Tenho o péssimo hábito de procrastinar a escrita das crônicas. A vida vai passando ligeira, encontro uns temas bacanas durante a semana, mas sempre digo comigo: “mais tarde, você escreve”. E o que acontece? Eu esqueço do tema.
Neste domingo, passei o dia lembrando que meu prazo estava acabando e nada de encontrar um tema para a crônica. No fim do dia, resolvi apelar para quem sabe ser cronista, a Clarice Lispector. Peguei o calhamaço na estante amarela, com todas as crônicas que ela escreveu, e li onde tinha parado. Ainda estava marcada a página com os marcadores de tecido que eu aprendi a fazer para presentear.
Pois bem. O tema dela era o fato de ser uma tímida ousada. E sendo dessa maneira, se atreveu a entrevistar Pablo Neruda, que passava uns dias na casa do escritor Rubem Braga. Para tristeza de Clarice, ele escorregou das perguntas como um sabonete. E respondeu tudo de forma muito aberta e com poucas palavras. Não rendeu, mas a tímida ousada Clarice não desistiu de primeira. Fez o que pôde para arrancar algumas respostas do poeta.
Nesse miúdo aspecto, sou como Clarice. Uma tímida cheia de ousadia. Me tremo inteira, fico gelada, gaguejo, mas não desisto das pautas difíceis. Afinal, o jornalismo é meu ganha pão. Tenho que trazer as respostas, nem que o entrevistado seja o governador ou o prefeito. Me muno de um sorriso e vou tentando abrir caminho.
Precisei de muita ousadia para vender meus livros também. Outro feito pela necessidade. Livros impressos, boletos gerados. Era preciso pagar. Então, dá-lhe rememorar as técnicas de vendas dos tempos que eu revendia os cosméticos da Avon e da Natura. Acrescidas de um pouco do marketing aprendido com os colegas escritores independentes. E assim, foram embora 900 livros físicos. E todos os boletos foram pagos.
Agora, entro em outra empreitada. Vou participar de duas mesas redondas na Bienal como convidada. Fazer de conta de novo que não sou tímida e encarnar a ousadia de quem já chegou até aqui. Vai ter que dar certo. E vai dar.
No entanto, como aprendiz de dança, continuo querendo me esconder atrás das outras. Ainda sou descoordenada, meu remelexo é meio desajeitado. Mas foi ousadia querer fazer o primeiro curso de dança aos 41. Aprender algo novo oxigena o cérebro, dizem. E ando cansada de estralar todas as articulações quando desço as escadas. Quem sabe eu consiga driblar a vergonha para isso também e encarar um palco em uma apresentação? Por enquanto, vou treinando a ousadia com os vídeos secretos. Uma hora o molejo nos quadris chega. Por hora, vou me divertindo e aprendendo a lidar com a timidez que ainda está comigo.
