brasileira de Cinema, “Feito Pipa” segue na disputa por uma vaga entre os indicados ao Oscar. A lista oficial será divulgada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas em janeiro de 2027. A estreia nacional do longa está prevista para 5 de novembro.

A primeira versão do roteiro

Segundo Manoela Ziggiatti, coordenadora do Lab Cena 15, os participantes chegam ao laboratório com um argumento, texto inicial que apresenta a ideia central da história.

Os projetos passam por sete meses de desenvolvimento. Foto: Daniel Calvet

A partir daí, os projetos passam por sete meses de desenvolvimento, período em que os roteiristas participam de mentorias, oficinas e encontros com profissionais do audiovisual. O objetivo é fazer com que a ideia inicial amadureça até chegar à primeira versão do roteiro.

“O laboratório funciona como um espaço de nascimento dessas histórias, quando essas histórias ganham sua primeira versão”, explica Manoela.

Durante o processo, os projetos recebem diferentes olhares de tutores e profissionais convidados. Os encontros permitem discutir aspectos da dramaturgia e encontrar caminhos para desenvolver personagens, conflitos e estruturas narrativas.

André Araújo que passar pelo Laboratório Cena 15 foi uma experiência muito rica, tanto para o filme como também para ele como roteirista. 

“Lá eu tive a oportunidade de trocar com grandes nomes do cinema nacional, como Camarinha Nunes, Sérgio Machado, que me permitiram olhar para a minha história de outras formas, colocar o meu olhar em crise, tensionar as questões que eu estava tentando explorar, descobrir que filme eu queria fazer também, que filme eu não queria fazer. Enfim, esses momentos que nós tivemos dentro do Porto Iracema das Artes ajudaram muito a construir o roteirista que eu sou hoje”, relatou.

A coordenadora destaca ainda o caráter colaborativo da formação. Além das mentorias, os próprios roteiristas são estimulados a trocar experiências e comentários sobre os projetos uns dos outros. “É um laboratório que funciona de forma muito colaborativa. Sempre a gente tem uma pluralidade de tutores, uma pluralidade de olhares”, afirma.

No caso de Feito Pipa, o desenvolvimento não terminou com a passagem pelo Cena 15. O projeto foi indicado pelo laboratório para a Incubadora Paradiso, do Projeto Paradiso, onde continuou o processo de desenvolvimento do roteiro.

Formação além de um único filme

Apesar da repercussão atual de Feito Pipa, Manoela ressalta que a proposta do Cena 15 não se limita à criação de um projeto específico. O laboratório busca trabalhar com roteiristas que já possuem alguma trajetória no audiovisual e aprofundar seus conhecimentos em dramaturgia.

“A gente trabalha com pessoas que têm novas vozes, mas, em geral, com pessoas que já têm uma relação com o campo do audiovisual estabelecida”, explica.

A formação se concentra em questões como a construção da narrativa, o desenvolvimento de personagens e as diferentes técnicas utilizadas para contar uma história. Segundo Manoela, mesmo participantes que já trabalham profissionalmente com audiovisual encontram novos conhecimentos durante os sete meses de formação.

Proposta une a prática de desenvolver um longa-metragem à formação continuada dos profissionais.Foto: Micaela Menezes

Para ela, um dos diferenciais do programa é justamente a duração. Enquanto muitos laboratórios de roteiro são realizados em poucos dias ou durante uma semana, o Cena 15 oferta um processo prolongado de desenvolvimento.

“As pessoas que entram aqui têm essa dupla possibilidade: elas vão desenvolver o projeto delas, mas, paralelamente, estão entrando numa formação intensa de roteiro que vai servir para a vida”, afirma.

A proposta, portanto, une a prática de desenvolver um longa-metragem à formação continuada dos profissionais, permitindo que os conhecimentos adquiridos sejam utilizados também em trabalhos posteriores.

Dramaturgia como ferramenta para o audiovisual cearense

Criado em 2013 pela Escola Porto Iracema das Artes, o Laboratório Cena 15 foi implementado pelo cineasta cearense Karim Aïnouz, em parceria com Marcelo Gomes e Sérgio Machado. O programa é voltado ao desenvolvimento de roteiros de longas-metragens de ficção e séries.

Desde a criação, o laboratório já apoiou 80 projetos e envolveu 157 roteiristas. Além de “Feito Pipa”, passaram pelo programa produções como “Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha”, de Janaína Marques; “Fortaleza Hotel”, de Armando Praça; e “Inferninho”, de Guto Parente e Pedro Diógenes.

Feito Pipa mostra a relevância de políticas públicas. Foto: Daniel-Calvet

Para Manoela, a contribuição do Cena 15 está relacionada principalmente ao fortalecimento da dramaturgia, independentemente do gênero escolhido pelos realizadores.

“Não importa se é comédia, se é romance, se é drama, o que importa é, para a gente, esse interesse na dramaturgia, em como contar uma história da melhor maneira possível, com personagens fortes, personagens complexos, com densidade”, afirma.

A coordenadora também relaciona o trabalho do laboratório a um movimento mais amplo de formação e produção audiovisual no Ceará. Segundo ela, o atual momento do cinema cearense é resultado de investimentos, políticas públicas e iniciativas de qualificação construídas ao longo dos anos.

Ela cita o próprio percurso de Feito Pipa como exemplo desse processo. O roteiro saiu do Cena 15 em 2019 e, sete anos depois, chega ao momento de representar o Brasil na disputa pelo Oscar.

“A gente precisa esperar esse tempo para ver o resultado das políticas públicas”, afirma.

Novas turmas e o incentivo para assistir ao cinema brasileiro

O Cena 15 mantém a realização de novas turmas como parte de sua proposta de formação. Segundo Manoela, as inscrições são abertas anualmente e cada edição recebe quatro projetos do Ceará, desenvolvidos em duplas, garantindo a participação de pelo menos oito roteiristas cearenses.

O laboratório também possui vagas destinadas a participantes de outros estados brasileiros. Na edição vigente, o programa deu ainda um primeiro passo de internacionalização ao abrir uma vaga para Angola, com duas roteiristas angolanas integrando a turma.

A previsão é que as inscrições para a próxima edição sejam abertas no primeiro semestre de 2027, possivelmente entre março e abril, embora a data ainda não esteja definida. A nova turma marcará a 15ª edição do laboratório.

Coordenadora diz que Lab 15 é um lugar estratégico de formação de identidade. Foto: Daniel-Calvet

Diante da crescente visibilidade de produções cearenses, Manoela defende que o público também participe desse processo. Para ela, a valorização do audiovisual passa não apenas pela criação e pelo financiamento dos filmes, mas também pela presença do público nas salas de cinema.

“Eu diria: vá ao cinema e leve quem você puder”, afirma.

Para a coordenadora, assistir às produções brasileiras é uma forma de completar o ciclo que envolve formação, políticas públicas, produção e circulação das obras. O audiovisual, segundo ela, também possui uma função relacionada à construção da identidade e à reflexão sobre a sociedade.

É um lugar estratégico de formação de identidade, para a gente entender e para ser um espaço de reflexão sobre quem somos e para onde queremos ir”, destaca.