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Trabalho de Criança

Para que as crianças possam fazer seu trabalho, precisam ser protegidas dos adultos que defendem o trabalho infantil
Foto: Ministério do Trabalho/Reprodução

De tempos em tempos, funestas ideias ressurgem do submundo da exploração escravagista, e sugerem que crianças deveriam começar a trabalhar muito cedo.

Um pré-candidato à Presidência da República disse recentemente: “Lá fora, nos Estados Unidos, criança sai entregando jornal, recebe lá não sei quantos centavos por cada jornal entregue, no tempo que tem. Aqui é proibido, né? Você tá escravizando criança. Então é lamentável. Mas tenho certeza que nós vamos mudar.”

Em paralelo, 6.372 crianças e adolescentes foram retirados de situações de trabalho ilegal entre 2023 e abril de 2025 – afirma o portal de notícias do Governo Federal. Diante da assombrosa situação do trabalho infantil no Brasil, o ex-Presidente do Tribunal Superior do Trabalho João Oreste Dalazen disse, falando de sua própria experiência:

“Eu comecei a trabalhar antes de completar dez anos de idade. Eu fui engraxate, eu fui vendedor de picolé, eu fui vendedor de jornal. Enquanto eu via meus amiguinhos, meus colegas, brincando na rua, eu tinha que passar com a minha caixa de engraxate, os meus jornais sob o braço. … Não venham me dizer que o trabalho dignifica a criança. O trabalho infantil mata a esperança e mata o futuro. O que dignifica a criança é a escola. É o brincar, o lazer, o afeto. É o direito de sonhar que o trabalho precoce nos tira. Lutemos para que nenhuma criança tenha sua infância assassinada pela necessidade do trabalho.”

No trabalho de Dalazen – e das seis mil crianças resgatadas pelo Ministério Público recentemente – a energia da criança é sugada para criar um serviço ou produto em troca de alguns centavos. É funesto.

A atividade que faz bem para as crianças é o oposto dessa.

Quando uma criança constrói um castelo de terra, ou se equilibra em uma mureta de praça, está se esforçando. Mas o esforço desta criança não produz nenhuma riqueza no mundo material.

Este tipo de esforço gera persistência, cria autoestima, desenvolve todas as capacidades físicas da criança e a ensina a existir no mundo de forma independente do adulto.

É importante que as crianças se tornem gradativamente independentes dos adultos. Elas aprendem a andar, falar, comer, vestir e despir, abrir e fechar. A cuidar de sua higiene, usar talheres, ler e fazer contas. Com esforço vão entendendo como socializar, agradar ou discordar, e como se comportar nas situações mais diversas.

As crianças se esforçam, e o esforço das crianças é muito importante. Mas o produto deste esforço é a criança em si. Em outras palavras, todo o constante esforço das crianças tem como objetivo a construção do ser humano.

Essa é uma ideia básica dos Direitos da Criança, conforme a ONU e a UNICEF. As crianças têm direito a 3 P’s: Provisão, porque tudo deve ser oferecido a elas para que possam ter um bom desenvolvimento; Proteção, porque nada pode impedi-las de fazer o magnífico trabalho de criar seres humanos; e Participação, porque suas vozes e necessidades devem ser parte das considerações dos adultos.

Maria Montessori, psiquiatra e educadora, considerava que os esforços das crianças são nobres demais para serem chamados apenas de brincadeira. Ela nos dizia: “Você ficará surpreso quando eu lhe disser que a maior parte do que você chama de ‘brincadeira’ é, na verdade, trabalho.”

Quando dizemos que as crianças apenas brincam, pensamos em uma vida de constante diversão. Mas a maior parte do tempo das crianças, se forem deixadas em liberdade em um ambiente seguro, é de esforço sério, dedicação intensa e autoaperfeiçoamento. Em outras palavras, trabalho.

Mas se trata do bom trabalho, que não pode ser explorado. Em lugar de trocar todo o esforço de uma vida por alguns centavos, elas o trocam pela satisfação de criar um ser humano.

Respeitemos o trabalho das crianças.