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Um estádio lotado para o povo se ver

Como uma viagem rotineira na vida de um jogador de futebol cruzou com um momento histórico da política nacional

Tricampeão do mundo em 1970, o presidente Médici falou à nação: “Sinto uma profunda felicidade ao testemunhar a alegria do nosso povo, nesta elevada forma de patriotismo. Identifico a vitória conquistada na fraternidade do esporte com a nossa luta pelo desenvolvimento nacional”.

No final daquela década, ainda vivíamos os estertores do regime militar. O futebol integrava o país. Era o tempo em que o Campeonato Nacional reunia 94 equipes e circulava o slogan: “Onde a Arena vai mal, um time no Nacional; e onde a Arena vai bem, bota outro time também”.

Foi nesse clima que a delegação do Ceará Sporting Club desembarcou em São Paulo para cumprir a tabela e, se não me falha a memória, enfrentar o Botafogo de Ribeirão Preto. Viajamos numa tarde de dia de semana e ficamos hospedados em São Bernardo do Campo, no Holiday Inn.

A viagem foi cansativa. Depois do jantar, todo mundo foi dormir. A internet ainda engatinhava e era coisa de laboratório. A comunicação se fazia por meio de papel timbrado. No papel que recebi no quarto, estava escrito: “Treino tático às 15h30 no Estádio da Vila Euclides”.

Depois do almoço, recebemos outro comunicado, informando que o treino havia sido cancelado. O Estádio da Vila Euclides fora requisitado pelos metalúrgicos de São Bernardo, que estavam em greve e fariam uma assembleia.

Fiquei curioso.

Treinamos numa área de lazer do hotel. Quando terminamos, peguei um táxi e me mandei para a Vila Euclides. Uma multidão de operários ia se acotovelando, procurando lugar dentro e fora do campo. De repente, silêncio total.

Um homem de estatura média, aparentando pouco mais de 30 anos, em pé sobre um caminhão, começou a falar. A voz era firme, e as palavras eram pronunciadas num linguajar que todos entendiam. Falou durante um bom tempo e terminou bastante emocionado.

Disse algo mais ou menos assim: “Amanhã faremos uma passeata. Poderemos sofrer repressão. A presença dos companheiros, acompanhados de suas companheiras, é muito importante. Ninguém reagirá a qualquer provocação”.

Era Lula.

O dirigente sindical de então cresceu bastante. Fundou o PT, superou preconceitos, foi eleito três vezes presidente do Brasil e tenta agora um quarto mandato. Hoje, é reconhecido mundialmente como um emissário da paz e do desenvolvimento humano.