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Um março atípico

Dizem que março é um mês sem fim. Entre o dia primeiro e o dia 31, cabem separações e recomeços, revelações bombásticas, empregos que surgem e se despedem, boletos que brotam do chão, doenças vindas da chuva ou das aflições e lembranças que aquecem o coração.

No dia 31 de março, recebi minha primeira carta de amor. Era copiada de um livro, cheia de desenhos dos Cavaleiros do Zodíaco e figurinhas de Icekiss. Eu era adolescente.

Já bem depois, foi em março também que atravessei a Avenida da Universidade para conhecer meus colegas de Jornalismo. A maior parte segue espalhada pelo Brasil e pelo mundo todo. Por muitos anos, eu quis desistir desse caminho. Hoje, sigo firme nele de novo.

Em março, dali a outro bom espaço de tempo, fui mãe de um bebê recém-nascido. Meu primogênito é de fevereiro e por essas épocas, eu andava tentando me acostumar a banhar, amamentar, dormir e sossegar. Isso nunca é fácil, muito menos indolor, mas passou.

Foi nesse terceiro mês do ano que comecei na maioria dos meus empregos. Como assessora de vereadora, fui aprovada em uma entrevista após uma prece. Depois, fui aceita para um emprego no jornal. Outra prece atendida, desta vez em um dos meus momentos mais sombrios. Quando já tinha tentado de tudo e todas as portas permaneciam fechadas.

Sete anos depois, em outro março sem fim, eu aguardava a minha demissão desse mesmo lugar. Já fazendo outras matérias, porque o jornal era bem diferente do que me acolheu. Eu era mãe de novo e tentava fazer de outra forma o que fiz da primeira vez. Ia criar eu mesma meu filho de oito meses. Mal sabia tudo que teria que aprender nesses anos duros e pesados. Saí outra de tudo isso. Não sei se mais amarga, mais dura ou mole, ou mais triste. Outra, certamente.

Nesses anos de pausa, morri tantas vezes. Tanta coisa apodreceu de quem eu era. Porém, a semente germinou e se alimenta dessa fertilidade do que o passado deixou. A experiência me fez mais forte. Tem erros que eu pretendo não repetir. Sigo olhando o horizonte e ele me parece luminoso. O novo me instiga a seguir adiante. Estremeço um pouco de medo, mas o frio na barriga não me paralisa mais.

Março dessa vez passou mais ligeiro. Muitos feriados.  A chuva que ia ser escassa, veio abundante. Eu também precisei me refazer, tive outras surpresas. Algumas boas e outras que me pediram para ter mais força. A paciência é sempre difícil, mas tem coisas na vida da gente que só o tempo resolve. Todos passamos por transformações. Parece que estou no meio de várias. Quem não está?

O que será que abril trará? Aguardo algo bom porque até aqui, o ano trouxe muitos desafios. Prefiro ter esperança.